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Jaime cresceu na mercearia do avô e transformou-a na Garrafeira Nacional

O dono da Garrafeira Nacional cresceu atrás do balcão daquela que é uma das mais recentes Lojas Com História de Lisboa. Um vinho, diz, “faz-nos pensar no que aconteceu na altura em que foi feito, se estávamos numa revolução, numa guerra...”.

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Jaime Vaz Miguel Manso
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Jaime Vaz tinha 18 anos quando comprou a primeira garrafeira particular. Um coleccionador que morrera, familiares que não estavam interessados e, portanto, uma oportunidade. “Era uma garrafeira bastante grande, muito bem organizada”, conta aquele que é hoje o proprietário da Garrafeira Nacional, loja histórica de Lisboa. “Passei tudo para o nosso armazém e cataloguei. Vi coisas tão antigas, tão interessantes, vinhos de mesa, de Colares, dos anos 1920, anos 30. A partir daí apaixonei-me."

O que fascina Jaime são as garrafas – quase mais do que o líquido que contêm. Ou melhor, tudo o fascina desde que transporte História. “Faz-nos pensar no que aconteceu na altura em que foi feito, se estávamos numa revolução, numa guerra. Tenho vinhos de 1815, quando pensamos em 1815, Napoleão ainda era vivo. Vou beber um vinho que foi feito com Napoleão vivo. Para mim não é só o vinho, é o momento.”

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A antiga Mercearia Nacional, no tempo do avô de Jaime Vaz Miguel Manso

Ao longo dos anos foi aprendendo muito. “Houve garrafas que estraguei por desconhecimento, mas a maior parte aproveitei”, afirma. Com o vinho do Porto ou da Madeira “é raro termos uma tristeza ao abrir uma garrafa”. Mas com os tranquilos corre-se algum risco de não estarem em condições. “Pode-se abrir uma garrafa com 80 anos e estar excepcionalmente bom, ou outra com a mesma idade que pode não estar tão bom, ou mesmo uma que já morreu. Mas isso faz parte do interesse de quem gosta de vinhos.”

Foi com o pai de Jaime que a antiga mercearia da Rua de Santa Justa começou, a pouco e pouco, a especializar-se em bebidas e a tornar-se garrafeira. “O espaço foi adquirido pelo meu avô materno em 1927”, conta. “O meu avô faleceu em 1950 e deixou a empresa ao meu pai, que começou já então a evoluir para a charcutaria e os vinhos."

Mas os tempos eram muito diferentes, “não se consumia nada que se parecesse com o que se consome hoje” e os vinhos eram, na sua maior parte, vendidos a granel. “Engarrafados, eram um produto altamente elitista, muito caro para toda a gente.”

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Jaime com o pai na época em que a loja começou a apostar mais nas bebidas Miguel Manso

Jaime era pequeno mas os clientes da casa já o encontravam a atender ao balcão. Teria uns sete anos, estudava numa escola na Praça da Figueira, mas quando acabava as aulas ia direito para a mercearia ajudar o pai. “Durante a semana gostava, ao fim-de-semana já não me agradava tanto”, confessa. Havia produtos de charcutaria, bacalhau e muitos frutos secos, que eram uma das especialidades do estabelecimento.

À medida que ia crescendo, a Baixa lisboeta também se ia transformando, com alturas em que tinha muita gente e outras em que ficava mais deserta. “Nós sempre tentámos marcar o nosso cantinho, temos clientes fiéis há 10, 15, 20, 30 anos, alguns conhecem-me desde os dez anos e até me chamam Jaiminho."

Com uma aposta crescente nos vinhos, o espaço físico da casa também foi crescendo. “Mas nunca alterámos a traça”, sublinha. E se em muitas coisas se modernizaram – um dos canais fortes de venda hoje é online – fazem questão de manter “o atendimento de há 50 anos”. O que é que isso quer dizer? “Não queremos uma transacção rápida.” Os funcionários estão preparados para responder às perguntas de quem conhece bem o vinho ou de quem o conhece menos bem e procura sugestões que o ajudem a decidir o que comprar.

E as coisas têm corrido tão bem que nos últimos anos nasceram mais duas Garrafeiras Nacionais, uma em 2011, mais próxima da zona da Sé, e outra em 2015, no Mercado da Ribeira. A da Rua de Santa Justa tornou-se, entretanto, uma das Lojas Com História de Lisboa. “Estamos aqui há 90 anos”, recorda o proprietário, “já passaram por aqui vários momentos da vida do país, maus, bons, muito maus e muito bons, muito agitados e muito calmos.”

E enquanto turistas, mas também muitos nacionais, entram procurando garrafas mais ou menos históricas, vinhos do Porto, da Madeira, Moscatéis – há dentro da loja um espaço mais museológico onde estão guardadas as garrafas mais especiais – ou, cada vez mais, os vinhos tranquilos portugueses, Jaime Vaz continua em busca das garrafeiras que ainda guardam tesouros inesperados.

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Preçario antigo, preechido com a letra do pai de Jaime Miguel Manso

“Hoje já são muitas vezes as pessoas que nos procuram e nós temos que fazer uma avaliação a vários níveis”, explica. “Se for uma garrafeira particular, é preciso tentar saber a história, se foi uma herança, como é que o produto esteve guardado, registos das compras, e se, de todo em todo, não se souber a história, não compramos.”

Há de tudo no mercado. “Aparecem garrafeiras extraordinariamente boas e outras que a gente nem de graça quer. Muitas vezes, os produtos são bons, mas estiveram mal conservados. Temos que ter um cuidado muito grande, é por isso que, do que vendemos, não temos praticamente reclamações.”

O problema é que, tirando as tais surpresas que vão acontecendo, de tempos a tempos, o número de vinhos raros a circular é cada vez menor. “Ultimamente atingem preços muito altos porque vão sendo cada vez mais raros. Os consumidores compram-nos e consomem-nos, enquanto antigamente compravam e guardavam.”

Outra mudança que Jaime tem constatado é no nível de conhecimento dos consumidores. “O público começou a evoluir, sabe o que quer, sabe provar, está muito dentro do assunto. E conhece a relação qualidade-preço. Mas se quiser esbanjar, também pode esbanjar à vontade. Dizem-me ‘quero um vinho muito caro’, arranja-se um vinho muito caro e muito bom.”

No entanto, por vezes não é um bom negócio o que mais alegra Jaime. A paixão pelas garrafas supera tudo. “Há algumas garrafas que, sinceramente, tenho pena de vender. Há cerca de seis meses vendemos uma garrafa de vinho da Madeira de 1715. Foi bem vendida, cara, já foi aberta e consumida. Custou-me, a minha equipa quase que me pedia para não a vender. Mas teve que ser.”