Crónica

“Daqui VAR, acho que é penálti”

Arbitrar não é só andar a correr de um lado para o outro com um apito na boca. É mascar pastilha elástica num monociclo em cima do arame a fazer malabarismos.

As coisas estavam preparadas para correr mal. Os sub-23 do Belenenses convocados para um exercício prático de demonstração do videoárbitro aos jornalistas estavam instruídos para fazer todos os disparates possíveis em campo. Assim como Artur Soares Dias estava mais que instruído para ver mãos na bola a três metros de altura ou julgar como penálti quedas bem fora da área que nem sempre eram falta.

E no controlo das imagens estavam os pobres jornalistas, de auscultadores nos ouvidos, olhos nos monitores e prontos para carregar no botão verde quando acontecesse alguma coisa. E depois, mais ou menos assim, esta conversa aconteceu: “Artur, daqui VAR, acho que é penálti. Mas espera, acho que foi fora da área, só que entretanto estava fora-de-jogo, e houve uma falta do outro lado. Estamos a rever as imagens. Já agora, mostraste algum cartão?” Cinco minutos depois, afinal estava em jogo, era penálti, não havia falta no outro lance e não se justificava vermelho.

Agora é imaginar que isto não era uma simulação para efeitos pedagógicos, mas uma situação de jogo real em que se tinha de avaliar à distância e aconselhar um árbitro na sua decisão, entre protestos de jogadores, treinadores e milhares de adeptos aos gritos. Nestas condições, “acho” é a palavra proibida. “Certeza” é a palavra certa. E é muito mais do que estar a olhar sentado para um monitor, com o dedo no botão, à espera que aconteça alguma coisa — assim como arbitrar não é só andar a correr de um lado para o outro com um apito na boca. É fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mascar pastilha elástica num monociclo em cima do arame a fazer malabarismos. E depressa, senão o público chateia-se.

É essa a impressão que se tem depois de algumas horas na Cidade do Futebol num “workshop” para jornalistas sobre o funcionamento do VAR, que já vai na sua segunda época de aplicação no futebol português. Com o acompanhamento de vários árbitros da primeira categoria e elementos do Conselho de Arbitragem, incluindo o presidente João Fontelas Gomes, os jornalistas sentiram as penas dos VAR e dos AVAR (assistentes de VAR), que têm de combinar, em permanência, os seus sentidos e as leis do jogo durante 90 minutos, mais a compensação.

Há muita gente que fala e escreve sobre arbitragem sem saber qual é o protocolo do VAR, e sem saber as Leis do Jogo ou como as aplicar — houve um teste teórico às Leis do Jogo e outro a julgar vídeos de várias situações de jogo, nem todos com repetição, e, lamento dizer, nenhum de nós acertou em todas. Mas, como qualquer árbitro dirá, há situações que podem ser avaliadas de forma diferente. Havendo VAR, um lance polémico no futebol pode ter várias interpretações — e terá mais na final da Taça da Liga deste sábado, com duas equipas de VAR a auxiliarem a equipa de arbitragem que estará no relvado do Municipal de Braga.

“O VAR vai tornar as coisas mais justas, mas não vai acabar com os problemas”, dizia há pouco menos de dois anos David Elleray, director-técnico do International Board. “E não vai acabar com as reclamações”, acrescentava este antigo árbitro britânico. Na sua segunda época de aplicação em Portugal, o VAR não acabou nem com uma coisa nem com a outra. Não acabou com os erros dos árbitros - continuam a acontecer e alguns são graves e com consequências sérias. E também não acabou com indignações e amnésias selectivas, que sempre foram e sempre serão o protocolo da relação de um adepto com a arbitragem. É só perguntar agora a um “hincha” argentino o que acha da “Mão de Deus” de Diego Maradona no México 86. A resposta será: foi vontade divina.