Editorial

PSD, a “clarificação” impossível

Para o país político, é uma tragédia que um partido essencial para os equilíbrios institucionais esteja condenado a birras e egos de adolescentes.

Já percebemos como vai acabar o desafio público para a convocação de eleições directas que Luís Montenegro dirigiu a Rui Rio. Vai acabar com um anticlímax. Numa rápida e sagaz jogada, o líder do PSD anulou a jogada táctica dos seus opositores. Com o braço-de-ferro diferido para o conselho nacional desta semana, só um milagre fará a vontade aos dissidentes que se agregam em torno de Montenegro. Rio vai promover a “clarificação” que os seus oponentes lhe exigem mas num terreno que lhe é favorável e sem abdicar do controlo das regras do jogo. Perante tão imensa zona cinzenta, convém antecipar o que se espera no principal partido da oposição. Não se espera nada de bom.

O que separa as hostes de Rui Rio das de Luís Montenegro é muito mais do que uma simples birra pessoal, uma divergência programática ou um profundo antagonismo sobre o que deve ser o PSD. É tudo ao mesmo tempo, devidamente temperado com as emoções destemperadas sobre o “nós e os outros” que Rui Rio é incapaz de controlar. Depois da dita “clarificação” no conselho nacional, o PSD regressará a uma zona de escuridão sem que qualquer uma das suas facções seja capaz de enxergar os argumentos da outra. A guerrilha vai continuar e, haja ou não militantes dispostos a procurar a aliança amiga de Santana Lopes, o PSD continuará instável e sem grande margem para capitalizar as dúvidas ou os descontentamentos em relação ao Governo.

Para o país político, não deixa de ser uma tragédia que um partido essencial para os equilíbrios institucionais esteja condenado a birras e egos de adolescentes. O PSD sempre foi capaz de agregar liberais com sociais-democratas, as bases do interior com os círculos intelectuais das grandes urbes, o pequeno comerciante com o grande industrial. E se em tempos foi capaz de extrair um interesse comum em faunas tão divergentes foi porque era um partido plástico, pragmático e liderado por gente que sabia fazer pontes. Hoje isso é uma miragem. É o preço a pagar pela intransigência autoritária de Rio e pela insolência e presunção de Montenegro sobre a sua missão salvadora.

Acreditar que fendas assim profundas, que divergências tão fulanizadas se resolvem com um conselho nacional é puro delírio. Vai demorar tempo até que o PSD volte a ser “o partido mais português de Portugal”. Se, por acaso, o voltar a ser alguma vez.