Robots vão obrigar 700 mil trabalhadores a mudar de emprego

Até 2030, o emprego vai deslocar-se da indústria ou do comércio para sectores como a assitência social, os cuidados de saúde ou a construção. Trabalhadores terão de ser reconvertidos e a CIP exige iniciativas públicas que apoiem esta transição.

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Daniel Traça, da Nova SBE, uma das entidades responsáveis pelo estudo. Rui Gaudêncio

O processo de robotização da economia portuguesa vai ter impacto directo no emprego e, ao longo da próxima década, obrigará cerca de 700 mil pessoas (15% da actual força de trabalho) que agora trabalham na indústria, no comércio ou em áreas administrativas a procurar emprego em sectores completamente diferentes.

O estudo apresentado nesta quinta-feira pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP) alerta que, mesmo num cenário conservador, cerca de 1,1 milhões de pessoas estão em risco de perder o emprego ou terão de se requalificar para assegurarem lugar num mercado de trabalho cada vez mais dominado por robots.

A McKinsey Global Institute e a Nova School of Business and Economics (Nova SBE), responsáveis pela elaboração do estudo que ainda não foi disponibilizado na íntegra, analisaram 800 ocupações e cerca de duas mil tarefas para concluir que a produção fabril, o comércio por grosso e a retalho ou os serviços de administração e de suporte serão as áreas mais afectadas pela robotização e automatização e poderão perder mais de meio milhão de postos de trabalho até 2030 (metade da perda estimada para o total da economia).

É certo que, neste período, aparecerão novas ocupações e a economia poderá criar entre 600 mil e 1,1 milhões de postos de trabalho, mas isso acontecerá em áreas completamente diferentes, o que obrigará a força de trabalho a requalificar-se, deixando inevitavelmente alguns de fora.

Olhando para os dados do sumário executivo apresentado no Museu da Electricidade em Lisboa, o emprego vai deslocar-se para áreas como os cuidados de saúde e assistência social ou a construção – áreas que sã tendencialmente pior remuneradas e que não requerem qualificações elevadas. Por outro lado, o potencial de crescimento de áreas científicas e técnicas também é elevado.

Mais verbas para a formação de adultos

Todo este processo obrigará a um grande esforço de formação e para isso, defende o presidente da CIP, António Saraiva, terá de haver uma reafectação dos fundos europeus para a formação ao longo da vida e a criação de programas específicos que apoiem a transição dos trabalhadores para os novos empregos.

“Como tenho criticado, os dois programas do Fundo Social Europeu [destinados à formação] têm sido muito mais utilizados na parte pública do que para a parte privada. É evidente que este problema não tem público e privado, é transversal a todos os postos de trabalho tal como eles hoje estão configurados”, reforçou no final da apresentação do estudo.

A CIP defende ainda que têm de ser envolvidos todos os actores: empresas, sindicatos e Governo. Porém, na apresentação desta quinta-feira, não esteve nenhum membro do executivo. Questionado sobre a ausência, António Saraiva, admitiu que o Governo não foi convidado, justificando a opção com o facto de o tema ter vindo a ser discutido na concertação social e com o clima de pré-campanha eleitoral que se está a viver. “Não fazia sentido”, reconhece, acrescentando que os restantes parceiros foram convidados.

Uma revolução “instantânea”

Mas o que traz de novo este processo de automação, face a outros processos de mudança? Para Daniel Traça, director da Nova SBE, a diferença está sobretudo na rapidez com que as mudanças se tornam globais. “A revolução industrial demorou tempo a globalizar-se, esta revolução é instantânea”, nota, e também imparável.

“Teremos de ser capazes de fazer esta mudança e de reagir” e se isso não acontecer, alerta, surgirão consequências ao nível do emprego, da desigualdade, da competitividade, do diálogo intergeracional e da estabilidade democrática.

"O tema exige atenção imediata, diálogo imediato e imaginação. Não havendo atenção, medidas e diálogo imediatos, quando as coisas acontecerem podemos estar perante um processo com consequências muito desafiantes, para usar um eufemismo", reforça.

Também Duarte Begonha, partner da McKinsey, coloca a tónica na velocidade destas mudanças. As mudanças “aconteciam em ciclos de 20/30 anos” e agora estão a acontecer “muito mais rápido”. “As pessoas que trabalham num determinado sector e numa determinada função não vão ter oportunidades nesse sector, mesmo com formação”, frisa.

Duarte Begonha não antecipa contudo que haja um pico do desemprego, devido à emergência de novas funções. “Hoje em dia há muitas pessoas que faziam determinado tipo de funções e que preferem estar a conduzir um Uber, as próprias pessoas estão a mudar de emprego”, conclui.