Opinião

A revolução conservadora

O que fazer perante esta mescla de reações à globalização económica e cultural dos últimos 30 anos?

Desde 1989 que o Ocidente vive numa ilusão. Deixámos de acreditar em revoluções. As revoluções que haviam pautado a história dos dois séculos anteriores – a Revolução Francesa, a Revolução Russa, a Revolução Chinesa, o Maio de 68, entre tantas outras – passaram a ser vistas como uma coisa do passado. Com a melhoria generalizada do nível de vida das populações e com instituições a funcionar como válvulas de escape para o descontentamento popular, deixámos de acreditar que as revoluções eram possíveis. Ou, como no caso do Egipto em 2011, a revolução era coisa efémera, sem capacidade de mudar a história e guiar o futuro. Desde 2011, porém, que parece cada vez mais claro que estamos a viver uma revolução: uma revolução conservadora.

Como todas as revoluções, também esta revolução fez a história andar mais depressa. Nos últimos dez anos, o mundo mudou mais do que nos 30 anteriores. Do colapso do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008, o 15 de maio de 2011 que marca o início do movimento dos Indignados em Espanha, a eleição do Syriza na Grécia em janeiro de 2015, ao referendo de 23 de junho de 2016 que assinala o início do "Brexit", à eleição presidencial de 8 de novembro de 2016, em que Donald Trump derrota Hillary Clinton, até 1 de janeiro de 2019, o primeiro dia da presidência de Jair Bolsonaro no Brasil, assistimos a uma sucessão vertiginosa de eventos que puseram em questão quase tudo em que acreditávamos desde o final da Guerra Fria.

Como todas as revoluções, também esta tem os seus símbolos. Neste caso, são dois os ícones da revolução. Por um lado, temos a imagem de líderes políticos que povoam o ciberespaço e determinam a agenda político-mediática. Para além do omnipresente Trump, a imagem de novos protagonistas à esquerda e à direita – Tsipras, Pablo Iglesias, Órban, Duterte, Bolsonaro, entre tantos outros – não é apenas a face mais visível das nossas democracias; as suas faces, reproduzidas 24 horas por dia, sete dias por semana, são a expressão acabada do nosso desencanto com a democracia. Paradoxalmente, o outro ícone dos tempos que correm não tem face. É a imagem das massas anónimas de manifestantes enraivecidos, de emigrantes e refugiados desesperados, dos turistas na busca incessante do selfie spot perfeito.

Por fim, como todas as revoluções, também esta revolução representa o ponto crítico de mudanças que se vêm acumulando há décadas. São resultado de mudanças na estrutura das sociedades, sistemas económicos e de governo. Ao contrário da revolução constante de um planeta sobre o seu eixo, as revoluções sociais e políticas assinalam uma descontinuidade: marcam o fim de uma era e o início de uma nova época.

A atual revolução marca o fim da globalização económica e cultural que tem ajudado a mudar o mundo desde o final do século XX. É isto que faz dela uma revolução que não se cinge a um só país ou sequer continente; pelo contrário, é uma revolução à escala planetária. Ao contrário das revoluções modernas que visaram expandir direitos e fomentar uma certa visão de progresso histórico, a revolução em curso é eminentemente conservadora: é, em rigor, uma reação à globalização.

Em parte, é a reação à ideia de que a desigualdade é um dado natural e inevitável. O populismo, com a sua insistência na promessa democrática de igualdade, é uma reação visceral a esta ideia. Alimenta-se dos ressentimentos causados pela crescente desigualdade económica e social, uma desigualdade amplificada mil vezes pela propagação de imagens de riqueza e bem-estar entre todas as camadas da sociedade, em qualquer parte do globo que se esteja.

Uma parte destes ressentimentos são uma reação à desregulação dos mercados de capitais e à crescente flexibilidade no mercado laboral. Donde, a agenda económica protecionista e, por vezes, anti-capitalista de alguns populistas.

Por fim, é a reação ao culto do indivíduo sem raízes que a globalização levou aos quatro cantos do mundo. É uma reação ao cosmopolitismo, ao multiculturalismo e à liberalização dos costumes. É isto que explica o regresso em força de fontes tradicionais de legitimidade como a família, a Igreja e a instituição militar.

O que fazer perante esta mescla de reações à globalização económica e cultural dos últimos 30 anos?

Antes de mais, urge defender o Estado de direito e uma imprensa livre e independente. A melhor forma de se defender a democracia da demagogia e do autoritarismo passa por um sistema judicial forte e independente. É igualmente imprescindível termos uma opinião pública informada capaz de escrutinar quem nos governa. Claro que isto só por si não chega. Ninguém duvida da independência dos tribunais ingleses. Ou do pluralismo da imprensa em Inglaterra. Mas isto não impediu o “Brexit” de acontecer.

Significa isto que não podemos voltar a confiar naquilo que as pessoas dizem? Ou talvez que devemos passar a confiar apenas na voz de peritos? Não. O melhor antídoto à demagogia não é menos democracia, é mais democracia. Se queremos oferecer uma alternativa democrática ao autoritarismo, temos que ouvir as pessoas. Se tantos em tantos países decidiram participar nesta revolução por alguma razão foi. Se queremos responder aos problemas sérios e profundos que esta globalização provocou, temos que ouvir os descontentes da globalização. E levar muito a sério as suas preocupações e anseios.

Por fim, há que desconstruir a retórica conservadora. Não devemos acreditar em tudo o que os novos líderes nos dizem. Por mais que estes se esforcem por nos convencer que o mundo que querem derrubar é dominado por interesses ocultos e fake news, e de que eles são os arautos de um novo tempo, virtuoso e incorruptível, vale a pena pensar duas vezes no que nos dizem. Se é indiscutível que a globalização trouxe consigo problemas e desestabilizou formas de vida, não é menos verdade que foi uma época em que centenas de milhões saíram da pobreza. Fizeram-se progressos espantosos no combate a doenças como o cancro. Nunca antes se avançou tanto no combate à discriminação de género. Ou no combate ao racismo. Esquecer estes e tantos outros progressos, tantas vezes em resultado de certezas ideológicas demasiado confortáveis, é um erro perigoso: significa cair no mesmíssimo discurso maniqueísta a que os novos líderes recorrem tantas vezes.

Vivemos num tempo de grandes mudanças. A revolução conservadora está a mudar muitas das coisas que nos habituámos a tomar por certas. Algumas destas coisas estavam erradas e já é tempo de as mudar. Mas outras há que nos custaram muito a conquistar. Perdê-las seria um retrocesso civilizacional irreparável. Saber distinguir entre uma coisa e outra é, provavelmente, o maior desafio do nosso tempo.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico