Crítica

Caroline Mesquita, uma história interminável

Há uma narrativa implícita por contar na obra de Caroline Mesquita, que agora tem a sua primeira individual em Portugal.

Nada nos esclarece sobre o que hipoteticamente precede o que estamos a ver. O objecto terá aterrado ali, caído do espaço exterior
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Nada nos esclarece sobre o que hipoteticamente precede o que estamos a ver. O objecto terá aterrado ali, caído do espaço exterior
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É quase obrigatório começar este texto crítico pela descrição da primeira exposição individual que a francesa Caroline Mesquita (n. Brest, 1989) realiza em Portugal. Na cave das instalações da Kunsthalle Lissabon, um espaço banal, sem características distintivas de maior, foi criado um falso chão de mármore que duplica o já existente. Nessa base, abre-se uma cratera repleta de terra, sobre a qual parou um estranho objecto, talvez uma cápsula de metal enferrujado. As associações com imagens vindas da ficção científica (e, ainda mais a montante, com antigas narrativas fundadoras de diversas civilizações, de que este género cinematográfico, por norma, se apropria) começam aqui, embora a iluminação que banha todo o espaço, uniforme e intensa, nada faça para auxiliar o dramatismo que o tipo de peça convoca. Num dos extremos do objecto, uma abertura deixa derramar outras peças, semelhantes a ossadas, que poderão ser animais ou humanas. Nada nos esclarece sobre o que hipoteticamente precede o que estamos a ver. O objecto terá aterrado ali, caído do espaço exterior (mas sem danificar de outro modo o prédio de habitação no qual a galeria está instalada), ou estará a emergir?

Este impulso narrativo, ao qual é inútil resistir, esta vontade de construir uma história a partir do que nos é dado a ver é sem dúvida o eixo da exposição. O objecto esculpido em metal, que a artista nos conta ser sujeito a uma série de processos para acelerar a presença da ferrugem e da patine, possui todas as características associadas tradicionalmente à escultura de vulto, desde o volume à escala escolhida para interagir com a volumetria do espaço. A sua forma convoca o arquétipo da caixa (que Caroline Mesquita também tem desenvolvido noutras esculturas), com as suas declinações na história da arte: cofre, relicário, sarcófago, baú. Os ossos, trabalhados de forma ilusionista (isto é, mantendo uma forma e uma cor que identificamos de imediato com esses elementos do esqueleto animal), pedem uma leitura literal: a que enuncia os restos, a ruína da vida que terminou. Ou dito de outra forma, tudo aquilo que resta quando a morte (o esquecimento) passa por algum lugar.

Esta enumeração de possibilidades interpretativas, embora apenas num nível ainda elementar, confirma aquilo que já intuíramos inicialmente. De facto, Caroline Mesquita apela constantemente à capacidade narrativa das imagens, como sempre sucedeu, de resto, na história da arte. Depois de anos e anos quase sempre ensimesmada sobre si própria, ressurge, na arte dos últimos 40 anos, um oscilar permanente entre um fundo narrativo político e sociológico, e um outro, mais recente, que vai procurar o fundo ficcional e mesmo fantástico transmitido em vários suportes (da BD à ficção científica, dos fanzines ao cinema de animação digital, para só citar alguns), onde o mergulho na história das formas artísticas é mais evidente. Philip Schwalb e Dealmeida Esilva, Sara Bichão e Manon Harrois, para apenas citar duas duplas de artistas com exposições recentes em Lisboa, fazem parte deste último grupo. As contradições entre os dois, contudo, são apenas superficiais. No caso de Caroline Mesquita, por exemplo, outras séries de esculturas suas, que representam figuras humanas, incidem sobre as questões de género e o seu tratamento no espaço político contemporâneo. E aqui, em Astray (que terá sequência em breve na Galeria Municipal do Porto), podemos ver sem muita dificuldade o possível resultado de políticas ambientais suicidárias que nos levarão a todos, inelutavelmente, a uma extinção sem Arca de Noé possível.

E no entanto nada nos é dito de definitivo. A abertura semântica acaba por remeter-nos de novo para a observação cuidada do que nos é dado a ver: a simulação de um acidente através da intrusão do objecto. Falso sarcófago ou falso túmulo, transforma verdadeiramente a galeria numa ruína, num cemitério. Os ossos, como sucede no trabalho de uma outra artista, Julieta Aranda, são aqueles elementos que não apenas sustentam o corpo de pé, como guardam a memória e as emoções através da osteolacina. Ora, o trabalho da recordação é também ele um trabalho de investigação arqueológica sobre a estratigrafia dessa mesma memória. E recordar, ligar com a história, pessoal ou colectiva, é sem dúvida um processo que tem aqui a sua imagem duplicada, como se instalação de Caroline Mesquita nos desse por fim, para além do espectáculo formal, um espelho baço no qual vemos o que deixaremos para as gerações futuras.