Opinião

Está-se mesmo a ver que a culpa é das redes sociais

A Internet não é apenas reduto de liberdade, nem as redes sociais são meras plataformas de ligação entre pessoas, como se romantizou. Há tensões, instrumentalizações, interesses comerciais e outras nebulosas à espreita.

Houve uma altura em que os culpados disto tudo eram políticos, bancários, jornalistas, taxistas e árbitros de futebol, talvez não exactamente por esta ordem. Tinham essa importante função de serem receptáculo de qualquer zanga. Para eles canalizávamos as grandes e pequenas misérias o que impedia, digamos assim, acidentes mais graves.

Hoje a culpa de tudo é das redes sociais. Potencia emoções básicas. Desvia-nos dos assuntos essenciais. Destrói casamentos. Enfraquece democracias. Vicia eleições. É terreno fértil para populismos, nacionalismos e fascismos. Enfim, o fim do mundo. Há dias, foi a estrela ascendente da política alemã, Robert Habeck, líder de Os Verdes, que falou de clima de ódio nas redes, depois da avalanche de críticas ao dar a entender que o estado federado da Turíngia não seria democrático.

Pediu desculpa pelo lapso, mas resolveu deixar o Facebook e o Twitter, argumentando que era contaminado pelo ambiente das redes, actuando aí de forma mais agressiva, estridente, polémica e não reflexiva. Este é um exemplo. Muitas outras pessoas, em especial no último ano, largaram-nas, desiludidas com a maledicência, as notícias falsas, a propaganda política, a privacidade limitada, a transacção de dados pessoais e um excesso de informação com pouco conhecimento. 

Consigo entender quem o faz movido pela noção de que existe muito mais mundo para além daquele. Já quem as abandona por motivos políticos ou mercantis me parece ser atitude pouco produtiva. A Internet não é apenas reduto de liberdade, nem as redes sociais são meras plataformas de ligação entre pessoas, como se romantizou. Há tensões, instrumentalizações, interesses comerciais e outras nebulosas à espreita.

O que fazer? Ter consciência disso, estar alerta, perceber que o controle sobre os cidadãos que no Ocidente identificamos com tanta facilidade nos outros, também se manifesta aqui, mesmo se de forma mais subtil e elaborada. Mas é preciso não confundir o que está em causa. Passamos o tempo a apontar o dedo aos meios e instrumentos (agora é o Facebook ou o WhatsApp, como já foi a publicidade, o marketing ou a propaganda), como se fossem estes a corroer as democracias, o que acaba por ser uma forma de nunca olharmos para algumas práticas e para o todo sistémico.

E este é que tem de ser revisto. O que está a dar cabo da democracia não é o Facebook, são as formas mais predatórias do capitalismo, as desigualdades, os monopólios, a precariedade, uma economia de mercado distorcida pelos mais poderosos para obter vantagens para si próprios à custa dos mais frágeis, ou seja, uma rede – também ela social – de interesses a quem convém que tudo se mantenha como está e que se manifesta nos mais diversos planos, entre eles também no Facebook.

Há quem saia das redes pensando que essa é a forma de contrariar forças antiprogressistas. Mas isso apenas criará vazios que serão ocupados por essas forças nocivas que se pretende iludir. Ontem como hoje, offline ou online, a opção é compreender onde nos situamos. É não idealizar. É ver limites, mas também potencialidades. É melhorar práticas individuais – por mais residual que seja o efeito no global – em vez de responsabilizar sempre os outros pela debilidade dos espaços onde nos movimentamos. É sermos inteligentes, actuando nos interstícios de lógicas sistémicas nas quais não nos revemos, tentando formular alternativas. É procurar colectivamente respostas, mobilizando no sentido das mudanças, exigindo ser ouvidos por quem tem poder, assumindo uma cidadania activa, inclusive junto dos que gerem ou se servem das redes.

Só dessa forma asseguraremos que a nossa presença aí, ou em qualquer outro lugar, corresponde às nossas orientações de base. É difícil? Sim. É impossível? Não. Vivem-se tempos confusos. Há uma luta a ser travada no mundo. Se a perdermos não será por causa das redes sociais.