Opinião

A tragédia da biosfera

Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos.

Em Dezembro de 1968, num trabalho editado na revista Science, o ecólogo Garret Hardin afirmou que o livre acesso de um recurso pelo povo leva à ruína do planeta. Esta metáfora, intitulada “Tragédia dos Comuns”, simboliza o relacionamento estrutural dos indivíduos que colectivamente desperdiçam um recurso ao subutilizá-lo. A sociedade usa e explora os recursos em seu benefício, como se o planeta fosse infinito. Este polémico ensaio de Hardin vem a propósito dos consecutivos alertas sobre os riscos que a Humanidade corre perante o cenário do aumento de temperatura acima de um limiar, fixado em 2°C. A última cimeira do clima em Katowice, Polónia, foi pródiga em nomear ameaças que as alterações climáticas produzem na biosfera e terminou com um “livro de regras comuns”, em que os países se comprometeram a reduzir a emissão de Gases com Efeito de Estufa (GEE). Esperemos que este comprometimento seja mais eficaz do que a assinatura do Acordo de Paris em 2015. Infelizmente, estas boas intenções não têm resultado já que, ao contrário do que era suposto, a quantidade de emissões aumentou nos últimos anos. No entanto, uma grande diferença entre a parábola de Hardin e a redução das emissões é o facto de este ser um problema climático global em que os indivíduos são as diferentes nações. Está muito claro que o nosso futuro comum depende do modo como a sociedade interioriza este problema de redução das emissões como sendo de todos, o que implica acções colectivas e envolvimento dos países a nível mundial.

Para a estabilização do clima, a emissão de GEE deve ser nula. Tendo sido um dos primeiros subscritores do Acordo de Paris, Portugal tem procurado cumprir os seus limites de emissão e para isso não tem faltado o investimento em energias renováveis, em transportes alternativos, na eficiência da reutilização de produtos e até na implementação de uma eco.nomia com alta eficiência de produção e largo ciclo de vida. É sabido que a Península Ibérica é uma das regiões da Europa que será potencialmente mais afectada pelas alterações climáticas, enfrentando uma variedade de impactos que têm já vindo a ser sentidos como aumentos na frequência e intensidade de secas, inundações, cheias repentinas, ondas de calor, incêndios rurais, erosão e galgamentos costeiros. São por isso de louvar os esforços que vários municípios têm realizado para se adaptarem às alterações climáticas, com o apoio de projectos como o ClimAdaPT.Local e Programa AdaPT. Na sequência dos resultados obtidos e no âmbito da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas foi recentemente objecto de consulta pública o Programa de Acção para a Adaptação às Alterações Climáticas. Este programa assenta na implementação de medidas de adaptação com vista à redução das principais vulnerabilidades presentes no território nacional. Infelizmente, carece de planos de mitigação, ou seja, de acções a implementar para prevenir os riscos ambientais e reduzir os impactes ecológicos, sociais e económicos das alterações climáticas. Por outro lado, e à semelhança do que se tem verificado noutros programas, a fiscalização e o desenvolvimento de medidas de eficácia dos planos não estão contemplados.

A redução dos incêndios rurais e florestais, elevada fonte de emissão de GEE, está no topo da lista deste programa. Um dos objectivos é aumentar a resiliência da floresta aos incêndios. Mas quando se analisam as propostas fica apenas a desmatação como medida generalizada a adoptar. Acções como controlo e erradicação de espécies exóticas e plantação com espécies autóctones e tolerantes à seca deviam estar contempladas e poderiam, juntamente com a desmatação cuidada, apoiar a florestação como medida de mitigação das alterações climáticas. É tempo de se interiorizar que uma das mais importantes ferramentas de descarbonização é a reflorestação. E importa lembrar que a resiliência da floresta aos incêndios depende da diversidade genética e da complexidade de interacções de espécies presente. Esta interacção entre diversidade de plantas e animais é responsável pelos serviços do ecossistema e vai depender da qualidade do solo e do tipo de gestão exercido. A formação de técnicos e a sua distribuição por todo o território é fundamental para que estas acções tenham consequência e não sejam apenas acções avulso e sem fiscalização.

Medidas para conservar e melhorar a fertilidade do solo são outra das apostas deste plano. Mas, mais uma vez, são omissas acções que visem a redução do pisoteio do gado, favorecendo a pecuária extensiva em relação à intensiva, com redução do encabeçamento de acordo com a área e a situação. Apenas recentemente se soube da medida polémica sobre a redução de gado bovino, que é sabido ser largamente responsável pela emissão de GEE. Mais uma vez se pode questionar esta potencial medida, sem suporte por parte dos produtores e acima de tudo sem a compreensão da sociedade. Importa reduzir a quantidade de carne presente na dieta dos portugueses, mas estas são medidas transversais a muitos profissionais que devem actuar em conjunto para poderem ser compreensíveis e efectivas nos resultados.

A biosfera está ameaçada e a sua sustentabilidade depende de acções colectivas dos diferentes países. Mas, para além da implementação de medidas, será necessário estimular a informação nos media e a formação de quadros, para que todos, dentro da sociedade, possam contribuir efectivamente para evitar a tragédia anunciada.