Opinião

Vida difícil

Se o sucesso da "geringonça" esteve na acalmia social, a densificação de greves gera o contrário: mais "geringonça" já não garante paz social.

As greves que assolam o País, sobretudo as do setor público, merecem reflexão. São confluentes no calendário, eficazes nos prejuízos, assentam em razões fundadas, mas tornam-se crescentemente impopulares.

A concentração de greves após a reversão das malfeitorias da crise revela voracidade de passar além da recuperação, como se, alisada a depressão, o crescimento fosse mecanicamente ascendente. A escolha do final da legislatura não é mera coincidência, tem a ver com as eleições próximas. Foi pensada para evitar declínios de fidelidades antigas, mas não acrescenta eleitores, antes os afugenta, pondo em risco "geringonças" presentes e futuras.

São eficazes nos prejuízos. O povo confia ainda nos transportes públicos, na escola pública, no SNS. Se mora longe, pensa mais em comprar carro que nos horários, frequência e conforto de comboios e autocarros. Disponível para sacrifícios, será para educar os filhos em escolas onde não haja greves, ou recorrer a hospitais privados onde é bem acolhido e onde julga ser mais bem assistido. Muitos rejubilam com a infrequência dos comboios, as greves de professores que apoiam de forma entusiástica e o crescimento das listas de espera ou a asfixia das urgências. O povo que não faz greves, esse tem dificuldade em compreender que o esforço financeiro com que pagou crise e desmandos associados possa ser malbaratado agora, na voracidade de um almoço buffet servido com comida a menos, para gente a mais.

Quase sempre as greves têm causa justa: os enfermeiros estavam há décadas sem diferenciação remuneratória que retribuísse a especialização. Quando aquela surgiu, já era tarde. E insuficiente, por não reconhecer a escala de mérito. O mesmo se passará com outras profissões. A irrefletida redução do tempo de trabalho bem poderia ter sido substituída por pagamento suplementar de cinco horas aos que o desejassem, nas profissões rarefeitas. Assim, foi bónus ao setor privado, que passou a comprar barato e sem conflitos serviços de enfermagem e outros que o setor público paga caro e com greves. Decisões adiadas ou mal pensadas são sempre dispendiosas e nunca satisfazem o reclamante.

Se o sucesso da "geringonça" esteve na acalmia social, a densificação de greves gera o contrário: mais "geringonça" já não garante paz social. As greves do setor público causticam o povo, levando-o a desejar uma rutura, um desforço que o liberte. Nada seria hoje mais popular que a mobilização civil dos enfermeiros da greve cirúrgica, dos professores que fazem greves temporalizadas em momentos críticos, dos trabalhadores dos comboios em datas de reunião familiar. Quem decide tem relutância em embarcar no populismo. Não faltarão, todavia, os que a ele aspiram, quando os bem-comportados se retraem. Fortuna audaces sequitur, a sorte acompanha os audazes, convém não esquecer.

Alguns sinais de acalmia se anunciam. Dirigentes deslumbrados terão percebido que o crowdfunding estava a sair caro em desamor. Ou talvez estejam cansados e legitimamente desejosos de averbar vitórias já conseguidas sem deitar tudo a perder. Outros, os institucionais, pensarão maduramente nas linhas vermelhas: até onde podem avançar sem erodir o capital de tolerância tão duramente adquirido? O Governo foi ao fundo da gaveta rapar o que tinha e talvez um pouco do que não tinha, tendo de compensar algures. Atento aos sinais de esfriamento da economia, não terá margem para mostrar sucessos no Outono. Tendo habituado o povo ao bónus financeiro de fim de ano, terá agora que o desabituar.

O tal povo sofredor e silencioso espera agora, neste ano final, um pouco mais que as reversões: reformas que mobilizem a educação, a saúde e a ação social, regulando efetivamente os agentes privados que com elas cooperam; que garantam aos tribunais competências para administrarem a justiça em nome do povo, com independência, celeridade e equidade; que lembrem às empresas públicas que, servindo o contribuinte, servem o Estado, não sendo propriedade dos que nelas trabalham; que responsabilizem os dirigentes, dotando-os de mais poder e responsabilidade; que recuperem o orgulho da função pública, exercida com igualdade, proporcionalidade, justiça, imparcialidade, boa-fé e probidade.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico