Entrevista

Mark Post: “Comer carne sem ter de matar animais é uma coisa importante”

Pioneiro na investigação sobre carne cultivada em laboratório, Mark Post apresentou em 2013 um hambúrguer produzido a partir de células de músculo de vaca criadas no seu laboratório. É o rosto internacional da chamada clean meat.

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O investigador holandês Mark Post Mosa Meat

Director do Departamento de Fisiologia da Universidade de Maastricht, Mark Post é também o responsável científico da empresa Mosa Meat (que se prepara para vender carne de laboratório em 2021) e é uma figura pública na Holanda. Organiza há quatro anos uma conferência científica (sobre o tema) que tem crescido exponencialmente e foi aí que decorreu esta entrevista colectiva com jornalistas de vários países.

Quais são actualmente os maiores desafios à carne de laboratório?
Produzir em escala, de forma a tornar o processo economicamente viável e obter aprovação legal para lançar os produtos no mercado. Todas as pessoas envolvidas acreditam que em 2021 já se estará a produzir para o mercado. Há ainda a questão do meio de cultura necessário para a reprodução das células, que ainda está limitado à indústria farmacêutica e biomédica, que é relativamente pequena em relação às necessidades de uma indústria viável de carne de cultura. Será um negócio paralelo que se irá desenvolver.

Há um estudo de Nico Oosterhuis, da empresa holandesa Celltainer Biotech, sobre a quinta do futuro. Num dos cenários imaginou-se uma quinta com duas ou três vacas e um biorreactor. Apresentou-se também a ideia de um talho que fizesse a sua carne. Qual acha que vai ser o modelo de negócio?
Produzir em escala é mais eficiente. Imagino que será como, por exemplo, a produção de cerveja. Há a Heineken e depois haverá as pequenas destilarias artesanais, com um produto mais requintado, de nicho, um produto artesanal, que seria um pouco mais caro. Que pode ser numa quinta ou num talho. No fim, serão os consumidores que vão decidir, porque tecnicamente será possível produzir em grande ou em pequena escala. Tenho esperança de que as duas coisas convivam pacificamente.

Portanto, essa quinta do futuro terá uma meia dúzia de vacas e biorreactores?
É mesmo isso que imaginamos. É claro que os agricultores precisam de tempo para se adaptar. Na verdade, já estão muito habituados à mudança. Um vizinho meu tinha porcos numa quinta e já não fazia dinheiro nenhum – o mercado está destruído –, então mudou para batatas. E agora adora as suas batatas tanto quanto adorava os porcos. Os agricultores são empresários e farão tudo o que for necessário para extrair valor da terra. Desde que tenham tempo para se adaptar. Isto não vai acontecer da noite para o dia. Esta transição no sistema agrícola vai demorar 20 anos. Por isso, não estou muito preocupado. É claro que irá mudar o rosto da agricultura. Muitos de nós temos grandes ideias românticas sobre o mundo rural que não são verdade há muito tempo. A agricultura mudou tremendamente ao longo das últimas décadas.

Faz ideia de como o consumidor aceitará este novo produto?
Os estudos até agora são muito promissores, do meu ponto de vista. A nível racional, cerca de 50% das pessoas percebem que isto é algo que se deve fazer. Foram feitos estudos nos Estados Unidos, no Reino Unido, em Portugal, na Alemanha e na Austrália e os números são muito semelhantes. França parece ser a excepção. Pelo que me parece, os franceses estão muito agarrados ao conceito de terroir. Há um debate público em curso e é importante que haja. Mas não deixo de ficar muito surpreendido com a quantidade de grandes cadeias de hambúrgueres em Franca, e ninguém se preocupa de onde vem [a carne]. Outra coisa específica de França é o poder político dos agricultores, é maior do que nos outros países europeus.

