Crítica

Richard Zimler: uma prece de perdão

No seu último romance, Richard Zimler volta à família Zarco, por ele criada em O Último Cabalista de Lisboa, para contar uma história de dizimação. Em Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco pergunta como viver depois do Holocausto e o que significa carregar essa herança.

Richard Zimler volta a muitos dos seus temas: a violência, a solidão, o medo, o amor, o poder da linguagem
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Richard Zimler volta a muitos dos seus temas: a violência, a solidão, o medo, o amor, o poder da linguagem NELSON GARRIDO

Em 1947, um jovem americano regressado da tropa não sabe como lidar com os seus demónios de guerra. Viu o que não era suposto ter visto: a libertação de um campo de concentração nazi. “Quem quereria ser o mesmo depois de abrir valas comuns para mil judeus e ciganos que o mundo abandonara?” Sabia que ele “mudara para sempre”. Não sabia, no entanto, como continuar. Até à leitura de uma frase, no conto Flavia e os Seus Artistas, de Willa Cather: “Rindo, Flavia incitou os póneis a avançar, e a mulher colossal, no meio da estrada poirenta, tirou o chapéu de aba larga e fez-lhe um aceno de despedida que, na largueza do gesto, lembrava a saudação de um cavaleiro emplumado.” Construiu uma imagem à volta dela e desenhou-a na parece do quarto junto de outras imagens com que vivia, sobretudo em sonhos. Mas aquela seria uma espécie de chave.

O jovem chama-se George, é meio judeu meio navajo, e será central na vida dos dois únicos sobreviventes de uma família eliminada no Holocausto: Shelley e Benjamin, ou Benni. Com os três, formula-se a grande pergunta que atravessa Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco, o mais recente romance de Richard Zimler (Nova Iorque, 1956): que culpa carregam os que se salvam?

É o quinto livro do que se pode chamar o ciclo sefardita de Zimler. Nele, o escritor retoma a saga da família Zarco — judeus sefardiatas tornados cristãos-novos, iluministas e místicos —, por ele criada em O Último Cabalista de Lisboa, o seu livro de estreia em 1986, e também primeiro best-seller, onde narra o massacre dos judeus em Portugal no ano de 1506. Nos anos seguintes, os Zarco aparecem em mais três romances: Meia Noite ou o Princípio do Mundo (2003), Goa ou o Guardião da Aurora (2005) e A Sétima Porta (2008). Dez anos depois, em 2018, o escritor retoma os Zarco num livro contado a várias vozes, a primeira delas, a de Eti, o filho de Benni, que no nosso presente histórico tenta ler o passado nos silêncios do pai.

“Não me admirava nada que todos os sobreviventes tivessem aprendido a manter os filhos e as filhas à distância com um sorriso como o do meu pai”, lê-se, logo no início, quando esse sorriso ainda esconde quase tudo o que o leitor também não sabe, partilhando a mesma ignorância de Eti, excepto a informação que lhe permite — a Eti — construir algumas hipóteses sobre a existência do pai e da sua família no seu passado polaco. “Terá o meu pai aprendido a escudar-se atrás de um sorriso no dia em que entrou no gueto, em novembro de 1940, ou só quando os pais dele foram metidos à força num transporte para Treblinka, um ano e nove meses depois? Nunca perguntei; aprendi a não o reconduzir ao apartamento acanhado e quase sem luz, num rés do chão do gueto, onde vivia com o pai e a mãe.”

Dividida em seis partes, cada uma com um narrador — Eti, Julie, mulher de Sheley, Ewa, a professora de piano, Teresa, mulher de Benni, George e outra vez Eti —, a acção deste livro está centrada entre 1944 — ano em que Benni chega a uma quinta no campo polaco enrolado num tapete, com um manuscrito do século XVI junto ao peito e é acolhido por uma professora de piano — e 2018, o ano em que Eti, o seu filho, terá acesso ao conteúdo do manuscrito que Benni nunca foi capaz de ler e contém um sentido — os “fios incandescentes” de que lhe falava o pai, leitor voraz da cabala — ou razão pela qual uns se salvam. 

Recorrendo a uma linguagem poética e uma desenvoltura narrativa que já vem dos livros anteriores, Richard Zimler volta a muitos dos seus grandes temas literários: o absurdo da violência, a solidão, o medo, o amor, o poder da linguagem, num enredo — este — onde o misticismo joga um papel determinante. Através do inconsciente e dos sinais que ele envia; de como o passado emite sinais no presente; dos sonhos e como eles falam sobre o real (“não importa muito com que vivemos neste mundo, mas importa imenso com que sonhamos”, outra vez Willa Cather); do poder da linguagem e a sua função não apenas enquanto elemento identitário, mas também condição de condenação ou castigo. Há ainda o questionar sobre a circularidade da História e a (im)possibilidade de repetição de exemplos — ou do erro maior, o Holocausto nazi, e as suas réplicas. Se o Holocausto existiu todas as possibilidades são de admitir, parece dizer Zimler com este livro, e esmagar com esse argumento quem duvidar do papel da improbabilidade na História e nas histórias individuais. Na sua literatura, há sempre o mal e a hipótese — tortuosa, sofrida — de redenção. Por exemplo, a recusa de pactuar com o erro histórico, como Ewa ou como George: “Arrependo-me de tudo o que não fiz, de tudo o que não disse, e de tudo o que ninguém fez ou disse...”

Os Dez Espelhos de Benjamin Zarco é um mea-culpa não religioso, espécie de prece secular, um assumir de responsabilidade que Zimler quer transferir para este presente de forma assumida através de referências às ameaças actuais, numa teia construída de forma exímia, onde a urgência de beliscar as consciências deste tempo é manifesta — e talvez pudesse ser um pouco mais trabalhada, não sendo necessário, por exemplo, a referência a nomes como os de Trump ou Putin para que se entendessem palavras como estas: “Para te dizer a verdade, miúdo, já nem sei o que quer dizer ‘loucura’. Ultimamente, tantas palavras se despiram do seu significado. Mesmo quando digo parvoíces de mim para comigo em iídiche, paro e penso: ‘Aquela palavra costumava ser importante, redonda e importante, agora é só... só uma coisinha de nada, microscópica, e não faço a menor ideia do que raio ela significa.” É Benni no presente, ao filho, pouco antes da sua morte.