"Chapéus há muitos, Sr. Godot!" (ou de como Ribeirinho encontrou Beckett)

Perto de seis décadas após a estreia portuguesa de À Espera de Godot em Lisboa, numa encenação de Ribeirinho, Jorge Louraço Figueira ousou reconstituir esse momento, forçando o “reencontro” dos protagonistas desse acto histórico com o próprio Samuel Beckett. À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua chega agora ao Porto.

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Pedro Diogo (à esquerda) é Ribeirinho na peça À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua Nelson Garrido
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Estêvão Antunes é Mestre Santana Nelson Garrido
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Estêvão Antunes, Mário Moutinho e Pedro Diogo na peça À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua Nelson Garrido
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À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua teve estreia nacional no Teatro da Trindade, em Lisboa, em 2017 Nelson Garrido

Há três datas – 1959, 1969 e 1973 – que justificam os três actos de À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua, co-produção da Fundação Inatel com alguns teatros municipais do país que chega agora ao Porto, a meio de uma digressão nacional iniciada a 30 de Novembro de 2017 no Teatro da Trindade, em Lisboa. São os anos que assinalam uma proeza pouco conhecida, mesmo no mundo do teatro em Portugal: em Abril de 1959, Francisco Ribeiro (1911-1984) – esse mesmo ‘Ribeirinho’ que sucessivas gerações de espectadores foram aplaudindo em filmes referenciais da comédia portuguesa dos anos 40, como O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas ou A Vizinha do Lado – encenou pela primeira vez em Portugal À Espera de Godot (1952), a obra mais emblemática de Samuel Beckett (1906-1989). Repetiu-a, no mesmo palco do Teatro da Trindade, uma década depois; e em 1973 levou-a ainda a várias cidades de Angola, mostrando-a a plateias de soldados da Guerra Colonial e a colonos.

Foi o conhecimento destes factos que levou Jorge Louraço Figueira a escrever a peça. Começou por ficar “muito intrigado” ao saber que a estreia portuguesa do texto de Beckett tinha tido a mão do insuspeito 'Ribeirinho' dos filmes com António Silva, Vasco Santana e Laura Alves. E ainda mais intrigado ficou com as suas reposições, nomeadamente a de 1969, ano em que o dramaturgo irlandês passou férias... no Hotel Cidadela, em Cascais.

“Esse paralelismo de [Francisco Ribeiro] montar a mesma peça duas vezes pareceu-me muito beckettiano, e pôs-me alerta”, recorda o dramaturgo-encenador ao PÚBLICO no intervalo de um ensaio no Teatro Carlos Alberto (TeCA), onde À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua entra em cena esta quarta-feira, ficando até domingo, dia 13. Apoiado nos dados históricos, Louraço Figueira avançou para a ficção verosímil: “E se o Beckett se tivesse cruzado com o Ribeirinho num ensaio ou numa apresentação de À Espera de Godot em Lisboa?!...”

É este o enredo da criação em que Jorge Louraço Figueira “sonha” a reacção dos actores perante a possibilidade de Beckett chegar a qualquer momento ao ensaio. Ou a do próprio dramaturgo, ao ver os seus personagens Vladimir e Estragon interpretados por um arremedo de António Silva (Óscar Silva) e Vasco Santana (Estêvão Antunes), ao lado do próprio Ribeirinho (Pedro Diogo) e de “um ponto trapalhão” (Mário Moutinho) à deriva com o absurdo do texto do irlandês e que simultaneamente se sente “obsoleto porque os actores agora decoram tudo”, descreve o autor.

