Primeira eleição democrática da Renamo escolhe general Momade para líder

Maior partido da oposição moçambicana elege antigo comandante da guerrilha para suceder a Afonso Dhlakama. O grande derrotado é Elias Dhlakama, irmão mais novo do líder histórico da Renamo.

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Ossufo Momade teve quase o dobro dos votos do segundo classificado André Catueira/Lusa

O general Ossufo Momade, de 57 anos, é o novo líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), o grande partido da oposição no país, depois de ter sido eleito esta madrugada num congresso na Gorongosa, disse ao PÚBLICO André Thomashausen, conselheiro do líder histórico da antiga guerrilha.

Ossufo Momade foi escolhido com 410 votos, enquanto Elias Dhlakama, também general e irmão de Afonso Dhlakama, que liderou a Renamo durante quase 40 anos, ficou em segundo lugar, com 238. Manuel Bissopo teve sete e Juliano Picardo recolheu cinco votos. Um quinto candidato, Hermínio Morais retirou-se da corrida e apoiou Momade. 

Os números foram anunciados esta quinta-feira pela organização do 6.º Congresso da Renamo, depois de Thomashausen, que foi orientador de estudos e conselheiro de Afonso Dhlakama entre 1980 e a sua morte, no ano passado, ter confirmado a vitória de Momade. 

Esta foi a primeira eleição genuína para a presidência do partido dos antigos guerrilheiros moçambicanos.

Ossufo Momade tinha a vantagem de ser visto como o líder, pois era coordenador político da Renamo desde a morte de Dhlakama, em Maio de 2018. Para além disso, foi o “braço esquerdo e o braço direito de Afonso Dhlakama durante muito tempo”, disse ao PÚBLICO Thomashausen. Tinha uma autoridade formal e era uma espécie de presidente interino há dez meses. Outra vantagem é ser um respeitado general da Renamo que vive na Gorongosa, ao pé dos antigos guerrilheiros.

Elias Dhlakama, que em entrevista ao PÚBLICO na semana passada disse estar convencido de que teria no mínimo 70% dos votos, “talvez 100%”, deverá ser o novo secretário-geral da Renamo.

Thomashausen, advogado alemão e ex-professor de direito internacional na Universidade da África do Sul e ex-adido do chefe da missão da ONU em Moçambique, disse ao PÚBLICO que Momade é “um dos mais importantes heróis da guerra” civil que opôs a Renamo e a Frelimo durante 16 anos seguidos, entre 1977 e 1992.

O primeiro desafio de Momade será integrar as várias facções da Renamo, em particular agora que houve uma eleição interna genuína, criando grupos de apoio aos quatro candidatos finais. Elias Dhlakama, de 55 anos, fez mesmo campanha eleitoral, tendo viajado por Moçambique para fazer contactos directos com as bases e apresentar o seu manifesto político.

A Renamo ainda é um partido militar e tem ex-guerrilheiros acantonados na floresta da Gorongosa — o número exacto não é conhecido. Mas a ala “urbana e modernista” deve ser acolhida pelo novo líder, sublinha Thomashausen. Ivone Soares, actual presidente da bancada parlamentar da Renamo no Parlamento nacional e sobrinha de Afonso Dhlakama, é considerada a representante desse grupo de militantes que não combateram na guerra civil.

"Momade tem agora a oportunidade de mostrar qual a visão da Renamo para o futuro de Moçambique e preparar o partido para as eleições. Como presidente do partido, pode também juntar a direita e a esquerda da Renamo. Foi inteligente a nomeação de Elias Dhlakama para secretário-geral do partido. Isso pode render-lhe bons resultados eleitorais", afirma Alex Vines, director do programa de assuntos africanos no think tank Chatam House.

Ossufo Momade é muçulmano (como 18% da população de Moçambique) e de Nampula, que é Norte e é a quarta província com mais habitantes do país — duas novidades no líder da Renamo que poderão contribuir para o partido alargar o número de eleitores.

O novo presidente tornou-se guerrilheiro da Renamo em 1978, quando tinha 17 anos. Em 1999, sete anos depois de o Acordo Geral de Paz ter sido assinado em Roma, tornou-se deputado da Assembleia da República.

“Durante a guerra, Ossufo teve um papel muito ingrato, pois foi comandante da Renamo no Sul do país, dominado pela Frelimo”, que governa Moçambique desde a independência, diz Thomashausen. “No Sul, era difícil a Renamo ter vitórias. Foi no Sul que a Renamo foi mais violenta e Momade foi um comandante muito duro. Ainda hoje inspira medo em alguns sectores, mesmo dentro do partido.”

Ao contrário de Elias Dhlakama, o novo líder não investiu na sua formação académica após o fim da guerra. Essa é vista como uma das suas maiores fragilidades.

Moçambique tem eleições gerais marcadas para Outubro, nas quais os 7,6 milhões de eleitores vão escolher um novo Parlamento e um novo Presidente da República. Ao que tudo indica, Momade será o rival de Filipe Nyusi — se o actual chefe de Estado moçambicano se recandidatar.

Momade conhece profundamente o dossier pendente da desmobilização, desmilitarização e integração dos antigos guerrilheiros nas forças de segurança e defesa de Moçambique — Forças Armadas, polícias e serviços secretos. Em termos técnicos, será fácil continuar o diálogo com o Governo de Nyusi.

A dúvida é se tem força política e carisma para tornar real a normalização. Em Outubro, alguns observadores externos e militantes da Renamo ficaram frustrados com a resposta de Momade aos casos confirmados de fraude nas eleições autárquicas — confirmados pelo think tank Chatham House, de Londres —, considerando-a demasiado branda.