Opinião

PSD: anunciam-se tempos interessantes…

Por muito próximos que tenham sido ao trabalharem com Passos, Montenegro e Morgado são políticos muito diferentes, ainda que ambos defendam um PSD claramente demarcado do PS e se inscrevam os dois na tendência social-liberal do partido.

O desafio da liderança do PSD de Rui Rio era expectável. A incógnita era se ele viria antes ou depois das eleições europeias. Esta quinta-feira, a dúvida esclareceu-se. Luís Montenegro anunciou que na sexta apresenta a sua candidatura a líder do PSD. De seguida, foi a vez de Miguel Morgado formalizar uma disponibilidade já conhecida: se forem marcadas eleições directas para a presidência do partido, candidata-se.

A tensão interna no PSD, agora escancarada por estes desafios a Rio, vai intensificar-se nos próximos dias e mesmo semanas. Montenegro tem a garantia de possuir já o número de assinaturas necessários para convocar um Conselho Nacional para destituir Rio e provocar eleições directas. E Rio sabia que as regras internas do PSD permitem que tal se concretize.

Do ponto de vista estratégico, para quem desafia, o melhor momento para o fazer é antes das europeias. Um mau resultado para o PSD a 26 de Maio será sempre facilmente atribuível à liderança de Rio. E avançar agora dará algum tempo para preparar as legislativas, a começar pelas listas. Mesmo sabendo que uma vitória do PSD nas legislativas é uma missão quase impossível, faz sentido que os opositores de Rio tentem ganhar-lhe agora a liderança.

Resta saber até que ponto esta vitória sobre Rio é possível e que armas e argumentos irá usar o actual presidente do PSD para defender a liderança que conquistou há um ano. A primeira batalha será desenhada no Conselho Nacional que as distritais irão pedir. E um dos recursos de Rio desde logo é adiar ao máximo a sua convocação, para ganhar tempo e defender o seu terreno.

O momento que se vive no PSD tem a importância de ser uma espécie de ensaio geral para o futuro. Os dois nomes que se perfilham a desafiar Rio são de uma nova geração — Montenegro tem 45 anos e Morgado 44 anos — e ambos integraram o núcleo-duro de Passos Coelho. Montenegro como líder parlamentar, Morgado como assessor e conselheiro político no gabinete do primeiro-ministro.

Mas que ninguém se engane, por muito próximos que tenham sido ao trabalharem com Passos, Montenegro e Morgado são políticos muito diferentes, ainda que ambos defendam um PSD claramente demarcado do PS e se inscrevam os dois na tendência social-liberal do partido.

Montenegro com uma imensa experiência partidária, subiu na hierarquia do que se chama o aparelho, além de que os anos de exposição pública como líder parlamentar lhe deram uma preparação grande para o combate político.

Morgado revela traços de carisma raros na política portuguesa, tem uma sólida preparação intelectual, também invulgar até nos políticos portugueses, e tem deixado claro que deseja fazer uma ruptura cultural na direita política portuguesa, centrada na mudança do PSD.

E se Montenegro representa a lógica de acção política do passado e colhe junto a militantes mais tradicionais, nada obsta que venha a aderir à defesa de necessidade de romper com a maneira de fazer política que Morgado representa, uma ruptura cultural geracional que atrai os militantes mais jovens.

É expectável que, nos próximos dias ou semanas, o número de desafiantes de Rio aumente. É que há personalidades também da nova geração, mas que representam a tendência social-democrata do PSD, como Pedro Duarte, com 45 anos, ou Carlos Moedas, com 48 anos, que poderão ter uma palavra a dizer e querer comparecer na guerra pela liderança do PSD. Na política portuguesa, anunciam-se tempos interessantes…