Além dos factos históricos relidos à luz deste delírio cénico, o dramaturgo e ex-crítico de teatro do PÚBLICO cita as peças Rosencrantz and Guildenstein Are Dead, de Tom Stoppard, “uma espécie de casamento entre Beckett e Shakespeare”, e Ñhaque, de José Sanchis Sinisterra, que “encena também duas figuras beckettianas num ambiente popular do século XVIII”, como outras fontes da sua criação. Forçando a ligação entre o teatro popular e o teatro erudito, “dois universos que separamos artificialmente”, diz. “Como a mim me puxa sempre o pezinho para a chinela – dizem alguns – e não encaixo naquilo que é bem visto, achei que podia reclamar esse espaço”, argumenta.

Regresso à Canção de Lisboa

É quase como quem diz: “Chapéus há muitos!...” – para regressar ao imaginário da comédia popular dos primeiros tempos do Estado Novo. É uma sequência famosa de A Canção de Lisboa (Cottinelli Telmo, 1933), quando Vasco Santana guia as tias numa visita ao Jardim Zoológico. Ribeirinho não entra ainda neste filme, mas os chapéus são um adereço omnipresente no cenário minimal de À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua – como o são nos figurinos das personagens de À Espera de Godot.

Outra proeza da criação agora em cena no TeCA é a semelhança da figura de Pedro Diogo com a do próprio Ribeirinho. O encenador descobriu o actor através de uma amiga inicialmente ligada à produção da peça, e ficou logo convencido pela parecença fisionómica. Depois, foi o trabalho do actor. Pedro Diogo (Lisboa, 1976) conta já mais de 20 anos de carreira, entre o teatro, o cinema e a televisão. Começou por estudar Comunicação Social, mas depois foi para Itália “à procura dos mestres da máscara no teatro contemporâneo”, explicou ao PÚBLICO.

Para a recriação da figura de Francisco Ribeiro, viu os filmes e fez muita pesquisa sobre o seu lugar na história do teatro em Portugal. “Como pessoa, era conhecido por ser muito duro, muito exigente, o contrário daquilo que estamos habituados a ver nos filmes. Mas o nosso compromisso criativo era irmos à procura da pessoa como ela é e também da imagem que as pessoas têm dela, para que a pudessem reconhecer e acompanhar”, diz Pedro Diogo.

Desse trabalho nasceu uma personagem facilmente reconhecível para quem tem memória da carreira cinéfila de Ribeirinho. Mas, no seu delírio, À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua é também uma homenagem a uma personalidade que marcou a história do teatro em Portugal. “Ele – não nos esqueçamos de que o Ribeirinho era irmão do António Lopes Ribeiro [1908-1995] – é a primeira figura [nacional] do homem que controla todos os elementos do espectáculo, da cenografia à encenação e à interpretação”, nota Louraço Figueira, considerando-o “o equivalente ao António Pedro, noutro lugar e noutra posição estética”. “Só que ele ainda fazia as coisas à moda antiga: era muito autoritário e, a partir de certa altura, os novos querem fazer as suas coisas, e ele é um pouco deixado para trás.”

Jorge Louraço Figueira interpreta, de resto, a decisão de Ribeirinho de remontar À Espera de Godot em 1969 como “uma tentativa de apanhar um comboio que já tinha passado”. Mesmo assim, depois de ter dirigido Os Comediantes de Lisboa (com o irmão), o Teatro do Povo e o Teatro Nacional Popular, esteve à frente do Teatro Nacional D. Maria II quando da sua reabertura em 1978, após o grande incêndio de 1964. E, ao longo dos anos, lançou diferentes gerações de actores, como Fernando Gusmão e João Lourenço, que integraram o primeiro elenco português de À Espera de Godot.

Desde a estreia no Teatro da Trindade no final de 2017, À Espera de Beckett ou Quaquaquaqua passou já por outros palcos do país, como o Teatro Constantino Nery (Matosinhos) e o Teatro Sá de Miranda (Viana do Castelo). A seguir ao Porto, a peça irá a Almada, Vila Real e Aveiro, repetindo a digressão nacional da encenação histórica de Ribeirinho.

Notícia corrigida às 11h11, rectificando a data original de publicação de À Espera de Godot