Editorial

Liberdade de expressão com chancela criminal

As bestas do extremismo andam por aí e será trágico fechar-lhes os olhos; mas trazê-los para a primeira ordem de prioridades e dar-lhes a representatividade que não têm pode não ser tragédia menor.

O problema principal da entrevista de Mário Machado à TVI é o próprio Mário Machado e o que Mário Machado pensa, o que acredita ou o que propõe é apenas um arrazoado de ideias daninhas que cabem nos limites da estupidez humana. É por isso que o que merece ser discutido em primeiro lugar nessa entrevista é o facto de alguém se ter lembrado de um homem com aquele passado criminal para dizer o que quer que seja às pessoas deste país. Se a liberdade de expressão existe para podermos ouvir o que nos incomoda ou ofende, como muito bem lembrou José Pacheco Pereira na edição de ontem, a liberdade de escolha de uma televisão existe para separar opiniões qualificadas de bestialidades, para destrinçar as virtudes republicanas dos comportamentos criminosos, para distinguir pessoas de bem de arruaceiros. Se a comunicação social tem protecção constitucional é para alguma coisa.

Ao ceder os seus ecrãs a Mário Machado, a TVI ultrapassou o risco vermelho que nos mostra o limite da tolerância em relação ao pluralismo e à liberdade de opiniões. Mário Machado tem direito à saudade do salazarismo e, desde que se abstenha de fazer a apologia da violência ou da violação da lei, pode defender a sua sinistra opinião. Mas uma televisão que professa a responsabilidade de informar e os princípios que dão forma a uma sociedade aberta e democrática não lhe deve dar palco a pretexto da liberdade de expressão para que possa amplificar o seu reles exemplo. E muito menos sem ter o cuidado de expor com toda a crueza o género de pessoa que é, o tipo de crimes que o levou à cadeia e o género de ideário extremista que propõe.

O que terá levado um profissional respeitado de uma estação cuja área editorial é liderada por um dos melhores jornalistas do país a cometer esta barbaridade é todo um outro programa. A verdade é que, face à inexistência de um perigo extremista imediato em Portugal, alguns jornalistas e políticos parecem empenhar-se para que apareça. A cobertura do dito movimento dos coletes amarelos, os avisos solenes e repetidos do Presidente sobre um populismo radical que permanece ainda em estado larvar, a chamada para Mário Machado reiterar os seus ideais fascizantes, tudo parece indiciar a construção de uma profecia destinada a cumprir-se por si própria. Sim, as bestas do extremismo andam por aí e será trágico fechar-lhes os olhos; mas trazê-los para a primeira ordem de prioridades e dar-lhes a representatividade que não têm pode não ser tragédia menor.