Crónica

As prendas de Natal e os miúdos: se pudesse, embrulhava tempo

Não quero ser mal interpretada, gosto de dar um presente que surpreenda o outro, mas não gosto de dar tantos presentes ao mesmo tempo, de passar tantas horas em lojas, dentro e fora, dentro e fora, de centros comerciais.

Em boa verdade, o título desta crónica não se aplica só às crianças, nem apenas à minha filha. Em boa verdade, se pudesse, embrulhava tempo e dava-o às pessoas de quem gosto, sobretudo à minha filha. No outro dia de manhã, ouvi uma gaivota em Lisboa, enquanto atravessava o jardim para a levar à creche. Em boa verdade, já me aconteceu isto em duas manhãs. Em duas manhãs, ouvi duas gaivotas. Se era a mesma, isso não sei. Mas o som daquela gaivota lembrou-me as intermináveis férias de Verão da minha infância e adolescência e deu-me uma saudade aguda de tempo. Uma saudade de manhãs, uma saudade até de sentir o frio da manhã na rua e de ter lentidão para o sentir a sério.

Mas vem isto a propósito do Natal e das infindáveis prendas que damos uns aos outros. Não quero ser mal interpretada, gosto de dar um presente que surpreenda o outro, mas não gosto de dar tantos presentes ao mesmo tempo, de passar tantas horas em lojas, dentro e fora, dentro e fora, de centros comerciais. Se pudesse, dava todas essas horas àqueles de quem gosto (de preferência, para as usarem comigo). Sobretudo, embrulhava tempo para dar à minha filha, que tem um ano, e passeava com ela no jardim da nossa rua, pela manhã. E, às vezes, pela tarde. E ao final da tarde. E por aí adiante, que isto do tempo não pára.

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Jonatas luzia

Se pudesse, trocava. Trocava as prendas todas por tempo. Trocava objectos por momentos. Mais uma vez, que ninguém me interprete mal, dou prendas à minha filha – demos-lhe uma caixa cheia de pequenas tralhas lá dentro que ela gostou mais do que um cavalinho cheio de design que nos custou os olhos da cara e que nos obrigou a um desvio (logo, perder tempo) para o comprar antes de ir para casa. Ela também gostou do cavalinho-trenó, é certo, mas a ideia da caixa foi mais divertida: a ideia era ir tropeçando em objectos e mandá-los lá para dentro. Carrinhos, coisas, tudo. Molas, ela aprecia imenso molas. Mas também gosta muito de ser posta dentro da bacia que usamos para pôr e tirar roupa da máquina. Uma vez lá dentro, emite sinais de que quer ser erguida no ar e ri-se às gargalhadas quando está lá em cima. Que ninguém tenha dúvidas: ela está num disco voador. Não devemos subestimar a imaginação quando ela se apodera de alguém: uma bacia, uma mola, dois legos desencontrados podem ocupar-lhes (ocupar-nos) a mente por muito tempo.

Eu própria sinto-me num ovni feliz quando tenho tempo para passear com ela pela nossa rua. Nós temos amizades com o mundo todo lá no bairro – nas notícias, a nossa freguesia surge sempre como a que tem mais imigrantes de Lisboa. No Verão, ela passava, no seu carrinho ou ao meu colo, e da mercearia gritavam-nos: “Marguerita!” Não era uma exclamação sobre as pizzas do fundo da rua, era mesmo um abraço atirado para a nossa filha que se chama Maria Rita. E eu parava e perguntava também pela filha do senhor da mercearia que tem quase a mesma idade da minha. Gosto de ter tempo para estes pequenos olás, nas muitas línguas da nossa rua. São um pouco da minha vida lá fora. A minha rua é o meu quintal. É onde brinco e arejo.

Recupero esta imagem que já escrevi antes – no início de David Lynch: The Art of Life há uma memória: Lynch recorda-se de ser criança e de os pais abrirem um buraco na terra, à sombra de uma árvore, de o encherem com água da mangueira, e de ele e um amigo ficarem lá a brincar na lama, nos dias de calor. “So beautiful”, diz Lynch. E é. É completa a sensação que provoca: tem a sombra, a árvore, a terra, duas crianças. Em Lisboa, não terei alguma vez um espaço ao ar livre para a minha filha brincar e se sujar na terra assim. Mas gostava que ela se lembrasse, pelo menos, das sombras do jardim da nossa rua e que ouvisse comigo as gaivotas nas manhãs de Inverno. Serão duas gaivotas ou será a mesma? Não sei. Mas gostava de ter tempo para lhe perguntar.