Poema de Álvaro de Campos censurado em manual de Português da Porto Editora

Os alunos do 12.º ano identificaram a omissão dos versos quando ouviram uma versão áudio da obra do poeta português.

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A censura ao poema do heterónimo de Fernando Pessoa surge num dos livros aprovado pelo Ministério da Educação e adoptado por 90 escolas ENRIC VIVES-RUBIO

Alguns excertos do poema Ode Triunfal de Álvaro de Campos, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, foram retirados e substituídos por linhas a tracejado num dos manuais escolares de Português do 12.º ano, da Porto Editora. A notícia é avançada pelo jornal Expresso, que indica o manual censurado como sendo um dos livros aprovados pelo Ministério da Educação.

Três versos de Ode Triunfal — que contêm linguagem explícita — foram substituídos por linhas a tracejado.

De acordo com o mesmo jornal, os versos “Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas” e “E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! / Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada” foram retirados da versão original do poema do heterónimo de Fernando Pessoa, que consta nesse manual escolar.

Segundo descreve o Expresso, alunos de uma das 90 escolas que adoptaram o manual “Encontros” no presente ano lectivo, aperceberam-se do sucedido ao escutarem uma gravação áudio do poema. Foi assim que constataram que os versos que ouviam na gravação não figuravam nas páginas 99 e 100 do manual, e que esses versos haviam sido substituídos por linhas a tracejado.

A leitura de obras de Fernando Pessoa e seus heterónimos faz parte das “Aprendizagens Essenciais” decretadas pelo Ministério da Educação, que definem que o aluno deverá ter “um conhecimento e uma fruição plena dos textos literários do património português e de literaturas de língua portuguesa”.

Com base nas informações recolhidas pelo Expresso, não aparecerá nenhuma indicação no livro a dar conta das alterações efectuadas ao texto original de Álvaro de Campos. Nem na ficha técnica ou tão pouco nas páginas do poema.

O PÚBLICO entrou em contacto com a Porto Editora e com o Ministério da Educação, mas até à data da publicação da notícia não foi possível obter qualquer informação adicional, remetendo esclarecimentos para segunda-feira.