O maior shutdown dos EUA ficou refém da guerra "infantil" entre Trump e Pelosi

Depois de a líder da Câmara dos Representantes ter indicado que pode desmarcar o discurso do Presidente sobre o Estado da União, Donald Trump cancelou uma viagem de Nancy Pelosi a uma hora da partida.

Fotogaleria
Nancy Pelosi Joshua Roberts/REUTERS
Fotogaleria
Donald Trump Kevin Lamarque/REUTERS
Fotogaleria
Senadores democratas mostram fotos de eleitores prejudicados pelo encerramento parcial do Governo federal SHAWN THEW/EPA

Há quase um mês que centenas de milhares de funcionários públicos norte-americanos estão em casa, parados e sem salário, ou a trabalhar sem serem pagos, e a tensão entre as duas pessoas que podem resolver o problema só dá sinais de aumentar.

Com o calendário do shutdown a chegar esta sexta-feira ao 28.º dia consecutivo (mais sete do que o anterior recorde), a batalha política entre o Presidente dos EUA, Donald Trump, e a líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, resvalou esta semana para o campo pessoal. Tanto que o senador republicano Lindsey Graham, um dos mais destacados apoiantes de Trump, sentiu necessidade de puxar as orelhas aos dois responsáveis: "Uma resposta infantil não merece outra resposta infantil", escreveu Graham no Twitter.

O primeiro tiro foi disparado por Pelosi, na quarta-feira, quando sugeriu publicamente ao Presidente que adiasse o seu discurso sobre o Estado da União, marcado para 29 de Janeiro — ou que o enviasse, por escrito, para o Congresso.

Numa carta endereçada a Trump, a líder da Câmara dos Representantes sublinhou que os Serviços Secretos e o Departamento de Segurança Interna estão a ser afectados pelo shutdown e que, por isso, não há condições de segurança para que quase todas as figuras de destaque da política do país estejam reunidas no mesmo edifício durante várias horas.

Mas a responsável pelo Departamento de Segurança Interna, Kirstjen Nielsen, veio dizer que não há nenhum problema — como a segurança das altas figuras políticas do país é um serviço considerado essencial, os funcionários dos serviços secretos estão a trabalhar sem receber salário.

Na prática, a carta de Nancy Pelosi serviu para reforçar a sua mensagem de que o culpado pelo shutdown é o Presidente Trump. E, apesar de o texto soar a um pedido, deve ser entendido como um aviso: como líder da Câmara dos Representantes, foi Nancy Pelosi quem convidou o Presidente a discursar perante a sua câmara e pode desconvidá-lo a qualquer momento.

Viagem cancelada

A Casa Branca não respondeu de imediato à carta de Pelosi, e o Presidente Donald Trump não fez qualquer comentário na sua conta no Twitter.

A resposta só chegou na quinta-feira, por volta das 19h, mas foi digna de uma birra de escola, como indicou o senador Lindsey Graham.

A menos de uma hora de Pelosi e outros congressistas do Partido Democrata partirem de avião para o Afeganistão, para visitarem as tropas norte-americanas, Trump anunciou que acabara de cancelar essa viagem. No momento em que a carta do Presidente foi partilhada no Twitter pela porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, os congressistas do Partido Democrata estavam sentados num autocarro, às portas do Capitólio, prontos a serem transportados para o aeroporto.

"Devido ao shutdown, lamento informá-la de que a sua viagem a Bruxelas, Egipto e Afeganistão foi adiada. Esta viagem de sete dias será reagendada quando o shutdown terminar", lê-se na carta assinada por Trump. Segundo os assessores de Pelosi, a escala em Bruxelas destinava-se a descanso do piloto e não estava marcada nenhuma escala no Egipto.

No texto, o Presidente dos EUA justifica a sua decisão com o facto de "800 mil grandes trabalhadores norte-americanos não estarem a receber salário", pelo que Nancy Pelosi deveria "adiar o evento de relações públicas" para ficar em Washington a negociar o fim do shutdown.

E nem faltou um beliscão final: "Como é óbvio, se quiser fazer a sua viagem num avião comercial, essa é uma decisão sua." Uma frase que caiu mal no Partido Democrata, porque na prática sugere à líder da Câmara dos Representantes e vários congressistas que viajem para um país em guerra num avião comercial.

Futuro incerto

Com a relação entre Trump e Pelosi a degradar-se de dia para dia, o futuro de 800 mil trabalhadores norte-americanos é cada vez mais incerto. Para fazerem frente à falta de salário, muitos deles já começaram a pedir subsídio de desemprego, a vender bens pessoais e a pedir a senhorios e bancos que suspendam ou baixem rendas e mensalidades de empréstimos.

Cerca de 25 por cento das agências e departamentos públicos norte-americanos foram parcialmente encerrados no dia 22 de Dezembro, depois de o Congresso e o Presidente dos EUA não terem chegado a acordo para desbloquear o orçamento de 2019 (os restantes 75 por cento funcionam sem problemas porque os seus orçamentos foram aprovados em 2018). Ao todo, foram afectados directamente 800 mil funcionários (que estão em casa ou a trabalhar sem salário) e muitos outros que trabalham em empresas privadas com contratos públicos.

Para desbloquear o orçamento dessas agências e departamentos, o Presidente Trump exige que o Partido Democrata aprove no Congresso uma proposta que inclua 5,7 mil milhões de dólares para o início da construção de um muro na fronteira com o México.

Do outro lado, o Partido Democrata só aceita desbloquear uma proposta de orçamento sem verbas para a construção de um muro, e com 1,3 mil milhões de dólares para reforço da segurança na fronteira através da compra de material tecnológico e outras medidas de combate à imigração ilegal.

Sugerir correcção
Ler 16 comentários