O convite da TVI a Mário Machado está a provocar um incêndio político

O incómodo com os programas da estação televisiva, que tinham como um dos protagonistas o rosto da extrema-direita em Portugal, já chegou a membros do Governo.

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Sérgio Figueiredo e Manuel Luís Goucha estiveram no espaço de debate de José Eduardo Moniz, Deus e o Diabo, nesta sexta-feira DR

É certo que foi uma declaração escrita no Twitter, mas foi pela mão do ministro da Defesa. Sem fugir à polémica, João Gomes Cravinho defendeu nesta sexta-feira que o convite da TVI para que o principal rosto da extrema-direita portuguesa, Mário Machado, participasse em programas na estação de Queluz “não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas”.

Na publicação, o ministro partilhava a crónica de Rui Tavares no PÚBLICO e acrescentava: “Importante e certeiro texto do Rui Tavares. Vivemos tempos complexos, e é preciso ter a noção que uma atitude destas por parte da estação em causa não é muito diferente de quem ateia incêndios pelo prazer de ver as labaredas.” Entre outras considerações, Rui Tavares lamentava que a TVI, “no desespero da concorrência por audiências”, tivesse levado “a estúdio um reiterado criminoso racista para lhe perguntar se ‘precisamos de um novo Salazar’”.

Nesta sexta-feira à noite, Sérgio Figueiredo, director de informação da TVI e Manuel Luís Goucha, apresentador do programa Você Na TV, estiveram no espaço de debate de José Eduardo Moniz, Deus e o Diabo, onde tentaram justificar o convite ao dirigente de extrema-direita.

O director de informação afirmou que o ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, “não tem moral para atirar a primeira pedra e para associar o convite a Mário Machado à guerra das audiências”. Sérgio Figueiredo disse que vinha a público esclarecer o facto de o ministro integrar o Governo que “recusou pedir à Web Summit que retirasse o convite a Marine Le Pen”, deixando no ar a questão sobre se a líder da extrema-direita francesa “não cabe também ela na categoria dos incendiários”.

Ainda no seguimento das declarações do ministro, o director de informação da TVI ripostou, indagando, “com a mesma suspeição”, se “o dinheiro da Web Summit traz a Portugal o suficiente para apagar estas labaredas”.

Quanto à queixa que o Sindicato dos Jornalistas enviou à Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC), o responsável pela informação da TVI mostrou-se indignado, acusando os dirigentes do sindicato de serem “falsos moralistas”. “Em vez de separarem águas, confundem as pessoas”, criticou.

Sérgio Figueiredo voltou a sublinhar, à semelhança do que havia feito no comunicado emitido pela estação, durante a tarde, que “a TVI defende a democracia acima de tudo”, dando como exemplo as várias reportagens produzidas “que pretendem defender o cidadão comum e colocam o dedo na ferida”. O responsável pela informação da TVI não deixou de expressar que a estação considera que a ideologia de Mário Machado defende “é repugnante e um perigo para a sociedade”.

Manuel Luís Goucha deteve-se na questão do convite ao líder da Nova Ordem Social para o programa que co-apresenta com Maria Cerqueira Gomes. O apresentador justificou que o autor da rubrica Diga de Sua (In) Justiça foi o responsável pelo convite, embora Goucha tenha sabido dele com dias de antecedência e decidido que não se furtaria a “uma conversa certamente difícil” na qual assumiu sempre o “contraditório”.

O apresentador da TVI mostrou-se de consciência tranquila, dizendo que, “perante informações perigosas” como as transmitidas por Mário Machado, fez o trabalho de “desmontar esses argumentos”. Terminou reiterando que não se inibirá de entrar num debate, mesmo que existam ideias perigosas veiculadas por alguém.

“Bater no mensageiro”

O apresentador do programa da manhã da TVI disse ainda que as “ideias perigosas têm de ser combatidas com valores justos” e que essas ideias circulam hoje, sobretudo, através das redes sociais.

Sérgio Figueiredo disparou outros argumentos noutras direcções: questionou a razão de não se ilegalizar a associação a que Mário Machado pertence e de se permitir ao Partido Nacional Renovador, um partido de extrema-direita, de concorrer a eleições. “Nós aprendemos com as nossas experiências. Não venham bater no mensageiro”, concluiu.

