Bisonte, que se estreia esta sexta e sábado no Teatro Campo Alegre, no pontapé de saída da programação de 2019 do Teatro Municipal do Porto, é um espectáculo “muito autobiográfico” paulo pimenta

Marco da Silva Ferreira num ringue de melancolia e histeria

Durante o último ano e meio, Marco da Silva Ferreira atirou-se à “disparidade e violência das emoções”. Daí nasceu Bisonte, a nova criação que traz uma dimensão dramatúrgica ao trabalho do bailarino e coreógrafo. Mas sem esquecer o corpo. Para ver no Teatro Campo Alegre esta sexta e sábado, e em Abril no São Luiz.

Bisonte é muito o último ano e meio de Marco da Silva Ferreira. É muito um campo de batalha de emoções “díspares”, um jogo esquizofrénico (ou isto é só a vida a acontecer) de “amor e desamor, melancolia, alegria, adrenalina que depois é histeria e histeria que depois é quase uma coisa maligna, que cria ansiedade”. Bisonte, a nova criação do bailarino e coreógrafo portuense que se estreia esta sexta e sábado no Teatro Campo Alegre, no pontapé de saída da programação de 2019 do Teatro Municipal do Porto, é um espectáculo “muito autobiográfico”.

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“Nesta peça quis focar-me na pessoa. E para me focar na pessoa que eu estava a ser há um ano e meio, quando comecei a trabalhar nesta criação, tinha de ir para um sítio de alta tristeza e de alta histeria”, assinala o coreógrafo. O início de Bisonte não diz tudo, mas quase. É Marco da Silva Ferreira a capella, um corpo a ranger de tensão, uma melancolia arfante, uma intensidade latejante. Podíamos ficar ali mais tempo, só que não – entra a batida da canção Ima Read, de Zebra Katz, que “faz nutrir toda a peça”, como se fosse um batimento cardíaco, e Marco junta-se ao grupo de bailarinas e bailarinos que o acompanham (Anaísa Lopes, André Cabral, Duarte Valadares, Eríca Santos e Leo) para uma coreografia pontilhista, maquinal e contida, que pouco depois se desprende, fervilhante e transbordante. Marco fala numa “revolução brasileira”. “Achei que depois de aquela contenção toda, aquela frustração de querer rasgar, só podia ir para um sítio histérico, e quando estávamos a criar havia toda esta questão do Brasil, do Bolsonaro, a relação entre arte, corpo e humanismo. Fui seduzido por isso. Aí pensei: ‘por que não pegar nesta bateria que tenho em cena e ir para uma batida quase de samba?’”

Em Hu(r)mano (2014), a primeira criação oficial de Marco da Silva Ferreira – que o lançou com toda a força no circuito nacional e internacional de dança contemporânea, depois de vários anos nas danças urbanas –, já havia uma dança de colisão entre a audácia rítmica e a contenção, um quente e frio. Em Bisonte leva isso mais longe, de uma outra maneira. “Aqui há picos. E há muitos volte-face: a peça está sempre a fugir, com muitas mudanças de caminho. Interessava-me mesmo trabalhar a disparidade e a violência das emoções”, nota o coreógrafo. Não lhe apetecia fazer “outro Hu(r)mano”, uma peça “muito direitinha, muito regra e esquadro, com traços artísticos carregados” – no trabalho que se seguiu, Brother (2017), quis fazer uma espécie de “reset” a “tudo isso”, debruçando-se mais na energia do que na técnica ou na plasticidade do corpo.

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Apesar das diferenças, tanto Hu(r)mano como Brother contaminam esta nova criação. O primeiro pela “precisão coreográfica”, o segundo “pela expressão e emotividade”. “De alguma forma, existe uma continuidade”, conclui. Até porque Brother e Bisonte germinaram a partir daquilo que sobrou dos trabalhos que os antecederam. “Do Hu(r)mano houve um resquício qualquer que quis desenvolver e surgiu o Brother, do Brother houve outro resquício qualquer que quis desenvolver no Bisonte. Quando acabei o Brother, havia um universo que tive de eliminar e fiquei com vontade de trabalhá-lo. Tinha muito a ver com fugir do colectivo.” No processo de criação de Bisonte, o foco já não era tanto “construir uma coreografia para a massa”, mas sim investir num trabalho mais personalizado, “de um para dois, de dois para um” – e enquanto Brother vive muito de uma dinâmica de grupo e de uma energia empática, neste espectáculo há várias coreografias em pares, vários planos que se vão desenhando em cena, e individualidades que emergem.