A minha percepção é que as maiores preocupações serão, no entanto, com a segurança. Estamos programados para comer coisas que não sabemos o que são. E a partir do momento em que nos apercebemos de que é seguro, conseguimos comer quase tudo. Temos um excelente exemplo na Holanda, com o frikandel, uma salsicha que ninguém sabe o que leva. Quanto a mim, a resistência terá sobretudo a ver com a segurança alimentar, haverá outras certamente. Mas a presença destes produtos no mercado será feita com as normas estabelecidas pela EFSA [agência de segurança alimentar europeia], que são rigorosas.

Quanto custaria agora o hambúrguer de carne de laboratório que em 2013 foi avaliado em 250 mil euros?
Chegámos à conclusão, através de várias projecções, de que se o fizéssemos agora numa produção em massa custaria 60 euros por quilo. E daqui a três anos esse seria o preço de venda ao público.

Há alguma barreira a ultrapassar para a carne de laboratório poder chegar ao mercado?
A densidade: quantas células é possível cultivar por mililitro de fluidos. Na indústria, algumas pessoas dizem que conseguem 100 milhões de células por mililitro de meio de cultura. Se se chegar a esse ponto, ficará relativamente barato. Na verdade pode até ficar mais barato do que o que custa agora a carne. Mas não estamos aí ainda. Estamos em cinco milhões por mililitro. Portanto, temos muito a melhorar nesse campo.

E quanto ao gosto?
Estamos a desenvolver tecido de gordura [para acrescentar ao tecido cultivado com células de músculo]. Tecnicamente pode ser feito. O próximo produto terá tecido gordo e isso aumentará a suculência, a textura e o sabor.

Manipular este produto em casa é semelhante a uma peça normal de carne?
A preservação será diferente. Porque o produto é, por definição, não contaminado, o que é uma vantagem, e pode ser embalado em vácuo. Será até mais seguro.

Do ponto de vista de saúde, quais as vantagens para os consumidores?
À partida, os riscos serão os mesmos da carne que conhecemos. Mas haverá benefícios. Não haverá antibióticos, o que constitui actualmente um grande risco de saúde pública por causa do aumento da resistência das bactérias. Não há esteróides e não haverá contaminação. E, sendo a colheita de células feita num animal saudável, não há o risco de propagação de doenças como aconteceu no passado, por exemplo com a encefalopatia espongiforme bovina (BSE). Quanto ao resto, é seguir as recomendações de saúde. A Organização Mundial da Saúde recomenda que não se consuma mais do que 300 gramas de carne por semana, por acréscimo de risco de doenças cardiovasculares e de cancro colorrectal. E isso manter-se-á se formos replicar exactamente os mesmos tecidos. Em relação aos riscos de doenças cardiovasculares, podemos retirar ácidos gordos saturados. Quanto ao risco de cancro colorrectal ainda não se conhece muito bem o mecanismo. O efeito de criar uma carne ‘mais saudável’ é uma boa ideia como negócio, mas como questão comportamental não sei se é algo pelo qual devamos lutar.

Já há muitos agricultores na Europa a criar insectos…
Há muitas iniciativas para começar a criar insectos, mas não há procura. Um dos meus melhores amigos tem uma quinta de insectos e desejo-lhe o melhor, mas para mim não há lógica nisso. Está provado que o ser humano não precisa de proteínas de animais. Não estamos a fazer isto porque as pessoas precisam de proteína animal, mas porque adoram carne. E não adoram insectos. Na verdade, o consumo de insectos a nível mundial está a cair, porque é comida de pobres e assim que as pessoas começam a ter dinheiro deixam de os comer e passam a comer carne. Em vez de insectos, recomendaria que os agricultores produzissem vegetais ricos em proteínas ou em açúcares.

O que o levou a escolher este campo de investigação?
Comecei em 2006, instigado por um empresário holandês, Van der Weele, que tinha restaurantes e galerias de arte, mas era um visionário. Já com 86 anos, estava obcecado com a ideia de fazer carne em laboratório. Eu sabia que havia a tecnologia e que podia ser feito. A minha motivação pessoal foi o benefício para a sociedade. Se eu conseguisse tornar isto eficiente e amigo do ambiente, poderia ser uma grande coisa. Poder comer carne sem ter de matar animais é uma coisa importante.