Opinião

Quando Céu, Inferno, História e imaginação se encontram nesta Barraca, isso é teatro

Em Santos, Céu Guerra mostra-nos o Inferno enquanto os Encontros Imaginários já contabilizam 175 voltas à História. N’ A Barraca, claro.

Num tempo em que a História nos troca as voltas e em que alguns antigos pesadelos nos vão sendo mostrados como “normais” ou até inevitáveis, mergulhar nas lições do passado é uma tentação irresistível. Se o grupo de teatro A Barraca já o fizera ao encenar O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, com um inesquecível Ruben Garcia na pele de Fernando Pessoa (na verdade, do seu fantasma) a deambular pela “Europa de todos os fascismos”, agora o mesmo actor encarna Anton Tchékhov na dura viagem que este fez em 1890 de Moscovo até Sacalina, para aí encontrar um cenário terrível de sofrimento humano que descreveu como “à volta o mar, no meio o inferno.” Foi esta, aliás, a frase escolhida para título da peça por Maria do Céu Guerra, fundadora de A Barraca e actriz de muitos palcos (teatro, cinema, televisão). Ela apaixonou-se por essa terrível viagem, que levou o jovem médico russo (que mais tarde o mundo conheceria sobretudo como contista e dramaturgo) à “mais cruel ilha de condenados do seu tempo”, antecipando na era dos czares o horror dos futuros campos de concentração do estalinismo e do nazismo. Por isso, este mergulho nas trevas de Tchékhov é uma tentativa de nos transmitir, através dele, uma dor universal que, embora russa no seu cenário sofrido, não tem pátria e pode ser vista (já o foi) em tantos outros lugares do mundo.

“Houve momentos em que senti que as coisas que via diante de mim haviam ultrapassado os limites da degradação humana”, escreveu Tchékhov no relato da experiência, de onde voltou doente. E Céu Guerra, na apresentação da peça que idealizou e que apresenta como “um espectáculo de utilidade pública” (estreou-se em Novembro de 2018 e está em cena até 5 de Fevereiro no Teatro Cinearte, em Santos, Lisboa), escreve: “Não podemos deixar de pensar nalgumas prisões do nosso tempo e na indiferença com que são encaradas pelas democracias nossas contemporâneas as concepções punitivas até à morte em lugar de reeducadoras que orientam o sistema prisional de grande parte dos países olhados como civilizados. Agora que os suspeitos são mortos na rua, com o risco de serem apenas o alvo de uma bala perdida, este espectáculo interroga se não estaremos a assistir calados a um recrudescimento da barbárie e da pena de morte quando faz apenas cento e cinquenta anos que lutámos pela sua abolição.”

Por coincidência, Maria do Céu Guerra foi este mês distinguida com o prémio Vasco Graça Moura — Cidadania Cultural, criado há quatro anos pela Estoril Sol para, dizem os seus promotores, “distinguir um escritor, ensaísta, poeta, jornalista, tradutor ou produtor cultural que ao longo da carreira — ou através de uma intervenção inovadora e de excepcional importância — haja contribuído para dignificar e projectar no espaço público o sector a que pertença”. Assim tem feito Céu Guerra com o teatro, levando a arte de representar a outras áreas sem nunca abandonar ou menosprezar aquela onde se fez actriz. Numa entrevista ao PÚBLICO, em conversa com Anabela Mota Ribeiro a propósito da participação num filme que lhe valeu dois prémios (Os Gatos Não Têm Vertigens, de António-Pedro Vasconcelos), Maria do Céu Guerra descreveu, em 2014, essa sua atitude: “A cultura, o teatro é uma maneira de ir transformando o gosto, a sociedade. (...) Não damos soluções. O conselho é o pior que o teatro pode fazer. Mas podemos expor a vida, a transformação da vida, os conflitos, as lutas mais profundas e mais superficiais dos séculos, na sua mais luminosa demonstração.”

E se À Volta o Mar, no Meio o Inferno procura fazer isso mesmo, n’A Barraca há um outro palco onde a História se baralha como num jogo de cartas: os Encontros Imaginários. Às segundas-feiras, quinzenalmente, personagens históricos “conversam” em encontros improváveis, saídos da imaginação do encenador e dramaturgo Helder Costa e com cidadãos de outras áreas que não o teatro por “actores”. No dia 21 ali “estiveram” Joseph Pulitzer, Thomas Henry Huxley e Eugène Ionesco (“encarnados” em José Romano, arquitecto; Francisco Teixeira da Mota, advogado; e Carlos P. Martins, economista). E dia 4 de Fevereiro será a vez de Eça de Queiroz (Bagão Félix, economista), Manuelinho de Évora (Vasco Lourenço, militar de Abril) e Catarina Eufémia (Carla J. Carvalho, jornalista de televisão) trocarem umas ideias sobre o mundo. Um acto (com C, como deve ser) que já soma 175 sessões e se apresenta como “culto sem ser elitista e popular sem ser populista.” Querem arriscar a 176.ª?