No espaço, não se descortina qualquer presença humana, apenas, aqui e ali, cães adormecidos na cidade deserta que o sol começa a velar

A melancolia de Catarina Botelho na cidade

Livro de fotografias que, entre a ficção e o diário, leva o leitor a uma experiência silenciosa dos espaços e dos corpos, À Sombra do Sol assinala um dos tópicos que tem caracterizado a produção de Catarina Botelho: a experiência vivida e reflectida, poética, desse lugar a que chamamos cidade.

Um passeio por ruas, esquinas, pátios, junto a paredes e à volta de edifícios feitos de tijolo e cimento, indefinidos, como se inacabados. No espaço, não se descortina qualquer presença humana, apenas, aqui e ali, cães adormecidos na cidade deserta que o sol começa a velar. O sujeito deste passeio é tanto o leitor de À Sombra do Sol, livro de fotografia – o primeiro de Catarina Botelho (Lisboa, 1981) – como a própria artista. O primeiro é conduzido pela segunda, mas ambos realizam, ainda que de modos distintos, um encontro com a cidade e a experiência do tempo que ela proporciona.

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Na produção de À Sombra do Sol, a poesia de Ruy Belo (1933-1978) foi uma inspiração para Catarina Botelho ENRIC VIVES-RUBIO

Editado em conjunto pela Ghost e a Stet, À Sombra do Sol, afirma uma abordagem inédita na produção da artista. Tem um lado diarístico e, ao mesmo tempo, apresenta-se como uma ficção. Há fotografias que se espreguiçam por duas páginas, fotografias de menores dimensões sozinhas no branco do papel e páginas duplas sem qualquer imagem, apenas com palavras que a artista escreveu enquanto deambulava pelas ruas da cidade. Fotografia e palavras, portanto, constroem para o leitor uma ficção incrustada numa experiência no espaço e no tempo. Não é a primeira vez que Catarina Botelho explora as palavras – já o havia feito noutras ocasiões, por exemplo, na série Entre as Nós e as Palavras, citando Mário Cesariny e recorde-se que no filme Notas de Campo (2017) explorava a oralidade de depoimentos – mas em À Sombra do Sol o texto (escrito) tem uma importância incontornável, decisiva. “É paralelo à imagem, traz outros elementos, uma reflexão interna, um pensamento”, diz. “Gostava que as pessoas pudessem ler o texto, que tivessem um espaço mental para o receber, para reflectir sobre aquelas palavras, sem as imagens ao lado.  Foi uma opção muita clara: permitir que quando estamos a ler o texto, não haja outra informação. As pessoas podem ter a liberdade de passar essas páginas, mas devem estar conscientes desse gesto porque o que está a ser sugestionado é outro tipo de relação”. As palavras, frisa Catarina Botelho, permitiram-lhe criar um tipo de relação que a fotografia por si não permite. “Partilhar pensamentos, reflexões sobre o que o leitor vai vendo. Sem elas, teríamos o lugar, o ambiente, mas não teríamos acesso às reflexões sobre quem percorre o espaço”.

Na produção de À Sombra do Sol, a poesia de Ruy Belo (1933-1978) foi uma inspiração para Catarina Botelho. O título foi apropriado de um verso de Tu estás aqui e num texto encontramos outra citação discreta do mesmo poema. “Andava a ler muito [o poeta] e julgo que nesse poema há ecos dos textos que fui escrevendo. Há uma personagem no espaço, um encontro num lugar que não se reconhece, onde somos estranhos”. Que lugar é esse? De onde vêm aquelas ruas, as paredes ocres, amarelas, brancas, com as suas marcas, a calçada terrosa, as construções de cimento ainda fresco? E os cães que descansam na sombra, deitados sobre o pavimento, camuflando-se com as cores que, das paredes, os envolvem?

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À Sombra do Sol, livro de fotografia de Catarina Botelho,é um encontro com a cidade e a experiência do tempo que ela proporciona

Um livro silencioso

Catarina Botelho prefere não dizer o nome da cidade, mantendo assim o mistério à volta da sua identificação. “Não pretendi fazer o retrato de um lugar, mas construir uma ficção, a partir de um encontro com um espaço urbano que não conhecia. Quis lidar com a sensação de fechamento que temos nas cidades quando não lhes pertencemos, com a experiência de solidão quando percorremos uma cidade que não é a nossa, mesmo que possa ser a cidade onde vivemos. Aqui, e talvez em muitos dos meus trabalhos, há uma coisa paradoxal. Uma atração e um desconforto”. Pensa-se, diante de algumas imagens, no cinema de Michelangelo Antonioni. “Sim, no sentido em que o espaço reflecte um vazio interior, um certo mal-estar das personagens. A ideia de que não encaixamos ali. Não há ninguém, apenas uma espécie de vazio. Mas insisto na ideia de atracção. Uma atracção por um tempo improdutivo, no melhor sentido da palavra”. O tempo improdutivo que as imagens captam é o da experiência de uma languidez tépida, de um não fazer, uma suspensão. “Não capitalista e que temos dificuldade de associar à cidade neo-liberal”, comenta, “ao nosso presente, ao nosso espaço urbano, que é o do trabalho e do consumo. O tempo improdutivo, esse tempo arrastado não tem lugar nessa cidade. O livro, nesse sentido, chega a ser algo melancólico”.

