Mike El Nite atirou o capacete às normas e voou

Quando em 2016 chegou à plataforma VIDEOCLIPE.PT o vídeo de T.U.G.A., era já claro que a música de Mike El Nite vinha trazendo uma marca distinta para o contexto do hip hop nacional produzido a Sul, no qual são raras as fugas ao decalque da realidade americana. Na altura, quando aqui o destacámos no P3, a sua derivação trap era praticamente pioneira por cá, mas ainda assim acrescentava-lhe um cunho próprio, carregado de autoironia, e com uma surpreendente consciência de quem não vive na periferia de Los Angeles ou Nova Iorque.

Era, portanto, um tipo com plena noção concetual da sua música, da sua persona, do seu meio, e também com ideias para a ferramenta com a qual a música hoje ganha projeção nos muros digitais — o videoclipe. Assim, quando alguém acaba de fazer chegar à mesma plataforma a sua última investida audiovisual, uma coisa é clara: Miguel Caixeiro é ousado, mas não estouvado (ainda que lhe falte o capacete). Voando como um verdadeiro outsider sobre o hip hop é, como já em tempos dissemos de Nerve, a personagem mais desafiante que por cá existe. Embora navegue com algumas influências americanas mais alternativas à vista, o seu fluxo verbal anda a explorar mares por cá nunca antes navegados, ou seja, por “além-rap”. Talvez canção, talvez um daqueles híbridos que o planeta hip hop precisa, mas ainda poucos adotam.

Havendo muito mais a dizer sobre este som, importa aqui, nesta galeria, atentar nesta coisa alucinada com nome duplo de Capacete/Arco-íris. São, respetivamente, nome do quarto e quinto tema do álbum Inter-Missão, lançado recentemente e fora dos moldes habituais (CD + BD). Mais uma vez, normas para as urtigas. No fundo, pinta aí a cor e fantasia as atribulações mais negras dos últimos dois anos e as coordenadas de rota para o seu novo KITT musical (Justiceiro era o álbum anterior). Uma tripe surreal, pirosa, mas humorada, irónica e a satirizar-se a si mesmo. Sobretudo, a voar muito para além do convencionalismo: rapper a afrontar a câmara com brothers ao lado. No fundo, uma tentativa constante de construir algo diferente, nem que às vezes seja necessário, como recentemente os Linda Martini, explodir com as normas do que é atualmente esta coisa ampla de fazer música.

Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico, a pedido do autor.

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