Renamo escolhe novo líder em primeira eleição genuína

Maior partido da oposição de Moçambique elege esta semana o novo Presidente e sucessor do histórico Afonso Dhlakama. O vencedor será o candidato às presidenciais de Outubro.

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Afonso Dhlakama Grant Lee Neuenburg/Reuters

Pela primeira vez em 40 anos, os militantes da Renamo, o maior partido da oposição de Moçambique, vão escolher o seu líder num genuíno processo democrático. Ao contrário dos congressos anteriores, não há um vencedor claro.

Afonso Dhlakama, que morreu no ano passado, foi presidente da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) entre 1979 e 2018. Formalmente, foi eleito líder em pelo menos cinco congressos. “Mas não eram eleições sérias. Nunca houve candidatos para desafiar Dhlakama”, diz ao PÚBLICO André Thomashausen, que se apresenta como “orientador de estudos e conselheiro amigo” de Afonso Dhlakama desde 1980. “Sempre que apareceu alguém mais jovem com força para ser líder, foi internamente afastado”, diz o advogado, ex-professor de direito internacional na Universidade da África do Sul e ex-adido do chefe da missão da ONU em Moçambique. “Este é um mundo novo para a Renamo”, concorda Alex Vines, director do departamento africano no think tank britânico Chattam House. “Afonso Dhlakama foi presidente desde 1979 e nunca houve uma discussão sobre a liderança. Nunca houve democracia no partido. Por isso este momento é tão importante.”

O sexto congresso da Renamo que começa esta terça-feira (termina a 17) promete ser um corte com essa tradição — e por isso é visto como um momento de transformação. Devem candidatar-se à liderança do partido três homens, mas é possível que apareçam outros até ao início dos trabalhos.

Os três candidatos assumidos têm uma relação muito próxima com o líder histórico: um foi o seu braço direito durante anos, outro foi por ele escolhido para gerir o partido e o terceiro é seu irmão: Ossufo Momade, Manuel Bissopo e Elias Dhlakama.

Moçambique tem eleições gerais marcadas para Outubro, nas quais os 7,6 milhões de eleitores vão escolher um novo parlamento e um novo Presidente da República. O novo líder da Renamo que sair deste congresso, será o rival de Filipe Nyusi — se o actual chefe de Estado se recandidatar.

A prisão do deputado da Frelimo e ex-ministro das Finanças moçambicano, Manuel Chang, na África do Sul, a 29 de Dezembro — acusado de lavagem de dinheiro e fraude fiscal — e o pedido de extradição para os Estados Unidos, introduziu um novo factor de incerteza na política moçambicana, notam analistas e observadores ouvidos pelo PÚBLICO. Mas é cedo para saber que repercussão vai ter a prisão de Chang, sublinham todos. “Se for para os EUA e contar o que sabe de modo a negociar uma redução da pena, isso vai provocar ondas de choque na Frelimo [partido no poder desde a independência]”, diz um analista. Segundo a Bloomberg, agência de notícias financeiras, é isso que o libanês Jean Boustani está a fazer.

Para negociar um acordo sem ir a julgamento, Boustani estará a tentar chegar a acordo sem julgamento e já terá admitido que pagou 50 milhões de dólares em subornos e comissões a representantes do governo de Moçambique no mandato do ex-Presidente de Moçambique, Armando Guebuza. O empresário é uma peça-chave para perceber o que aconteceu aos dois mil milhões de dólares de dívida oculta desaparecidos nesse período.

O escândalo levou à suspensão de muito apoio internacional. Até Portugal deixou de contribuir para o Orçamento do Estado moçambicano (entre 2004 e 2015, Lisboa doou 13,28 milhões de euros nesta linha de apoio — que não inclui os apoios sectoriais na educação e saúde). Alinhado com o G14, Lisboa tem suspenso desde 2016 as contribuições para o apoio geral ao Orçamento do Estado". “Há pessoas na Frelimo muito preocupadas com o efeito Manuel Chang”, diz outro analista. “A detenção do ex-ministro pode enfraquecer ou dar força a Filipe Nyusi. Ainda é cedo para saber”, diz Vines. Há mais cinco co-conspiradores moçambicanos que ainda não foram detidos, noticiou a agência Lusa, que consultou o processo de acusação americano.

O escândalo envolve o Credit Suisse, o segundo maior banco da Suíça, que terá emprestado 600 milhões de dólares ao governo de Maputo e viu três ex-funcionários de topo serem acusados pela justiça norte-americana de participar no esquema fraudulento.

Os três candidatos

São esperados na Gorongosa mil pessoas, 700 delegados e 300 convidados, uma operação logística de peso. “É preciso organizar onde é que todas essas pessoas dormem e é preciso dar-lhes comida durante os dias do congresso”, diz Thomashausen. Nenhum dos candidatos divulgou um programa e mesmo Elias Dhlakama, que o PÚBLICO entrevistou, não quis revelar o seu manifesto “para os outros candidatos não o copiarem”.

