Crítica

O Homem e o rio

Terra Franca é um filme de “paz”, onde seria inútil procurar um “pathos”: não importa quão difícil seja a vida, no centro do olhar de Leonor Teles está esta história de comunhão e harmonia.

Um realismo contemplativo e intimista, feito de observação e proximidade: <i>Terra Franca</i>
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Um realismo contemplativo e intimista, feito de observação e proximidade: Terra Franca
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Terra Franca é primeira longa-metragem de Leonor Teles, depois das bem sucedidas curtas-metragens que foram Rhoma Acans e, sobretudo, Balada de um Batráquio, premiada em Berlim. O lado destroy, muito punk, do filme do batráquio (que, recorde-se, escaqueirava um número incontável daqueles horrendos sapos de louça que certas lojas põem à entrada para afastar “os ciganos”), dá lugar a um objecto de natureza bem diferente, imerso num realismo contemplativo e intimista, feito de observação e proximidade, e, no que porventura é o seu traço mais distintivo, singularmente isento de qualquer espécie de “drama”. Continuam a ser as raízes de Leonor – natural de Vila Franca de Xira, a “terra franca” que a realizadora aqui filma – mas a relação pessoal é mais distanciada, e tudo se põe por trás dos sujeitos de observação do filme: um pescador (Albertino, sósia quase perfeito, incluindo o bigode, do protagonista do Western de Valeska Grisebach) e a sua família, nas semanas que antecedem o casamento da filha.

A imagem leitmotiv do filme são os planos de Albertino sozinho no rio, nas margens ou numa pequena embarcação, que voltam repetidamente e sempre numa duração considerável. Não menorizando tudo o resto, são estas imagens que definem o centro de Terra Franca, e fazem dele um filme de “paz”, um filme onde seria inútil procurar um pathos: não importa quão difícil seja a vida (e há, inevitavelmente, algumas referências à “crise”, tendo a rodagem do filme arrancado ainda durante os anos da troika), no centro do olhar de Leonor está esta história de comunhão e harmonia, entre um homem e o seu meio ambiente, familiar, geográfico, laboral (porque tudo se funde, é daí que vem a comunhão). Com esse leitmotiv, Terra Franca pode então declinar-se numa série de cenas, algumas bastante longas, que decompõem e particularizam uma família (os diálogos durante as cenas de refeições, os preparativos do casamento), e no-la fazem aparecer em toda a sua plenitude individual sem com isso se perder a dimensão “tipológica” que a faz valer também enquanto retrato propriamente “social”. Esse vai e vem de uma dimensão a outra (pontuado ainda por momentos algo elegíacos e alimentados por escolhas musicais inesperadas: Nat King Cole, Otis Redding...), feito sem quaisquer recursos retóricos convencionais (nem voz “off” nem “comentário” explícito), assegura a força, contemplativa e discreta, de Terra Franca.