"Os venezuelanos, que já perderam muito, também perderam o medo”

Os venezuelanos esperam que a actual situação de impasse na Venezuela se resolva e, de preferência, sem um banho de sangue. Mas há uma pergunta para a qual ninguém tem resposta: o que vai acontecer daqui para a frente?

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CARLOS GARCIA RAWLINS/Reuters

Expectativa, tensão e resiliência. É este o ambiente na Venezuela, em especial na capital, Caracas. A autoproclamação de Juan Guaidó como Presidente interino (reconhecida por vários países, como Estados Unidos ou Brasil), tornou a Venezuela um país com dois chefes de Estado, e os venezuelanos estão à espera para ver o que acontece, mas com vontade de continuar nas ruas para resolver o impasse. Ainda que exista receio de uma escalada nos confrontos.

Maolis Castro, jornalista venezuelana, diz, em conversa com o PÚBLICO, que “há muita expectativa” - "A população tem sempre esperança de que a saída de Nicolás Maduro esteja próxima". Mas também há “tensão”.

Maolis Castro identifica “grande diferença” nas manifestações dos últimos dias, depois da autoproclamação de Guaidó, em relação a outras da oposição que aconteceram no passado, com um maior número de pessoas nas ruas a contestar o regime. 

Fernando Campos, português residente em Caracas e que é conselheiro das comunidades portuguesas na Venezuela, descreve ao PÚBLICO o ambiente como uma “calma tensa”. “Os transportes públicos estão bastante limitados. É uma situação de espera para ver o que se vai passar”, diz, acrescentando que o “comércio está na sua grande maioria aberta”.

Apesar disso, Campos diz que as noites têm sido “agitadas” com relatos de “saques” e “alguns focos de violência” em várias partes do país.

Segundo o Observatório Venezuelano de Conflituosidade Social, a violência da última semana já fez pelo menos 26 mortos. A Human Rights Watch diz ainda que 364 pessoas foram detidas e que as autoridades atacaram e detiveram jornalistas a cobrir os protestos.

Fernando Campos pede alguma “cautela” quando a conversa passa para a comunidade portuguesa na Venezuela. “Não podemos pensar que toda a comunidade tem o mesmo pensamento”, explica. “A grande maioria da comunidade portuguesa pode estar contra este regime, mas também há os que são afectos ao regime”, esclarece.

O conselheiro admite que “há muita preocupação e um pouco de temor”. As pessoas “têm medo de represálias”. “A expectativa é a de que o actual regime abra passo a uma nova posição política, que realmente estimule a economia e a produção nacional, porque neste momento a economia e a produção nacional estão em mínimos históricos”, continua Campos. “Eu acredito que isto tem de acontecer a qualquer momento. Porque neste momento a nossa situação é insustentável”.

Francisco da Silva é venezuelano e está em Portugal há 16 anos, altura em que saiu do seu país “já com a percepção de que isto poderia acontecer”. Tem os seus pais e irmãos na Venezuela. Confirma que existe um sentimento de “insegurança” e dificuldade em “encontrar assistência médica e medicamentos”.

“Daqui, o máximo que se pode fazer é mandar ajuda”, relata. “Já enviei medicamentos de que os meus familiares precisavam e a que não tinham acesso”.

Alguns dos familiares de Fernando da Silva saíram à rua na quarta-feira, mas “depois tiveram de voltar para casa porque começaram a existir situações mais conflituosas”.

Contestando a legitimidade da Assembleia Constituinte criada por Maduro e a vitória deste nas últimas eleições presidenciais, Francisco da Silva diz que o regime “esteve a armar milícias”, o que aumenta o seu sentimento de “temor pela situação das pessoas”.

“O problema é que os civis saem à rua indefesos contra os militares ou as milícias armadas. O problema não é tanto os militares, mas mais as milícias armadas” explica.

“A situação é neste momento grave. Ou há uma cedência de Maduro ou pode haver um banho de sangue”, receia. “Já foram esgotados todos os mecanismos de discussão – e isto dura há 20 anos. E a outra parte nunca cedeu em nada”, acrescenta.

E que apoio tem, hoje, o regime? “Estive nas manifestações de quarta-feira. Há mais gente do lado da oposição, a manifestação chavista [de quarta-feira] foi a mais pequena que já vi", diz Maolis Castro. "E não digo só eu, dizem vários jornalistas”.

Há, porém, uma pergunta para a qual não há resposta: quais vão ser os próximos capítulos? “Todos perguntamos o mesmo”, diz Maolis Castro.

“Gostava de ser capaz de prever”, afirma Fernando Campos, que tem "muita fé”. “Levo 29 anos neste país e continuo a acreditar que a Venezuela vai dar uma volta e que o senso comum vai prevalecer em algum momento”.

Maolis Castro identifica “vários cenários”. “Está em cima da mesa o cenário da negociação. E creio que Maduro está consciente da dificuldade. Hoje não vemos um Maduro tão seguro como, por exemplo, em 2014 ou em 2017”, analisa.

“Outro cenário, que pode ser possível, é o conflito escalar a um nível internacional. Ou haver mais ingerência de outros países. E isso eleva a tensão”, acrescenta a jornalista que colabora com o jornal espanhol El País. Diz que Maduro sabe que já não tem o apoio de outros tempos. 

“A cúpula militar está a segurar Maduro. Porque se ele soubesse que a população o apoiava, solucionava isto facilmente convocando eleições presidenciais. Não o faz porque sabe perfeitamente que perderia - Nicolás Maduro tem apenas cerca de 20% de popularidade”, diz a jornalista. Além disso, prossegue, "a decisão de renunciar não depende só dele - Maduro está aliado, pelos negócios, com os russos, com os turcos e com a China”.

Apesar da incerteza, a jornalista venezuelana prevê que este vai ser um fim-de-semana “importante” porque "acaba o prazo de 72 horas que Maduro deu à embaixada dos Estados Unidos para sair do país”. “Trump já disse que vai retirar apenas os diplomatas não indispensáveis" e resta saber o que fará o regime perante a desobediência americana. 

E os protestos devem continuar. Na quarta-feira, em Caracas, houve repressão e bloqueios para impedir as manifestações. “E as pessoas não se detiveram por isso. Não lhes importa, porque os venezuelanos, que já perderam muito, também perderam o medo”.