Romper com o género

Em Bisonte questiona-se e baralha-se os papéis e as expressões de género socialmente atribuídos a homens e a mulheres. No início da peça, “os três bailarinos têm imagens muito clássicas de homem e as três bailarinas têm imagens muito andróginas de mulher”. Há, inclusive, uma emulação da estatuária greco-romana em determinadas posições e posturas, tanto neles como nelas, sublinhando-se um tipo de masculinidade dominante. À medida que o espectáculo avança, “o género vai-se diluindo”. “O facto de se diluir é um manifesto”, destaca o coreógrafo. “Numa secção mais à frente da peça, fazemos uma espécie de danças de salão. As danças de salão têm papéis de género muito definidos, e eu quis evocar isso mesmo para poder criar uma fricção: pôr toda a gente a liderar, pôr trios, pôr o que eu quisesse. É aquilo que eu defendo e aquilo em que eu acredito.”

A par do género, interessava a Marco questionar-se sobre as relações de poder e a intimidade. “Há uma espécie de tomada de consciência sobre o que damos de nós quando nos relacionamos de forma íntima. Ao vestir estas armaduras do virtuosismo, do poderio, da exuberância – as figuras aqui criadas são como pavões –, pensar sobre o que estamos a disfarçar e o que não nos permite ir tão longe nas relações.” Bisonte é muito sobre “os artefactos de que nos munimos nas relações íntimas e a procura delas.” E isso vai-se aprofundando durante o espectáculo, nas relações de um para um, no toque, no olhar.

A figura do pavão é referida recorrentemente pelo coreógrafo, mas é outro animal, aquele que dá título à peça, que serve de metáfora para o trabalho. “Os bisontes são monstruosos, robustos, emanam uma sensação de força bruta, mas na verdade são herbívoros, são mais presas do que predadores, são inofensivos. Havia aqui qualquer coisa de se aparentar algo que não se é, ou que na realidade é mais sensível.” Não que os intérpretes sejam os bisontes, aponta Marco – o bisonte é um estado. “É um ringue entre a melancolia e a histeria.” E aqui também entra em jogo o desprogramar de certas características das danças urbanas, que são o background de Marco da Silva Ferreira, e onde há uma híper-masculinização dos corpos. “O trabalho em danças urbanas é feito para battles, portanto exacerba virilidade. O sensível, o vulnerável e o frágil não têm lugar, seja no homem ou na mulher”, refere o coreógrafo. “E a vulnerabilidade, a beleza das finas emoções, não são coisas humanas? Socialmente associam-se à mulher, mas são sem género.”

Apesar de os vocabulários das danças urbanas estarem inscritos no corpo de Marco, e de isso transpirar necessariamente para as suas criações, a presença desse universo é já residual, considera o coreógrafo. Para ele, faz mais sentido falar de uma cultura urbana pós-pop. “Agora, na mesma cidade, e mesmo no movimento hip-hop, tens simultaneamente o bruto, o queer, o bling-bling, a emotividade. Já se mistura tudo e eu acho óptimo, é esse contaminar que eu procuro também no meu trabalho.” Nesse sentido, o músico e performer Arca, que actuou no festival Primavera Sound do ano passado, é uma referência “enorme”. “Tem melancolia e histeria, e aquela brutalidade no mostrar do frágil e do desengonçado.” As emoções, outra vez – e também são elas que trazem uma dimensão dramatúrgica a Bisonte, pouco evidente nos trabalhos anteriores. “Nesta peça há muito mais uma dramaturgia, sim. O pico das cenas e o que deixam passar para as seguintes.” A palavra dita e cantada é usada pela primeira vez, as vozes ganham espaço. Ainda assim, Marco não pensou menos no corpo – até porque com Bisonte “há uma tentativa de sedimentação de uma fisicalidade, de um corpo, que vem das outras peças.” E continua a ser uma dança desempoeirada, para a frente, profundamente conectada ao presente.

Tal como aconteceu com Hu(r)mano e com Brother, esta nova criação já deixou as suas sobras. “Deixei várias coisas de fora e tenho-me questionado muito sobre a próxima [peça]”, diz o coreógrafo. Bisonte ainda tem muito para andar: em Março chega a Bruxelas, nos dias 5 e 6 de Abril a Lisboa, ao Teatro São Luiz, um dos co-produtores do espectáculo em conjunto com o Teatro Municipal do Porto (de quem Marco é artista associado até ao final desta temporada), o Théâtre de la Ville e o Charleroi Dance, e em 2020 passará por Paris. Mas Marco da Silva Ferreira já sabe que “fechou um ciclo”. “Estes corpos são sobrecarregados, a cena é cheia, há muito ritmo, e acho que há aí qualquer coisa que poderá mudar. No entanto, eu gosto deste fervor.”