Melancólico e silencioso. Há uma limpeza visual nas páginas, não se vêem vestígios de publicidade ou de outras distracções, cada imagem corresponde a um momento, propõe um encontro autónomo com o leitor. A única acção deixada nas fotografias é a da pessoa que vai passeando pelos espaços e vai tirando apontamentos com a fotografia e a escrita. Num dos textos, Catarina Botelho evoca Lisboa, a cidade em que cresceu nos anos 90 e em cujas ruas, nos fins-de-semana, diz, não se via ninguém. Passe-se a citá-lo: “As ruas por onde passo fazem-me pensar/ nos bairros que percorria na minha adolescência/pergunto-me se pelas semelhanças que encontro nas arquitecturas/se pela solidão que me atravessa hoje, como naqueles anos”.  Terá esse sentimento de melancolia a ver com as recordações de uma cidade ainda não totalmente dominada pelo capitalismo, pela produtividade? “Tem a ver com esse encontro com uma cidade onde, exactamente, há a dificuldade do encontro”, esclarece a artista. “Um lugar onde não há gente, onde encontro com o outro parece impossível. Aí, talvez haja um paralelo com essa Lisboa onde passei a minha adolescência. Uma cidade sem gente na rua, onde as pessoas tinham retrocedido para o espaço privado. Mas essa cidade não é a oposta da cidade capitalista ou mercantilizada que hoje é claramente o que temos. Existem outras múltiplas possibilidades de fazer cidade, de viver a cidade. Infelizmente e simplificando, em Lisboa parece que passámos de uma cidade silenciosa para uma cidade mercantilizada e turistificada, onde o espaço para outro tipo de construção colectiva é dificultado. E isso foi, está a ser, algo brutal.”.

Corpos nos espaços

A relação com a cidade é um dos tópicos que a artista tem vindo explorar (recorde-se as séries Inventário, Memória Descritiva ou Zona de Ordenação Aberta), mas em À Sombra do Sol a cidade, não nomeada é, também, um espaço para puras presenças, corpos no espaço, sejam animais, objectos, uma planta arbustiva. “Dividi as imagens em dois grupos”, revela. “Por um lado, há as imagens de espaços, são as de maiores dimensões, de exteriores, ligadas ao chão, à terra. Por outro, há imagens que se passeiam, que se vão passeando na folha, como se esta fosse uma espécie de território, como se o encontro com essas imagens fosse um encontro no espaço. Essas imagens são as dos corpos, as dos animais, sobretudo. Era uma divisão que tinha muita clara desde o início”. Na sua sequência quase sempre horizontal, o livro inventa uma cidade cujas duas imagens finais parecem sugerir um ponto de fuga. A primeira é a de uma planta que parece irromper pela rua, a segunda deixa ver uma sombra sobre um cão que descansa: “O livro tem um tom melancólico, mas não queria que fosse um livro triste, que terminasse de uma forma desesperançada. Essa folhagem aparece como elemento que nos fala dessa resistência no cimento, em direcção um exterior, para fora dos espaços fechados. Quanto à sombra, senti a necessidade de introduzir a personagem que no livro vai contando coisas”.

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Tem um lado diarístico e, ao mesmo tempo, apresenta-se como uma ficção

Passaram quatro anos desde que Cataria Botelho fez estas fotografias. A ideia de fazer um livro surgiu de imediato, mas, entretanto, foram surgindo outros projectos, outras exposições e  À Sombra do Sol foi ficando na gaveta, até que, recentemente, com o apoio da designer Ana Luiz Braga, se concretizou, finalmente, num objecto.  “É um trabalho que hoje não faria assim”, observa retrospectivamente a artista: “Já não fotografaria desta maneira, escreveria outras coisas. Mas identifico-me com o trabalho, tem a muito ver com esse momento que estava a viver, com experiência do espaço”. Se alguma coisa terá mudado na abordagem de Catarina Botelho, há algo que permanece sempre que fotografa. A propósito, transcreva-se um excerto de outro texto da sua autoria e publicado no livro: "mas a presença destes sólidos blocos conforta-me/nos seus corpos de tijolo e cimento, encontro-me/ como quando, ao andar por uma casa, casualmente/ vislumbramos a nossa imagem num espelho e temos a certeza que existimos". Não haverá nesta passagem uma ideia de reconhecimento do próprio lugar, a ideia de uma certa objectividade familiar que permite ou assegura a certeza da nossa presença? “Tem muito a ver com o acto de fotografar, que é, muitas vezes. o acto de reconhecer a presença de alguma coisa”, responde. “Há um encontro, um reconhecimento de qualquer coisa e depois situo o corpo de forma relacionar-me com ele e fotografar. Sim, é um processo de reconhecimento, de familiaridade com aquele corpo. Acho que tem a ver com isso. Uma pessoa vai percorrendo o espaço e há um momento em que diz encontrei! E neste caso, com os edifícios, há uma solidez, que me cria limites, que me dá uma certa segurança”. Pela cidade, à sombra do sol.