Bactéria que destrói oliveiras está em Portugal e não há tratamento

Apesar de Portugal manter desde 2014 um programa nacional de prospecção da bactéria, Xylella fastidiosa surge ano e meio depois de ter aparecido num amendoal na província espanhola de Alicante.

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No modelo superintensivo de olival, extremamente concentrado, as árvores distam apenas 70 centímetros umas das outras Nuno Ferreira Santos

A notícia correu célere. A perigosa bactéria Xylella fastidiosa chegou a Portugal, mais precisamente a um viveiro de Vila Nova de Gaia. É temida em toda a Europa desde que foi detectada, pela primeira, na região da Apúlia (Itália), província de Lecce, em 2013, onde afectou uma vasta área de olival. Já rondava Portugal há algum tempo, mas agora chegou, “à boleia” de plantas do género Lavandula, planta ornamental vulgarmente conhecida por “lavanda”, mas que não apresentam sintomatologia da doença. Porém, a sua presença em território nacional é o suficiente para deixar muitos produtores assustados.

Maria do Rosário Félix, responsável pelo laboratório de micologia do ICAAM — Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas da Universidade de Évora, já recebeu a informação que tinha previsto receber, há um ano, quando reconheceu que “há a consciência de que a curto prazo a doença vai chegar a Portugal”. Chegou a Vila Nova de Gaia, mas a investigadora não acredita que fique configurada: “A bactéria vai espalhar-se ou até já estará disseminada.” Frisa que, quando o insecto vector é infectado pela Xylella, mantém a bactéria, enquanto estiver vivo.

O vento e as correntes de ar farão o resto, arrastando a propagação de “Gaia para Évora ou até mais além” admite a investigadora. E como as plantas infectadas pela bactéria não têm tratamento, nem se pode recorrer aos antibióticos, que não devem ser usados em produtos agrícolas, o caminho passa pela prevenção. As consequências irão reflectir-se nas plantas mediterrânicas — oliveiras, amendoeiras, vinha, citrinos — que se destacam pelo seu grande peso e importância económica. Nos trabalhos de campo que tem realizado, a investigadora do ICAAM diz já ter sido detectado o insecto vector no interior alentejano, sobretudo na raia com Espanha. “Mas não está infectado”, vinca Maria do Rosário, admitindo que não é difícil o contágio.

O trabalho que tem desenvolvido na busca de um antídoto para a Xylella fastidiosa vai no sentido de obter algo que seja como que uma espécie de vacina, mas que nunca vai poder funcionar em árvores adultas infectadas. A sua expectativa leva-a a reservar uma secreta esperança na capacidade de tolerância das nossas culturas à bactéria, sobretudo nos novos olivais, por serem bem tratados e estarem assentes em tecnologia de ponta. 

Mas tem consciência que muitas espécies vegetais que fazem parte da flora mediterrânica que são hospedeiras desta bactéria podem servir de repositório à bactéria que foi detectada pelos serviços da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV). A amostra foi colhida pelos serviços da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte no âmbito do Programa Nacional de Prospecção de X. fastidiosa, referem os serviços em comunicado.

A análise positiva foi obtida pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e confirmada pelo Laboratório Europeu de Referência (ANSES), aguardando-se informação relativamente à estirpe da bactéria. A DG Sante (Direcção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia) foi já informada da situação e a DGAV está a preparar a respectiva notificação fitossanitária Europhyt. As autoridades nacionais desencadearam já todas as acções recomendadas, tendo em vista a identificação e contenção da situação, asseguram.

O local de colheita da amostra foi já inspeccionado por uma brigada mista de técnicos da Direcção Regional de Agricultura e Pescas do Norte e da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária, que “procederam ao levantamento da situação e à colheita de amostras, tendo sido determinada a destruição das plantas”.

O comunicado publicado na página da DGAV salienta que os trabalhos de levantamento de plantas sensíveis num raio de 100 metros (denominada “zona infectada”) e a respectiva colheita de amostras “vão prosseguir ao longo dos próximos dias”. Em paralelo com esta operação vai ter início o processo de identificação da flora sensível ao agente bacteriano num raio de cinco quilómetros (considerada a zona tampão), que será levado a cabo em colaboração com o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) e com as câmaras de Vila Nova de Gaia e de Gondomar. Será também divulgado um edital referente à zona demarcada, constituída pela zona infectada e pela zona tampão, identificando a área em causa.

Face à evolução da situação, foi entretanto aprovada e publicada a Decisão de Execução (EU) 2015/2417 da Comissão Europeia, uma lista de géneros e espécies hospedeiras identificadas como susceptíveis às subespécies da bactéria Xylella fastidiosa. Estas espécies “só podem circular na União Europeia desde que acompanhadas de passaporte fitossanitário, quer tenham sido ou não provenientes de zonas demarcadas”. Resta saber de onde e de que forma as plantas de lavanda, portadoras da perigosa bactéria, entraram em Portugal e se vinham acompanhadas de passaporte fitossanitário.

A DGAV define a Xylella fastidiosa como uma bactéria que “ataca uma vasta gama de espécies vegetais”, como plantas ornamentais e árvores, como oliveiras, videiras, amendoeiras e até o sobreiro, classificando-a como “um dos principais problemas fitossanitários emergentes das últimas décadas”.

Alentejo apreensivo

As consequências mais dramáticas da chegada da bactéria a Portugal podem concentrar-se sobretudo no Alentejo, onde foram plantadas ao longo dos últimos 15 anos muitas dezenas de milhões de oliveiras, amendoeiras e outras árvores de fruto que são o habitat ideal para a propagação de uma praga que já preocupa os olivicultores alentejanos, sobretudo os que exploram grandes áreas de olival intensivo e superintensivo.

A consternação e o receio das incalculáveis consequências alertaram a Olivum — Associação de Olivicultores do Sul para a necessidade de realizar as suas IV Jornadas, em Setembro de 2017, com o objectivo de debater os impactos da doença no novo modelo de olival intensivo. Ficou patente o grau de desconhecimento dos efeitos da bactéria em olivais que estão extremamente concentrados, com árvores distanciadas apenas 70 centímetros umas das outras. O facto de se tratar de culturas tecnologicamente avançadas, com um nível de tratamento fitossanitário muito elevado, não garantia que pudessem escapar às investidas da Xylella fastidiosa.

João Cortez de Lobão, na altura presidente da Olivum, não tinha dúvidas de que, com o alastramento da doença a países da Europa (Itália, França e Espanha), “chegará, mais tarde ou mais cedo a Portugal”. “Portanto, temos de estar [alerta], para poder travar o avanço dessa bactéria.” Prevendo um cenário que já considerava como muito provável, Cortez Lobão, proprietário de uma exploração de olival superintensivo com mais de mil hectares de área no concelho de Serpa, deixava um aviso: “É necessário que sejam implementadas medidas que obriguem os olivicultores a informar, assim que desconfiarem que uma árvore está infectada, para que as autoridades possam controlar a zona e travar o contágio.” O que então se estava a passar em Itália era esclarecedor: as oliveiras tinham de ser arrancadas e queimadas, exigência que levou muitos agricultores, em desespero, a esconderem a propagação do surto da doença às suas explorações.

Só quando a bactéria chegar ao Alentejo é que se saberá como se irão comportar as oliveiras, as amendoeiras, as vinhas, os citrinos e até os sobreiros quando o insecto vector as procurar para deixar a Xylella fastidiosa, ano e meio depois de ter contaminado amendoeiras na província espanhola de Alicante.