Há um ano Costa foi ao Pinhal de Leiria dar o exemplo. Mas os sobreiros morreram quase todos

Para mostrar como seria diversa a reflorestação do Pinhal de Leiria, após o incêndio que o devastou, o primeiro-ministro foi lá plantar um sobreiro. O que ficou da “operação de charme”?

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Daniel Rocha
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22 de Janeiro de 2018. Três meses após o incêndio que consumiu quase por completo o Pinhal de Leiria, o primeiro-ministro pegava numa enxada e plantava um sobreiro no solo ainda em cinzas. Era um gesto simbólico, para mostrar como seria diversa a reflorestação da mata nacional. E, rodeado pelo ministro da Agricultura, o secretário de Estado das Florestas, o presidente do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e dezenas de jornalistas, dava o mote para que parte daquele talhão fosse nesse dia e nos seguintes reflorestado por voluntários. Mas poucas árvores sobreviveram.

João Manuel Soares, engenheiro agrónomo e secretário de Estado das Florestas de Durão Barroso (PSD), mostrou no Facebook o que o PÚBLICO confirmou no local, em frente à Escola Secundária de Vieira da Leiria. Entre acácias e outras invasoras, ao longo dos regos de solo arenoso, sobreiros do tamanho de um palmo secaram, uns atrás dos outros. Poucos vingaram.

Há uma série de factores que o podem explicar. Comuns na mata nacional, estes solos arenosos são muito pobres em matéria orgânica, o que elimina as hipóteses de sobrevivência de grande parte das espécies vegetais. As que resistem aos primeiros cinco anos — a janela temporal mais crítica — dificilmente atingem dimensões consideráveis. O pinheiro-bravo é uma excepção comprovada. Pela sua robustez, suporta melhor os ventos marítimos e a salinidade da região. Mas há bolsas de fertilidade que dão hipóteses a outras espécies. Nos limites deste terreno existem, aliás, vários sobreiros com poucas dezenas de anos.

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LUSA/RUI MIGUEL PEDROSA

Isso justificaria a decisão de ali os plantar, pois é comum que na hora de florestar uma área se veja que espécies vingaram à volta. Mas o Verão quente e seco aumentou as probabilidades de insucesso, assim como o facto de as plantas terem germinado num viveiro. “Vindas de um torrão de terra diferente em termos de condicionamento e fertilidade, sofrem um impacto violento ao ser colocadas num terreno austero”, refere um técnico florestal. A regeneração natural e as sementeiras no próprio local tendem a ter mais sucesso.

Dias depois do Governo, a Zero tentou a mesma sorte num terreno ao lado. “A olho”, Paulo Lucas, que acompanha as áreas da biodiversidade, agricultura e florestas na associação ambientalista, diria que 80% do que os voluntários plantaram morreu. “É perfeitamente normal. A ideia de que é muito fácil e barato plantar árvores é muito romântica, mas as plantações são um trabalho florestal, profissional, como qualquer outro”, afirma. “Mesmo bem feito, há sempre um grande grau de incerteza.”

"Continuo a achar que é muito importante que os políticos continuem a fazer este tipo de acções, pelo efeito de contágio. São precisos milhões de euros para investir ali", afirma. E agora há que substituir as árvores perdidas (a chamada retancha). O incêndio de 15 de Outubro de 2017 consumiu 86% (9476 hectares) da mata de Leiria.

Gabriel Roldão, membro da Sociedade Portuguesa de Geografia e um profundo conhecedor do Pinhal de Leiria, louva que esta acção de replantação tenha estimulado outras. “Serviu para incutir no espírito das pessoas a diversidade da plantação que viria aí. Mas obviamente foi uma operação de charme. Veio todo o mundo bater palmas. No dia seguinte ninguém cá estava a trabalhar.”

João Manuel Soares — director-geral das Florestas entre 1988 e 1990, e depois administrador da Portucel Florestal, a actual The Navigator Company — é mais crítico. Entende que só o pinheiro tem robustez para suportar aqueles ventos marítimos e solos de areia, beneficiando da matéria orgânica que ele próprio produz. “Medronheiros, alfarrobeiras, sobreiros não são para ali. É um disparate”, diz. “E o país tem que perceber que não há florestal ambientalmente sã se não for economicamente viável. Se a economia não reconhece valor num produto florestal, ele fica ao abandono.” Perante o argumento de que florestas diversas são mais resilientes ao fogo, responde que essa protecção poderia ser garantida com o reforço dos serviços florestais. “Mas os quadros estão subalternizados em funções administrativas.”

Questionado sobre o número de hectares plantados naquele dia e o acompanhamento que lhes foi dado, o ICNF não respondeu até ao momento.

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