Opinião

A empregabilidade na diferença

Bons exemplos precisam-se para ajudar a construir uma sociedade melhor e mais integrante da diferença, e nós estamos cá para os dar.

Foi publicada recentemente a Lei n.º 4/2019, de 10 de janeiro, que visa essencialmente definir a responsabilidade social das empresas no que diz respeito às quotas de emprego em matéria de deficiência. Segundo os últimos Censos, o nosso país tem cerca de 1,9 milhões de pessoas com deficiência, e a taxa de desemprego nesta população ronda os 28,8%, cerca de 10 p.p. acima da média da UE. Ora, estamos perante uma questão difícil de resolver a curto/médio prazo, mas que de facto está, e ainda bem, na senda do dia, quer da economia social, quer da agenda política.

Esta lei, na minha opinião, vem impulsionar de certa forma a mudança de paradigma para as empresas, que agora se veem “obrigadas” a contratar um certo numero de pessoas com deficiência de acordo com a sua dimensão, mas aquilo que se espera é acima de tudo que as empresas vejam aqui uma oportunidade de integrar pessoas que são na maior parte das vezes mais esforçadas, mais humildes, mais capazes até, dada a sua condição e luta diária por uma vida melhor. Que as vejam como pares nas suas diferenças.

Vejamos o exemplo da APSA, associação em que me encontro a colaborar, que desde 2015 possui um programa específico de empregabilidade e integra jovens adultos com síndrome de asperger no mercado de trabalho. O seu modelo único e inovador em Portugal é espelho dos resultados que tem tido, nesta tipologia especifica da deficiência mental e da neuro-diversidade, que assenta num problema neuro-comportamental e de interação social. Desde há quatro anos conseguiu integrar cerca de 35 jovens no mercado de trabalho, 11 com contrato de trabalho, mas acima de tudo todos eles estão felizes com a função que desempenham e com o percurso que têm desenhado com a ajuda desta instituição.

É preciso olhar para a empregabilidade na diferença com outros olhos. Não podemos apenas cingirmo-nos a números e a estatísticas. Temos de os saber, mas temos acima de tudo de olhar para a pessoa. O perfil individualizado bem delineado e estudado de cada um é essencial para que o processo de recrutamento e a sua integração na empresa ocorra da forma mais eficiente. E isto não é só na deficiência, mas a deficiência requer outros cuidados, cuidados de acompanhamento e orientação específicos. Dizer também que sim aos incentivos que o governo tem criado, mas acima de tudo o que se pretende com a sua aplicabilidade não passa por tratar estes processos de integração de pessoas com deficiência com leviandade, porque não são tão simples como parecem, principalmente na neuro-diversidade.

De qualquer forma, estamos a ter avanços que anteriormente nem sequer eram falados na comunidade empresarial em Portugal. Estamos a mexer com incentivos e com fundos que impulsionam o tecido empresarial e económico, mas temos de ter cuidado na forma como o fazemos. Devemos, por isso, recorrer e formar parcerias com as organizações sociais no terreno que conhecem tão bem a realidade e convivem com ela diariamente. Importante dizer que estes jovens que chegaram a APSA sem projeto de vida, sem futuro, estão agora com emprego, com objetivos e acima de tudo com uma vida digna e autónoma. E porquê? Porque foram sempre tratados com dignidade e respeito por aquilo que são e por aquilo que são capazes de fazer. É aqui que reside a questão, e que as empresas devem estar alerta, pois sem esta base, sem esta vontade de aceitar a diferença como ela é, temo que estas leis e estes incentivos possam não surtir o efeito desejado. A APSA trabalha atualmente com 15 grandes empresas portuguesas, sabendo que pode contar com elas, como parceiros, fruto do trabalho que tem vindo a desenvolver desde há cinco anos. É desta forma que temos alcançado os resultados que temos, sem nunca nos desviarmos dos objetivos de cada jovem, mas trabalhando sempre numa ótica de win-win para as empresas.

E é este o caminho para a empregabilidade na diferença, é um trabalho complexo, que exige tempo e disponibilidade de todas as partes, jovem, família, empresa e a instituição. Acima de tudo, é tratar com respeito e dignidade humana de quem é mais frágil na sociedade, que muitas vezes está esquecido e consegue desempenhar tão bem, ou melhor, funções como qualquer outra pessoa.

As empresas estão mais sensíveis a esta temática, seja pela obrigação de cumprimento da lei, ou pela sua política de responsabilidade social que muitas vezes provem de diretrizes internacionais. A experiência que tenho, e que temos enquanto instituição, é que de facto existe uma vontade enorme de integrar quem mais precisa e eu e nós estamos cá para apoiar e para ajudar no que for preciso. Bons exemplos precisam-se para ajudar a construir uma sociedade melhor e mais integrante da diferença, e nós estamos cá para os dar.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico