Crítica

Um clássico da literatura africana pós-colonial

Os Intérpretes é um olhar desapiedado e desiludido para os primeiros anos de uma nação.

A escrita de Wole Soyinka é muito telúrica, uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos mais descritivos
Foto
A escrita de Wole Soyinka é muito telúrica, uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos mais descritivos

O nigeriano Wole Soyinka (n. 1934) foi o primeiro escritor africano a receber o Nobel, em 1986. Considerado o mestre da dramaturgia africana, para além de poeta e reconhecido ensaísta, escreveu ainda dois livros de memórias — É Melhor Partires de Madrugada (Pedra da Lua, 2008) está traduzido para português — e dois romances, entre os quais este Os Intérpretes, que foi originalmente publicado em 1965. Mas para se enquadrar melhor este livro, convém recuar alguns anos.

Em 1958, outro escritor nigeriano, Chinua Achebe (1930-2013), publicou aquele que é considerado o livro seminal da literatura africana pós-colonial, Quando Tudo Se Desmorona. Escrito a partir de dentro, leva o leitor para uma nova realidade cultural e histórica, em oposição aos romances em que o olhar está do lado de fora, em que esse olhar é “estrangeiro”. Por várias vezes (Achebe escreveu mesmo um ensaio para o demonstrar) ele apelidou de racista o famoso livro de Joseph Conrad, O Coração das Trevas, exactamente por causa dessa maneira de olhar etnocêntrica, ignorante da cultura africana, arrogante e exterior ao continente. Chinua Achebe tomou então as regras canónicas da forma do romance, as convenções clássicas do género, e acrescentou-lhe a estética da tradição oral africana. Não subverte a linguagem nem cai no facilitismo de lhe inventar efeitos “folclóricos” (escreve num inglês perfeito; conta histórias na língua dos colonos para que os seus livros possam ser lidos em todo o continente, é assim que se justifica quando é disso acusado). Esta nova maneira de olhar para África, fez escola na literatura africana e teve em Wole Soyinka um dos seus adeptos que, no entanto, vai ainda mais longe do que Achebe transgredindo estruturas narrativas mais comuns e, por vezes, fazendo uma tentativa de “descolonizar a linguagem”, como alguém notou referindo-se a um personagem que fala uma mistura de inglês e de línguas nativas.

Em Os Intérpretes conta-se a história de cinco homens jovens no período pós-independência (a Nigéria tornou-se independente em 1960). Tendo sido colegas no ensino secundário, foram depois estudar no estrangeiro e regressaram. Têm profissões da classe média culta nigeriana: funcionário do Ministério de Relações Exteriores, jornalista, engenheiro, professor universitário, e artista; nota-se o esforço de Soyinka em não fazer deles estereótipos do que quer seja, pois dá-lhes por vezes dimensões inesperadas e contraditórias. A narrativa pode parecer algo caótica, com constantes analepses — mas que cumprem uma função: contar uma outra história paralela (esta feita de breves acontecimentos distantes no tempo), que é a vida passada daqueles homens.

O romance surge, desde as primeiras páginas, como uma crítica ao estado pós-colonial, pois o olhar de Soyinka (também aqui um pouco à maneira do que Achebe fez, por exemplo em Um Homem Popular), não apenas sobre a classe política, mas também sobre os povos africanos, é desapiedado, e torna-se na narrativa de uma certa desilusão. “Estamos demasiado ocupados, embora nunca tenha descoberto a fazer o quê. É isso que constantemente pergunto a mim próprio — a fazer o quê? Além de amparar os arautos do futuro, escravos nos seus corações e, na realidade, vozes lamentosas, afinal que fizemos nós?” E ainda antes diz o narrador: “Ele sabia que isto estava a ser destruído por homens sem valor e de mau carácter, que se envaideciam por motivos fúteis.” Nesta sua crítica, parece haver o desejo do autor de mostrar as contradições internas da nova nação nigeriana.

Wole Soyinka, com este livro, vai mais longe do que Chinua Achebe ao fazer uma ruptura narrativa com o modelo “estabelecido” poucos anos antes por este último. A Nigéria surge aqui como uma espécie de conversa polifónica de ideologias, com a função de servir de base para a regeneração social: o país como um projecto interpretativo dos seus participantes. Refira-se ainda, e na esfera pessoal do autor, o seu longo activismo social e político: escapou à fúria de vários ditadores, chegando a estar preso, e mais tarde serviu de mediador em encontros secretos entre Mandela e o líder zulu Buthelezi.

A escrita de Wole Soyinka (muito à semelhança da de Achebe), elegante e luminosa, é muito telúrica, característica que empresta às narrativas que precedem os longos diálogos — ou não fosse ele um exímio dramaturgo — uma vertente poética que prende o leitor mesmo nos momentos mais descritivos. “Em Julho, as chuvas de Maio tornam-se o sangue que brota das artérias rasgadas de um touro sacrificial, um milhão de golpes sangrando do negro touro escondido algures nos céus, entre nuvens corcovadas, convulsivas, super-alimentado para este acontecimento único, nutrindo-se a pastar sem concorrência nas intermináveis cristas do horizonte.”

Os Intérpretes, umas vezes num registo mais perto da oralidade tradicional dos contadores de histórias outras quase declamatório, tornou-se um clássico da literatura africana, e quase um modelo narrativo (apesar da sua dificuldade estrutural) para as gerações seguintes.