Opinião

Redução de riscos: também no tabaco há espaço para fazermos melhor!

Existem já vários estudos que apontam para uma redução de 95% do risco de exposição a substâncias nocivas quando se comparam cigarros eletrónicos ou aquecidos com tabaco tradicional.

Eduíno Lopes, médico do Porto, foi o primeiro em Portugal a introduzir a metadona para substituir a adição à heroína. Começou por fazê-lo nos seus consultórios e prisões e inaugurou a “redução de riscos” como estratégia de combate à toxicodependência. Foi criticado. Muito. Nos anos 80 os “especialistas” portugueses em adições defendiam, na sua maioria, que a abstinência era a única política possível para este problema. Hoje em dia temos 18.500 utilizadores de metadona.

As políticas de redução de riscos nas dependências são, demonstradamente, as que apresentam melhores resultados porque olham para os aditos como pessoas em toda a sua complexidade e partem do facto de que nenhuma estratégia de prevenção e tratamento resulta em toda a gente. E para aqueles que não conseguem deixar o consumo, o melhor mesmo é reduzir os riscos associados.

Há quase dois milhões de fumadores em Portugal. No ano de 2013 11% das mortes registadas estão relacionadas com o tabaco. As políticas de restrição do fumo em espaços públicos desenvolvidas nas duas últimas décadas foram um sucesso, sobretudo porque protegem os não fumadores. A introdução no Serviço Nacional de Saúde de serviços de apoio à cessação tabágica tem feito um caminho fundamental no apoio a todos aqueles que querem deixar de fumar.

Não nos enganemos, deixar de fumar é a melhor solução possível para o problema do tabagismo e a cessação tabágica deve ser a prioridade de qualquer política pública. Não há divergências quanto a isto. No entanto, as autoridades de saúde britânicas (Public Health England) vieram esta semana defender que podem existir soluções complementares para aqueles que não querem (ou não conseguem) deixar de fumar: produtos de substituição do tabaco como os adesivos ou as pastilhas elásticas de nicotina e, na mesma lógica, os cigarros eletrónicos ou aquecidos. Existem já vários estudos que apontam para uma redução de 95% do risco de exposição a substâncias nocivas quando se comparam cigarros eletrónicos ou aquecidos com tabaco tradicional.

Claro que não existem estudos a longo prazo e é evidente que estes produtos não “fazem bem” à saúde. Mas o que sabemos, de certeza, é que o tabaco fumado é um flagelo global de proporções incomparáveis com qualquer outra substância. E perante isto torna-se impossível não reconhecer que estes novos produtos representam uma redução de riscos — mesmo que estes produtos estejam hoje a ser desenvolvidos massivamente pela indústria tabaqueira.

Defender estratégias de redução de riscos em relação ao tabaco significa, acima de tudo, respeito pela liberdade individual. Há muitos fumadores que se tornam ex-fumadores. Eles devem ser apoiados e encorajados neste processo. E há também fumadores que não conseguem ou não querem deixar de fumar. A esses deve ser dada informação correta para que possam decidir o que querem fazer com a sua dependência. E isso implica ser honesto, não sonegando qualquer tipo de informação.

As estratégias do “tudo-ou-nada” (abstinência total ou fracasso) não resultam para toda a gente e, sobretudo, não foram bem-sucedidas para as restantes dependências. Infelizmente a Organização Mundial de Saúde ainda não foi capaz de digerir toda a informação que existe sobre os produtos de substituição tabágica e mantém-se hoje numa posição de defesa da abstinência como estratégia única.

Esta posição não é isenta de interesses e pressões externas, basta conhecer os milhões de dólares doados por multimilionários abstencionistas como Michael Bloomberg às campanhas anti-tabágicas. E é fácil atacar a indústria do tabaco, dada a sua obscura e penosa história passada. Mais difícil será separar o trigo do joio e identificar no meio de interesses conflitantes informação que possa beneficiar os atuais fumadores.

Seria se calhar esta a altura em que “recuperávamos a memória” do Eduíno Lopes e nos deixávamos de querer exclusivamente promover abstinências várias, quando já sabemos claramente, através dessa memória, que elas não funcionam para todos. Precisamos de respostas integradas que não esqueçam ninguém e não de radicalismos anti-tabaco que tratam as pessoas como meros autómatos desprovidos de vontade e capacidade de decisão.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico  

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