Ex-líder da Frente Nacional e actual líder da Nova Ordem Social, Mário Machado já esteve preso pela prática de inúmeros crimes, vários relacionados com questões raciais. Um deles estará inscrito na memória de muitos: o assassinato de Alcindo Monteiro, espancado até à morte por um grupo de skinheads, no Bairro Alto.

Quanto aos programas em que Mário Machado esteve presente, são dois: Você na TV, com Manuel Luís Goucha e Maria Cerqueira Gomes, que incluiu uma rubrica na qual se perguntava se “precisamos de um novo Salazar; e SOS 24, na TVI24. Mas é sobretudo o primeiro que está a causar polémica.

A participação televisiva do líder da Nova Ordem Social motivou várias queixas à ERC, embora o regulador não adiante, nesta fase, quantas. O SOS Racismo também acusou a TVI de branquear o passado de Mário Machado e de legitimar política e socialmente o racismo e a extrema-direita.

E o Sindicato dos Jornalistas (SJ), além da queixa à ERC, prometeu denunciar a situação junto da Assembleia da República, apelando aos deputados para que se pronunciem sobre o caso, considerando estar em causa a democracia e a credibilidade dos jornalistas.

“O Sindicato dos Jornalistas considera inqualificável o tempo e o espaço concedido pelo canal de televisão TVI a Mário Machado, conhecido líder da extrema-direita, várias vezes condenado e preso por diversos crimes de violência, sequestro, posse de arma e discriminação racial, entre os quais a participação no homicídio de um jovem, em 1995", lê-se no comunicado do SJ, no qual se acrescenta que será também pedido “à Comissão da Carteira Profissional de Jornalista que avalie eventuais procedimentos disciplinares e esclareça a TVI sobre a indevida utilização da palavra ‘repórter’”.

O SJ critica o facto de os programas terem dado “voz a um racista explícito e um salazarista assumido, que defende o regresso de Portugal à ditadura e a quem foi dada a oportunidade de se dedicar ao branqueamento histórico, em sinal aberto e para um grande público”.

O PCP também se pronunciou e já pediu à comissão parlamentar de Cultura uma audição urgente com o conselho regulador da ERC para analisar a questão da “apologia do fascismo, do racismo e de práticas criminosas que lhe estão associadas através da comunicação social, bem como a resposta a dar pelas instituições democráticas a esses fenómenos”.

No requerimento enviado a Edite Estrela, presidente da comissão, a deputada Diana Ferreira realça que “não é a primeira vez” que acontecem situações como esta nas televisões portuguesas, mas depois não são conhecidos o desfecho e as consequências das queixas à entidade reguladora, “gerando a convicção da total impunidade da promoção por via televisiva da prática de actos que constituem ilícitos criminais”. A deputada comunista argumenta que o Parlamento não pode ficar “indiferente” a estes “atentados aos valores democráticos e humanistas” e considera que a ERC “assume também particulares responsabilidades nesta matéria”.

Manuel Luís Goucha, apresentador do programa Você na TV, sublinhou em declarações ao PÚBLICO que não decidiu a presença de Mário Machado, que não se revê naquelas ideias, mas vincou que esta é "uma oportunidade de ouro para confrontar argumentos e ideias". "Chama-se a isso viver em democracia", afirmou.

Questionado sobre se pôs, no Facebook, o inquérito no qual se perguntava se precisamos de um novo Salazar, Manuel Luís Goucha explicou: “Fui eu que pedi uma sondagem com aquela pergunta, como peço se é a favor da corrida de touros. A maioria, como eu estava à espera, disse que não queria um ditador. Qual é o problema? É bom recordar que num programa recente da RTP, os telespectadores elegeram a figura de Salazar como o maior português de sempre. Concordei? Claro que não. Mas é uma figura que faz parte da nossa História, uma figura incontornável do século XX. É bom que se fale dela com tudo aquilo que ela implica. Até para não voltarmos a ter outros Salazares.” com Liliana Borges, Inês Chaíça e Maria Lopes