Primeiro escaravelho português descoberto em águas subterrâneas

Encontrado na Gruta Soprador do Carvalho, em Penela, o escaravelho é de uma espécie nova para a ciência. É aquático, mas não tem características adaptadas à natação.

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O escaravelho cego e despigmentado Iberoporus pluto Ignacio Ribera

Uma única fêmea foi o suficiente para que Ana Sofia Reboleira, da Universidade de Copenhaga (Dinamarca), e Ignacio Ribera, da Universidade de Pompeu Fabra, em Barcelona (Espanha), descobrissem uma nova espécie de escaravelho – é o primeiro que se encontra em águas subterrâneas em Portugal. O Iberoporus pluto, o seu nome científico, foi encontrado na gruta do Soprador do Carvalho, em Penela, no distrito de Coimbra. Apesar de os biólogos só terem um único exemplar, classificaram-no como pertencendo a uma nova espécie para a ciência devido às suas características singulares do ponto de vista morfológico e molecular.

Esta espécie é identificada pelos biólogos como exclusiva das águas subterrâneas de Portugal, nomeadamente, da gruta do Soprador do Carvalho. No entanto, ao contrário da maioria dos escaravelhos aquáticos, esta espécie não possui patas adaptadas à natação. Em conversa com o PÚBLICO, Ana Sofia Reboleira explicou que “o último par de patas é muito longo, o que faz pensar que [o escaravelho] as utiliza não para nadar, mas para andar nas superfícies argilosas”.

Toda a investigação sobre a nova espécie foi feita através da fêmea encontrada (não foram descobertos outros exemplares) e publicada esta terça-feira na revista ZooKeys. Na Europa, acrescentou Ana Sofia Reboleira, conhecem-se apenas outras quatro espécies de escaravelhos de águas subterrâneas.

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O novo escavelho de águas subterrâneas Ignacio Ribera

Com um comprimento de 2,8 milímetros, a fêmea é despigmentada e perdeu os olhos durante a evolução, por não contactar com a luz natural. Com uma cabeça macia, é possível ainda observar as duas cicatrizes negras no lugar onde um dia existiram os olhos. Os seus membros e antenas são alongados, característica que a diferencia da sua espécie mais próxima, a Iberoporus cermenius. Estas duas espécies têm a forma da cabeça semelhante e uma aparência geral similar: no entanto, a nova espécie diferencia-se pelo seu tamanho superior. “A separação entre esta espécie [Iberoporus pluto] e a espécie mais próxima deu-se há cerca de dez milhões de anos”, acrescenta a bióloga portuguesa.

Mesmo sendo um insecto aquático, a investigadora portuguesa agora na Universidade de Copenhaga explicou que o animal “respira por um sistema de traqueia”, por isso tem de vir frequentemente à superfície renovar a bolha de ar que transporta consigo. Tal como aconteceu com a perda dos olhos, estes animais perderam as asas com a consequente adaptação ao seu habitat subterrâneo. Uma parte do seu nome, Iberoporus pluto, é dedicada a Plutão, governante do mundo desconhecido na mitologia grega.

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A gruta do Soprador do Carvalho, em Penela, distrito de Coimbra Ignacio Ribera

Turismo como ameaça

A gruta onde a espécie foi encontrada é também conhecida por gruta Talismã e foi descoberta em 1992 pelo Grupo de Arqueologia e Espeleologia de Pombal (GAEP). O Soprador do Carvalho é uma gruta com aproximadamente quatro quilómetros de desenvolvimento horizontal e é a maior gruta do Centro de Interpretação do Sistema Espeleológico do Dueça. Esta gruta é atravessada por um curso de água subterrâneo proveniente do rio Dueça (afluente do Ceira, que por sua vez é afluente do Mondego), composto maioritariamente por rochas clásticas e cascalho, com grandes depósitos nas suas margens. A nova espécie foi encontrada numa superfície argilosa do leito daquele curso subterrâneo de água. Neste habitat, já tinham sido descobertas outras espécies, como por exemplo o pseudo-escorpião Occidenchthonius duecensis.

Actualmente, esta gruta é uma conhecida atracção turística, onde são promovidas visitas guiadas ao seu interior. Apesar destas visitas contribuírem para o desenvolvimento turístico e económico da região de Penela, constituem uma ameaça para as espécies que habitam a gruta do Soprador do Carvalho. “Se um animal vive num leito do rio e esse leito é constantemente pisoteado, é claro um perigo para a espécie”, alerta a bióloga.

Texto editado por Teresa Firmino