Mulher grávida de um bebé com material genético de três pessoas

Bioquímico português participa num projecto que aplicou uma nova técnica de fertilização in vitro – que usa material genético da mãe, do pai e de uma dadora – para resolver problemas de infertilidade de uma mulher

A mulher grega já está grávida de 28 semanas
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A mulher grega sujeita a este tratamento já está grávida de 28 semanas Nuno Ferreira Santos

Cientistas em Espanha e na Grécia – incluindo o bioquímico português Nuno Costa Borges que trabalha numa empresa em Barcelona – anunciaram que uma mulher com problemas de infertilidade conseguiu engravidar através de uma técnica de fertilização in vitro que usa material genético da mãe, do pai e de uma mulher dadora: a transferência de fuso materno (MST, na sigla em inglês). O investigador português diz que esta foi a primeira vez que este procedimento foi usado para resolver problemas de infertilidade.

A mulher que engravidou é grega e tem 32 anos. Já tinha feito quatro tentativas de fertilização in vitro que não resultaram, assim como duas operações devido à endometriose. Para resolver este problema, foi-lhe então aplicada a MST num ensaio clínico piloto. Esta técnica consiste em extrair do núcleo de um ovócito de uma dadora com mitocôndrias saudáveis, substituindo-o pelo núcleo de um ovócito da mãe do bebé. Depois, fertiliza-se o ovócito com o espermatozóide do pai e implanta-se no útero da mulher com infertilidade, neste caso da mulher grega de 32 anos.

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Momento em que se faz a transferência de um ovócito para o outro Embryotools

“Está agora preparada para dar à luz um rapaz depois de ter participado num estudo-piloto levado a cabo na Grécia. O estudo incluirá ainda outras 24 mulheres”, refere-se num comunicado do Parque Científico de Barcelona sobre este trabalho. Além disso, adianta-se que, com esta técnica, se conseguiram obter embriões de oito mulheres (que também tinham problemas de infertilidade), embora ainda não tenham sido transferidos. Nuno Costa Borges, director científico da empresa Embryotools (com sede no Parque Científico de Barcelona) e um dos investigadores envolvidos neste projecto, adiantou que podem ser transferidos “a qualquer momento”.

O cientista português refere que os bebés que forem concebidos com esta técnica serão acompanhados até aos 18 anos e acrescenta que está diz receptivo a que outros grupos internacionais também o façam.

Duas mães e um pai?

Apesar deste tipo de situações ser frequentemente apresentado como “um bebé com três pais” (neste caso duas mães e um pai), Nuno Costa Borges recusa usar esta expressão argumentando que é exagerada e sensacionalista. “A única coisa que a dadora transmite é o citoplasma [onde estão as mitocôndrias] do ovócito”, refere. O bioquímico reconhece que, de facto, há a participação de três pessoas, mas considera que é um exagero dizer que o bebé é filho de três pais porque o ADN do dador representa menos de 1% do total do ADN do bebé. “Não se deve especular”, afirma, acrescentando mais um argumento: quando se faz um transplante de coração ou de medula óssea também “não se diz que se é filho de três pais”. 

Nuno Costa Borges realça ainda que este projecto já dura há cinco anos e que tem passado por várias fases de validação. Primeiro, fizeram-se testes em ratinhos (com a participação da Universidade de Oxford), que demonstraram ser seguros. Depois, fez-se a pré-avaliação clínica de vários ovócitos humanos doados para investigação. Agora, por fim, passou-se para os ensaios clínicos, que já tinham tido a permissão das autoridades gregas em 2016. 

“Quando se realiza pela primeira vez uma técnica, há um período de incerteza, mas temos a validação de que é segura”, assinala Nuno Costa Borges. Já Gloria Calderón, directora da Embryotools, considera no comunicado: “A transferência de fuso materno é uma técnica experimental que está num processo de validação. Como tal, devemos ser prudentes. Não se pode incorporar na rotina de qualquer clínica de reprodução assistida de um dia para o outro.”

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O bioquímico português Nuno Costa Borges Arduino Vannucchi

Ao PÚBLICO, Nuno Costa Borges garantiu que o artigo científico sobre os testes em ratinhos está em revisão e os resultados têm sido divulgados em congressos científicos. Referiu ainda que o artigo sobre o ensaio clínico está em fase de preparação.

As implicações éticas 

Embora o procedimento agora utilizado tenha sido desenvolvido nos Estados Unidos, foi proibida pelo Congresso norte-americano em 2015. “É um debate nos Estados Unidos porque implica o uso de ovócitos de um dador”, indica o investigador, explicando que não se pode aplicar nos Estados Unidos porque “é incluída no pacote das técnicas de edição genética cujas modificações são transmissíveis às gerações seguintes”. E defende: “Mas com esta técnica não se altera a genética nuclear dos pacientes, só se altera o ADN mitocondrial [que no caso das mulheres é transmissível, mas no caso dos homens não].”

No Reino Unido, a MST foi aprovada em Março de 2015, mas com muitas pessoas a questionarem as suas implicações éticas. Algumas interrogavam se este tipo de procedimento causaria doenças nos bebés ou se abriria a porta a uma era de humanos geneticamente modificados por outras razões mais superficiais do que doenças genéticas. Esta técnica não tem enquadramento legal em Portugal.

“Achamos que tem um potencial importante, que é segura e que pode ser útil para muitos pais que não conseguem ter filhos porque têm problemas de qualidade ovacitária”, considera o bioquímico, que revela que tem recebido contactos de todo o mundo de pessoas interessadas em fazer o tratamento. Até ao momento, nenhum deles foi de Portugal.

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Em baixo, no meio, Gloria Calderón, directora da Embryotools; e, na ponta direita, Nuno Costa Borges Embryotools

“Se for verdade, esta é realmente uma grande notícia em termos de medicina reprodutiva e de biotecnologia, mas ainda estamos a aguardar pela publicação dos resultados”, considera César Palacios González, professor de ética da Universidade de Oxford, no blogue Practical Ethics da sua instituição.

O primeiro bebé concebido com esta técnica nasceu no México em 2016 através de uma equipa dos Estados Unidos liderada por John Zhang, do Centro de Fertilidade New Hope (de Nova Iorque). “Contudo, nesse caso, a MST foi usada para evitar a transmissão de doenças mitocondriais e não para resolver problemas de infertilidade”, indica-se no comunicado.

César Palacios González refere ainda o caso pouco documentado numa clínica da Ucrânia, em que também se aplicou uma técnica semelhante para tratar problemas de infertilidade.“Se for bem-sucedido, este será apenas o terceiro nascimento seguido de uma técnica reprodutiva que mistura o ADN de três pessoas [no geral, a técnica de reposição mitocondrial]”, conclui o especialista em ética que defende que estes bebés têm três pais genéticos. E questiona: “Agora, a principal questão ética que irá surgir a este projecto espanhol e grego é o mesmo que já surgiu no caso ucraniano: se o uso da técnica de reposição mitocondrial para tratar infertilidade que não está relacionada com doenças mitocondriais é moralmente permissível.”

Ao que Nuno Costa Borges responde: “Se podermos dar a possibilidade aos casais de terem um filho com o seu próprio ADN, vejo com bons olhos [esta técnica] a nível ético.” Por outro lado, considera o bioquímico, os dadores – que fizeram um gesto altruísta – não têm preocupações de terem filhos com o seu genoma nuclear a ser criados por outras pessoas, porque só lhes transmitiram ADN mitocondrial.