Mãe e mulher de suspeito de liderar milícia trabalharam para Flávio Bolsonaro

Filho do Presidente brasileiro diz-se "vítima de uma campanha difamatória com o objectivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro". Grupo criminoso também é suspeito de envolvimento na morte de Marielle Franco.

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Flávio Bolsonaro diz que está a ser vítima de difamação Reuters/ADRIANO MACHADO

Pouco depois de a polícia brasileira ter anunciado a detenção de cinco pessoas suspeitas de envolvimento no assassínio da vereadora Marielle Franco, na manhã desta terça-feira, os jornais do país revelaram que há pelo menos duas ligações entre um dos líderes dessa organização criminosa e Flávio Bolsonaro, um dos filhos do Presidente do Brasil.

A Operação Intocáveis teve lugar no Rio de Janeiro e resultou na captura de cinco homens suspeitos de pertenceram à organização Escritório do Crime.

O grupo é procurado por extorsão de moradores e comerciantes com cobranças ilegais na favela de Rio das Pedras, mas é também suspeito de envolvimento em assassínios, entre os quais o de Marielle Franco – em Dezembro, o secretário da Segurança Pública do Rio de Janeiro disse que a vereadora terá sido assassinada por poder ser um obstáculo a negócios ligados à apropriação ilegal de terras.

Segundo os jornais Folha de S. Paulo e o Globo e a revista Veja, a mãe e a mulher de um dos líderes do grupo, o ex-capitão Adriano Magalhães da Nóbrega, trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro até Novembro do ano passado, quando o filho do actual Presidente brasileiro era deputado federal pelo Rio de Janeiro.

As duas mulheres pediram para ser exoneradas no ano passado, o que aconteceu no dia 13 de Novembro.

A mãe do ex-capitão, Raimunda Veras Magalhães, é também uma das pessoas que fez transferências de dinheiro para a conta do ex-assessor e ex-motorista de Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz, que está a ser investigado por "movimentações atípicas" no valor de 1,2 milhões de reais (280 mil euros). Flávio Bolsonaro também foi implicado em movimentações bancárias suspeitas.

Mas essa investigação foi suspensa por um juiz do Supremo Tribunal na semana passada, a pedido de Flávio Bolsonaro. O político argumentou que o Ministério Público pediu informação sigilosa sobre a sua pessoa ao Conselho de Controle de Actividades Financeiras (Coafe) já depois de ter sido confirmado como senador, o que lhe confere imunidade (só pode ser julgado pelo Supremo).

Adriano Magalhães da Nóbrega, que é um dos oito suspeitos que continuam a monte na sequência da operação desta terça-feira, é um ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), expulso da Polícia Militar em 2014. Nesse ano foi considerado culpado de envolvimento numa organização suspeita de cometer homicídios e outros crimes no meio de uma guerra de poder entre máfias do jogo, em 2011.

Segundo o Globo, Adriano Magalhães da Nóbrega é amigo de Fabrício Queiroz, o ex-motorista de Flávio Bolsonaro, que por sua vez é amigo de longa data do filho do Presidente brasileiro.

Duas condecorações

Para além de ter trabalhado com a mãe e a mulher de Adriano Magalhães da Nóbrega, Flávio Bolsonaro condecorou o ex-capitão do BOPE por duas vezes, em 2003 e 2005, quando era deputado federal pelo Rio de Janeiro.

Na época, Flávio Bolsonaro elogiou Adriano Magalhães da Nóbrega pelo "cumprimento do seu dever de policial militar no atendimento ao cidadão" e atribuiu-lhe a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração do Parlamento do estado.

Num comunicado emitido esta terça-feira, o senador brasileiro diz que continua a ser "vítima de uma campanha difamatória com objectivo de atingir o governo de Jair Bolsonaro".

E afirma que "a funcionária que aparece no relatório do Coaf [Raimunda Veras Magalhães, por transferências para a conta de Fabrício Queiroz] foi contratada por indicação do ex-assessor Fabrício Queiroz, que era quem supervisionava seu trabalho".

"Quanto ao parentesco constatado da funcionária, que é mãe de um foragido, já condenado pela Justiça, reafirmo que é mais uma ilação irresponsável daqueles que pretendem difamar-me", disse Flávio Bolsonaro.

Por último, em relação às condecorações de meados da década passada, o senador diz que sempre actuou "na defesa de agentes de segurança pública" e sublinha que já concedeu "centenas de outras homenagens".