O planeta está a ficar sem espécies selvagens de café

Descobriu-se que 75 espécies de café selvagem estão em perigo de extinção e podem vir a ameaçar a produção comercial de café.

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No centro, grãos de café de Ambongo, uma das espécies ameaçadas de Madagáscar, rodeados de grãos de café arábica, a espécie mais comercial RBG/Kew

Mais de metade das espécies de café selvagens, aquelas que contribuem para assegurar que o café que o ser humano consome não se esgota, está em vias de extinção. 

Segundo uma investigação dos Jardins Botânicos Reais de Kew, no Reino Unido, publicada esta quinta-feira na revista científica Sciences Advances, as alterações climáticas e a desflorestação estão a pôr em risco a preservação dos grãos que se transformam na bebida mais consumida do mundo. 

Os investigadores descobriram que as medidas de conservação que estão a ser postas em prática não são suficientes para garantir o futuro do café a longo prazo. 

O arábica (coffea arabica) e o robusta (coffea canephora) são as duas espécies de café comercial mais consumido no mundo e estima-se que juntas constituam 100% do consumo mundial. No total, foram até agora descobertas 124 espécies de café. Apesar do arábica e do robusta não fazerem parte da lista de risco iminente de extinção, no futuro poderão ser necessárias outras espécies para que o sector cafeeiro consiga sobreviver. Cada uma das mais de 100 espécies possui características valiosas para o desenvolvimento do café, incluindo tolerância climática e resistência a pragas, entre outras. 

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Coffea pterocarpa, espécie de café de Madagáscar em perigo de extinção Aaron Davis/RBG/Kew

No total, os resultados mostram que 75 espécies de café selvagem (60%) estão em perigo de extinção, uma das maiores taxas registadas numa planta até agora. Os cientistas alertam para a importância de serem postas em prática acções específicas em alguns países do continente africano, principalmente na Etiópia, o berço do café arábica e o maior exportador da África, mas também em Madagáscar, na Tanzânia e nos Camarões. 

O que mais preocupa os investigadores dos Jardins Botânicos Reais de Kew é o número baixo de locais onde as espécies selvagens estão plantadas. Juntamente com as ameaças contínuas ao seu habitat e às alterações climáticas, essa pode ser a causa que destruirá a indústria do café a longo prazo. 

Os investigadores dividiram as espécies conhecidas em três grupos, de acordo com a sua relevância para a produção do café. No primeiro grupo colocaram o arábica e o seu antepassado próximo (Coffea eugenioides), bem como o robusta e o libérica, as espécies mais consumidas. Num segundo grupo estão 38 espécies que, embora não produzam híbridos de forma natural com as mais comercializadas, podem trazer melhorias na resistência, nos aromas e até no rendimento do café. No último grupo foram catalogadas 82 espécies que não têm interesse comercial neste momento, mas que, graças à evolução tecnológica, podem vir a ser valiosas.