Esta plataforma quer levar portugueses e turistas a pôr as mãos na terra

Como se criam caracoletas, cogumelos shitake ou morangueiros suspensos? Quem são os agricultores portugueses? Como se vive no campo? A Portugal Farm Experiences quer levar-nos a quintas agrícolas para conhecer produtores e experimentar pôr mãos ao trabalho.

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Manuel produz cogumelos shitake Nuno Ferreira Monteiro
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Caracoletas na Quinta Vale Forno Nuno Ferreira Monteiro
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Estêvão Anacleto, da Portugal Farm Experiences

Quando o portão da estufa se abre, não vemos mais do que couves, nabiças, trevos, alfaces. Uma comunhão de verdes viçosos em carreiros ordenados. É preciso apurar o olhar – e saber onde procurá-las. Por esta altura do ano, a maioria das caracoletas produzidas pela Vale Forno, uma quinta familiar localizada em Zibreira, concelho de Torres Novas, está em período de hibernação. Por isso, muitas estão armazenadas na arca frigorífica, onde a regulação da temperatura permite controlar a duração deste estágio. E as poucas que se passeiam pelas hortaliças estão mais quietas do que é habitual.

Aos poucos, vamos conseguindo detectar as carapaças mais gordas: a trepar pelos panos que delimitam os canteiros ou aninhadas nos tabuleiros de madeira. Mas Clara Tojo e a filha, Kelly Silva, mostram-nos que há também por ali dezenas de minúsculos caracóis bebés escondidos entre as folhas. “Nesta fase, chamam-se alevins”, aponta Kelly. O pequeno molusco, ainda de casca translúcida, não ocupa mais do que alguns milímetros da palma da mão. São precisas entre três a quatro semanas para que chegue à fase adulta e mais alguns meses até estar pronto a ser colhido. Passa meio ano “desde que nascem até irem para o mercado”, esclarece Clara.

A família decidiu arrancar com a exploração de caracoletas helix aspersa maxima há cerca de cinco anos, por iniciativa do patriarca, Artur Silva. Construtor civil, quando o trabalho começou a rarear durante a crise económica, pôs-se a pesquisar alternativas. “Isto foi o que lhe chamou mais à atenção”, recorda a mulher, Clara Tojo. “É uma empresa muito familiar. A gente é que faz tudo na escolha das caracoletas”, conta. Nas alturas de maior trabalho, as filhas vêm dar uma ajuda. Há dois anos, a quinta, onde já cultivavam muitos produtos hortícolas e faziam criação de animais para consumo de casa, foi uma das primeiras a integrar a plataforma Portugal Farm Experiences. “Éramos vizinhos, mas não o conhecia”, conta Clara. Fala de Estêvão Anacleto, ao nosso lado, fundador do projecto que nos trouxe até cá.

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O site, um “género de Booking” especializado em experiências agrícolas, até começou por se chamar Campónio. A ideia era atrair ao campo os portugueses citadinos que já tinham perdido a ligação à terra. “Mas apercebemo-nos que o nosso cliente era maioritariamente estrangeiro e que a marca não vendia. Tínhamos de estar sempre a explicar o que queria dizer”, conta o responsável para justificar a recente mudança de nome e de idioma. Há portugueses a reservar experiências na plataforma: famílias que querem mostrar às crianças que a alface não nasce no supermercado, chefs à procura do contacto directo com o produtor para saber mais sobre os ingredientes que utilizam na cozinha, emigrantes e agricultores – mais e menos experimentados – com vontade de apostar numa nova exploração.

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Caracoletas na Quinta Vale Forno Nuno Ferreira Monteiro

Mas a grande maioria são estrangeiros. Turistas que querem explorar Portugal para lá das principais cidades, que têm curiosidade “em ver como as coisas são produzidas” e vontade de “conhecer as pessoas autênticas do campo e de saber como elas vivem em Portugal”. “Diria que 90% dos nossos clientes nunca viram nada a crescer na terra ou a ser produzido desta forma”, estima Estêvão Anacleto. Clara assume que nas visitas à Vale Forno já apareceu de tudo: pessoas que nunca tinham visto caracóis, vivos ou no prato, que nunca tinham tocado ou provado ou que não gostavam e passaram a adorar. “Tivemos uma rapariga que se pôs a gritar: 'Meu Deus, que vai morder-me a mão'”, conta Clara, entre risos. “Ia desmaiando, mas depois adorou tudo, incluindo a comida.”

Shitake para o almoço

Actualmente, a plataforma disponibiliza 14 experiências em quintas diferentes. É possível visitar explorações de caracoletas, cogumelos, morangos em hidroponia, galinhas autóctones, vinhas, olivais, ervas aromáticas ou maçãs reineta, por exemplo. A esmagadora maioria das quintas está localizada nas regiões da Grande Lisboa e do Ribatejo, mas o objectivo é expandir. Muito e depressa. “Queremos atingir as 100 experiências até ao fim do ano”, revela Estêvão Anacleto. A ideia é chegar a todo o país, incluindo ilhas. E, quem sabe, espreitar o mercado espanhol no próximo ano.

Para já, quase todas seguem o mesmo formato: visita guiada à quinta, explicação sobre os métodos produtivos, workshop, colheita e degustação de produtos. Privilegiando sempre o contacto directo com o próprio agricultor, que muitas vezes lidera toda a actividade. Em alguns casos, a refeição inclui pratos confeccionados com o ingrediente protagonista da visita. É o caso da quinta Vale Forno, onde a ementa feita por Clara pode incluir pataniscas, feijoada e folhados feitos com caracoletas. Depois, junta sempre uma fruta da época apanhada da horta, uns pastéis de nata, os “licorzinhos” que faz. “A gente tenta dar um bocadinho daquilo que a nossa zona tem”, resume.

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Desta vez, não provamos os petiscos. O almoço está marcado para a segunda quinta que visitamos. Por isso, o menu será integralmente composto por pratos feitos à base de cogumelos shitake: guisados, em folhados, omeletes e risotto. Gabriela Lopes assina o repasto mas é o marido, Manuel, que nos guia pela quinta. Militar de carreira, Manuel sentiu-se demasiado novo “para ir para o sofá” quando chegou à reforma. “Tinha de arranjar qualquer coisa que não houvesse cá” para iniciar um novo projecto e achou “graça a isto”, conta. “Nem gostava de cogumelos.” Mas Manuel é um homem “muito optimista”, sempre de sorriso aberto e com uma energia de bicho-carpinteiro. O que não dava era para ficar quieto. Já plantou figos-lampos no terreno adjacente, fez mesas e cadeirões a partir de troncos – “Se me sentar aqui, fico o rei do cogumelo”, ri-se – e está prestes a terminar a pequena casa que decidiu construir para os turistas que queiram pernoitar em plena horta.

Na estufa, há 150 toneladas de troncos de madeira dispostas em pequenas torres. E é com o peito alto de orgulho que Manuel conta como todos lhe “passaram pelas mãos”. É dali que nascem os cogumelos, depois de “lhes dar um choque térmico” com água fria, na altura em que as “borbulhas” brancas começam a ameaçar romper a casca. Mas primeiro é necessário inocular os troncos com as cavilhas que comprou já impregnadas com o fungo, no único laboratório que ainda as produz em Portugal. Despachado, Manuel já tem tudo pronto sobre a mesa e, sem aviso, saltam pedaços de madeira pelo ar à medida que vai abrindo buracos nos troncos com um berbequim. O processo de inoculação é precisamente o primeiro momento em que os turistas são convidados a “pôr as mãos na massa”, de berbequim em punho. Segue-se, depois, a colheita de alguns cogumelos na estufa – que no final poderão levar para casa. E o almoço.

Enquanto a comida não chega à mesa, Estêvão vai contando como nasceu a ideia de criar a Portugal Farm Experiences. A peça final surgiu através dos turistas que recebia nas unidades de alojamento local que a família abriu há três anos e que tantas vezes lhe perguntavam se “existiam actividades diferentes para fazer fora de Lisboa”. Mas a ligação umbilical à agricultura sempre existiu. Neto e filho de agricultores, Estêvão viveu grande parte da infância no campo – “vim de Paris com nove anos para viver numa quinta em Bugalhos”, a tal aldeia que faz de Clara e Estêvão “vizinhos” -, trabalhou vários anos como engenheiro do ambiente e leva seis como produtor, formador e empresário na área da hidroponia – “criei a marca GroHo, Growing Home, em que levámos um bocadinho o conceito que tínhamos instalado ali na quinta para a cidade e vendemos sistemas verticais de hortas para ter na cozinha ou na varanda”.

Desde sempre que o empresário esteve “ligado à terra”, mas confessa que não era lavoura o que queria para si. “Eu era aquele miúdo que perguntava sempre ao meu pai por que é que estava a ter aquele trabalho todo se podia ir ao supermercado comprar as mesmas coisas”, recorda. “Ele respondia-me sempre: 'Um dia vais dar valor a isto'”. Tantos anos depois, e ainda que “de forma indirecta”, também Estêvão voltou a pôr as mãos na terra. Agora quer levar outros a fazer o mesmo.