Opinião

Maduro, UE e o “anão político”

A União Europeia (UE) demonstrou, uma vez mais – como é habitual dizer-se em relação a esta organização internacional – que é “um gigante económico e um anão político”. Sucede, ademais, que os bons ventos económicos, neste momento – em grande parte fruto da conjuntura macroeconómica internacional, mas também de uma Alemanha que não arranca com a força que se esperava e de uma França atordoada com o “movimento dos gilets jaunes” –, até eles, estão amainados.

A incapacidade de chegar a uma solução razoável em termos de representação da UE na tomada de posse do Presidente da Venezuela é um exemplo paradigmático do “albergue espanhol de interesses” em termos de política externa que sempre foi a União. Nada que impressione, uma vez que estamos a falar de Estados com histórias seculares, fidelidades e mal-estares há muito conhecidos, entre si e com países terceiros. Por mais que os sucessivos tratados tenham procurado melhorar a política externa europeia, até com a criação de uma Alta Representante para a área, o certo é que os Estados-membros ainda não estão em condições político-económicas e diplomáticas de terem uma única voz na cena internacional, se é que alguma vez a terão.

Não estava totalmente seguro do acerto de uma posição conjunta da UE quanto ao sinal político que enviaria para Caracas, tendo em conta que Estados como Portugal, Espanha e Itália têm laços históricos, económicos, de existência de comunidades significativas destas nacionalidades na Venezuela, que importariam acautelar. O facto de ninguém ter, afinal, representado a União é sintoma profundo de desunião. O que me parecia mais plausível, a partir do momento em que se decidiu actuar conjuntamente, seria enviar Federica Mogherini, Alta Representante da UE para a Política Externa e Segurança, com o que se conseguia uma representação condigna e, ainda por cima, da nacionalidade de um dos países que mais de perto tem de gerir a real politik com Caracas.

Que a Venezuela não é um Estado de Direito, que é uma ditadura, que coarcta liberdades fundamentais, que faz o seu povo passar fome, como se tem assistido ao êxodo para os países vizinhos, julgo que só mesmo alguns saudosistas do chavismo podem negar. Também por cá os temos. As ditaduras são sempre más, sejam elas de direita ou de esquerda. Não deixa de ser curioso que a aparente falta de consenso se tenha transformado em “não-solução com aparência de solução”. Ou seja, claramente que os ministros dos negócios estrangeiros da União não se entenderam e acabaram por aceitar que essa inabilidade seria a solução encontrada. Uma espécie de política de facto consumado.

A comunidade luso-venezuelana ficou menos protegida e espero que Maduro não retalie. Não seria a primeira vez. Costa, Santos Silva e José Luís Carneiro têm, em geral, conduzido a nossa política externa com mestria, em boa consonância com Marcelo, como recentemente foi sublinhado em cerimónia pública. Porém, fico com dúvidas se não terá existido alguma candura na crença de que a UE seria capaz de, colectivamente, chegar a uma solução de compromisso que, ao mesmo tempo, demonstrasse a intolerância face a uma ditadura, mas sem apoucar em demasia o ditador que tem a viver no seu país nossos concidadãos. Talvez os políticos portugueses tenham confiado em demasia na capacidade da União do que aquilo que a realidade veio a demonstrar.

Num outro plano – e porque a comparação pode aparecer –, parece-me que estivemos bem no que contende com o Brasil, onde, como venho escrevendo, receio que, na prática, se venha a instaurar uma ditadura de direita. Aí, a realidade era diferente: Bolsonaro só agora vai começar a governar, pelo que é necessário esperar para ver se há uma diferença entre a sua politics in words e in action. As primeiras decisões são desanimadoras, mas não se entenderia que o nosso Presidente não comparecesse no Palácio do Planalto. O que resta ver no futuro é o modo como se comportará Portugal se e na medida em que, de facto, o Brasil se transformar numa ditadura. Fará o que sempre fez, com sucessivos governos, em relação à Angola de José Eduardo dos Santos, engolindo sapos em troca de petrodólares?