Os três homens, dois militares e um civil, têm pontos fortes que lhes dão vantagem sobre os rivais, mas ninguém se atreve a antecipar os resultados com convicção. “Penso que vai ganhar Ossufo Momade, porque tem mais apoio dos militares; que Elias Dhlakama ficará em segundo e Bissopo em terceiro”, diz Vines. “Mas não ficarei muito triste se estiver errado. O resultado é imprevisível. Pode perfeitamente não ser assim.”

A vantagem clara de Ossufo Momade é ser visto como o líder. Foi o “braço esquerdo e o braço direito de Afonso Dhlakama durante muito tempo”, diz Thomashausen, e em Maio, a seguir à sua morte, foi escolhido como coordenador político da Renamo. Tem uma autoridade formal. É uma espécie de presidente interino há dez meses. Outra vantagem é ser um respeitado general da Renamo que vive na Gorongosa, ao pé dos antigos guerrilheiros. Será por isso o favorito de muitos militares do partido.

Elias Dhlakama tem a seu favor duas coisas imediatas: “Tem o mesmo apelido de Afonso Dhlakama e é parecido com Afonso Dhlakama”, diz Vines. Além disso, foi guerrilheiro da Renamo durante os 16 anos da guerra civil, mas a seguir ao Acordo Geral de Paz, assinado em Roma em 1992, foi estudar — licenciatura em História, mestrado em Ciências Políticas, Governação e Relações Internacionais e curso de Altos Comandos —, uma vantagem num partido cujos quadros têm pouca escolaridade.

Para um partido que ainda tem antigos guerrilheiros por desmobilizar, desarmar e reintegrar, estes são os dois candidatos que fazem uma ligação directa com o passado militar da Renamo. “Ossufo Momade e Elias Dhlakama foram combatentes da guerrilha, mas representam duas gerações”, diz Vines. Não tanto pela diferença de idade — Momade tem 57 anos, Dhlakama tem 55 — mas pelas vidas diferentes que seguiram depois da paz. Um ficou na Gorongosa, na Renamo, ao lado do velho líder, o outro mudou-se para a cidade, integrou as Forças Armadas e de Defesa de Moçambique e investiu na sua formação académica. Os seus apoiantes têm à mão fotografias suas com a cartola preta das cerimónias de graduação a abrir champanhe com o seu irmão mais velho.

António Chichone, durante anos representante da Renamo na Europa, diz que muitos militantes defendem que o sucessor deve ser um militar enquanto as questões pendentes dos ex-combatentes não estiverem resolvidas.

A vantagem de Manuel Bissopo, o candidato civil, é ser o secretário-geral da Renamo, escolhido por Afonso Dhlakama para reorganizar e modernizar o partido, tarefa que lhe permitiu conhecer as estruturas locais da Renamo de norte a sul do país. É o primeiro na hierarquia e “conhece o partido como a palma da mão”, diz Thomashausen. “Desde que foi baleado, que se dedica a tarefas administrativas: fez a catalogação e registo dos membros, a reconciliação das listas, montou bases de dados acessíveis com nomes e números de telefone. Isso permite fazer um planeamento estratégico. A Frelimo vê esta reorganização como uma ameaça, porque sabe que é assim que um partido ganha força.” Thomashausen diz que “não há ninguém que não o conheça no partido” e que, por ter sobrevivido a 48 disparos, é visto por “muitos velhos aldeões como um santo”. Ele já assistiu. “Quando Bissopo aparece, os velhos vão buscar as crianças para tocarem no homem que sobreviveu, acreditam que tem alguma coisa de milagroso.”

Os pontos fracos dos três candidatos também são claros. Ossufo está fechado no mato e não fez campanha, enquanto Dhlakama tem contactado militantes e dado entrevistas. Ao PÚBLICO, explicou que se candidata “por patriotismo” e porque lhe pediram. Acredita que vai “ganhar com mais de 70% dos votos, talvez 100%”. Contra si, no entanto, há a ideia de que “caiu do céu”, como diz Thomashausen, e dúvidas sobre um possível excesso de afinidades com a Frelimo, após 30 anos como militar das tropas nacionais. “Cresci no partido, servi o partido, sou guerrilheiro da Renamo e integrei as forças armadas nacionais a pedido da Renamo”, respondeu numa entrevista por telefone. A vulnerabilidade de Ossufo tem a ver com a sua saúde e formação académica (ambas pouco sólidas). Bissopo perdeu nas autárquicas de Outubro, onde foi candidato pela Beira. Chegará ao congresso com uma derrota fresca. Comum a todos: nenhum tem experiência com as massas.

Por telefone, Ivone Soares, líder da bancada parlamentar e sobrinha de Afonso Dhlakama, resume o dilema que o partido vai ter de resolver até quinta-feira: “A Renamo precisa de um presidente capaz de concluir o dossier militar e manter a coesão interna e com carisma para atrair novos membros de todas as faixas etárias e projectar o partido dentro e fora do país.”