Político da AfD sai para criar partido ainda mais à direita

Partido reúne-se em congresso para debater se vai pedir a saída da Alemanha da UE na campanha das eleições europeias.

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Jörg Meuthen, candidato a cabeça de lista às europeias, e Alexander Gauland, co-líder da AfD FILIP SINGER/EPA

A semana foi de altos e baixos para o partido de direita radical Alternativa para a Alemanha, que no fim-de-semana se reúne em congresso para discutir programa e candidatos para as eleições europeias: o partido fez uma descrição exagerada de um ataque a um político, e perdeu um dos seus membros, que prometeu fundar um partido “à direita” da AfD.

No congresso, que decorre em Riesa, perto de Dresden (Saxónia), o partido deverá decidir se pede ou não a saída da Alemanha da União Europeia.

A saída de André Poggenburg não é a primeira desde que a AfD pela primeira vez entrar no Parlamento nacional (Bundestag) nas eleições de Setembro de 2017: Frauke Petry, que era uma das líderes, demitiu-se logo no dia seguinte às eleições. No caso de Petry, a saída aconteceu por considerar o partido demasiado radical (vinha a defender a expulsão de deputados contra a "memória do Holocausto", por exemplo).

Já André Poggenburg vê a AfD demasiado preocupada com os limites legais às suas afirmações políticas, que se ultrapassados levariam a que fosse sujeita a vigilância por ser de extrema-direita (ou seja, por constituir um potencial perigo para as bases da democracia alemã expressas na Constituição).

Poggenburg, que liderava o partido na Saxónia-Anhalt, estado da antiga RDA, adiantou ao diário Die Welt que o seu novo partido se chamará Revolta dos Patriotas Alemães. O diário britânico The Guardian aponta que tem no logotipo um símbolo dos nazis austríacos do início da década de 1930.

O político declarou ainda que o novo partido não irá concorrer contra a AfD, mas sim complementá-la, ocupando um espaço à sua direita. 

Dois outros membros da AfD anunciaram que acompanham Poggenburg na saída, numa altura em que a emissora pública ARD diz que o partido tem “um problema político de luxo”: tem muito poucas pessoas para preencher os lugares de eurodeputados que espera ganhar nas eleições europeias.

A AfD, que nasceu mesmo na véspera das eleições legislativas de 2013 como um partido anti-euro (ou anti-resgates do euro), transformou-se num partido anti-imigração em 2015 e conseguiu desde então ter deputados em todos os parlamentos de estados federados e ainda 91 deputados no Bundestag.

Uma das discussões no congresso partidário será se o programa para as eleições terá como mote um regresso à ideia da “Europa das Nações” (como defende o candidato a cabeça de lista, Jörg Meuthen) ou por outro lado se pedirá a saída da Alemanha da União Europeia.

Sem barrote de madeira

Mas o dia do início do encontro foi marcado pela divulgação, pela polícia, de um vídeo de um ataque a um deputado do partido, e as imagens mostram uma versão bastante diferente da descrição oficial da AfD.

A agressão ao deputado Frank Magnitz, na segunda-feira, foi descrita pelo líder do partido, Alexander Gauland, como fruto “do ódio e da cobertura mediática” contra a AfD.

Segundo a descrição de vários responsáveis do partido, o deputado teria sido atingido com um barrote de madeira, que depois de caído no chão, inconsciente, teria sido repetidamente pontapeado pelos agressores, e mais, teria sido salvo pela intervenção de dois trabalhadores perto.

A polícia, que inicialmente mencionou uma provável motivação política do ataque que o deixou com uma ferida na cabeça com muito sangue, veio dizer no dia seguinte que havia dúvidas sobre a versão do partido: não havia provas do uso de qualquer objecto na agressão.

Jörg Meuthen repetiu a versão do partido e apelou à divulgação do vídeo, para "pôr fim a todas as especulações".

E esta sexta-feira, a polícia divulgou as imagens do ataque – que mostram como três homens seguem atrás do político, que tem as mãos nos bolsos do casaco. A dada altura um atinge-o violentamente, deixando-o caído, e os três fogem. Não há objecto de madeira, nem pontapés, nem ajuda de transeuntes a interromper o ataque.

O vídeo foi divulgado com pedido de informação sobre os três, especialmente sobre o agressor, e uma recompensa de 3000 euros a quem der esta informação sobre o grupo, o que permitiria finalmente responder à questão sobre o motivo do ataque.