Vítimas do shutdown nos EUA sentem-se "peões num xadrez político"

Muitos trabalhadores já começaram a pedir ajuda aos seus estados para fazerem face à falta de rendimentos, e a comissão do Senado que distribui as verbas públicas diz que o impasse pode arrastar-se por "vários meses".

Uma funcionária cola um cartaz com um aviso sobre o encerramento dos museus Smithsonian
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Uma funcionária cola um cartaz com um aviso sobre o encerramento dos museus Smithsonian LUSA/ERIK S. LESSER

À medida que o encerramento de vários departamentos públicos norte-americanos se prolonga sem fim à vista, milhares de funcionários que foram obrigados a ficar em casa ou a trabalhar sem salário garantido começam agora a sentir os piores efeitos da falta de acordo entre o Presidente Donald Trump e o Partido Democrata. Na última semana, o número de pedidos de subsídio de desemprego subiu em vários estados, e o líder da comissão do Senado que distribui as verbas públicas já avisou que a situação pode arrastar-se por "vários meses".

Ao todo, o encerramento parcial dos serviços públicos norte-americanos afecta 25% das agências, num total de 800 mil funcionários – os outros 75%, que dão trabalho a mais de um milhão de pessoas, viram os seus orçamentos anuais aprovados no ano passado e não são afectados por este shutdown.

Refém do muro

Para que as coisas voltem à normalidade, é preciso que as duas câmaras do Congresso (a Câmara dos Representantes e o Senado) cheguem a acordo sobre que verbas devem ser atribuídas a cada sector afectado, para que possam manter-se a funcionar sem restrições até ao fim do ano fiscal, no último dia de Setembro.

Mas esse acordo não chega – para que o problema seja definitivamente resolvido, é preciso que o Presidente Donald Trump concorde com a proposta do Congresso e promulgue a lei.

O ponto da discórdia é a construção de um muro na fronteira com o México, uma das propostas mais emblemáticas de Donald Trump durante a campanha para as eleições presidenciais de 2016.

Na prática, o orçamento das agências públicas ficou refém desta batalha política: Trump só admite promulgar uma proposta saída do Congresso que inclua 5,6 mil milhões de dólares para que o Departamento de Segurança Interna possa começar a construir o muro, e o Partido Democrata só está disposto a ceder 1,3 mil milhões para reforçar as vedações existentes e outras medidas relacionadas com a segurança na fronteira, à excepção da construção de um muro.

Na quinta-feira, o presidente da comissão do Senado que gere o orçamento público, o republicano Richard Shelby, deu a entender que as negociações estão longe de aproximar a Casa Branca e o Partido Democrata: "Acho que não vamos avançar nos próximos tempos. Por outras palavras, não vejo como é que isto se possa resolver rapidamente." Mais tarde, numa conversa informal com alguns jornalistas, citada pelo site do jornal The Hill, o responsável disse que o shutdown pode arrastar-se por "meses e meses".

Esta sexta-feira, durante uma nova reunião na Casa Branca, o Presidente Trump terá dito – segundo o líder do Partido Democrata no Senado, Chuck Schumer – que o shutdown pode demorar "meses, ou até anos".

Pagar o carro, ou o gás?

Se isso acontecer, milhares de funcionários públicos vão deixar de conseguir pagar empréstimos e rendas, e muitos deles começaram a pedir ajuda aos seus estados para fazerem frente à falta de salário. Vários departamentos já disseram que não vão conseguir pagar o cheque que era esperado na próxima semana.

No passado, o Congresso acabou sempre por aprovar um pagamento retroactivo para os funcionários públicos forçados a ficar em casa ou a trabalhar sem salário, mas essa certeza não serve de grande alívio a quem pode ficar sem rendimentos durante meses. Para além disso, muitas pessoas que trabalham em empresas privadas que prestam serviços a departamentos públicos (como seguranças de museus, por exemplo) ficam de fora dessa medida do Congresso.

Segundo o jornal New York Times, só na área da capital dos EUA, Washington DC, cerca de 900 trabalhadores pediram o pagamento do subsídio de desemprego na última semana, por terem sido forçados a ficar em casa sem salário. Também no Maryland e no Colorado, por exemplo, quase mil trabalhadores tinham feito o mesmo pedido a meio da semana.

"Para mim, a questão é se pago o empréstimo do carro, ou a conta do gás ou do telefone", disse ao New York Times Tomas Kaselionis, um funcionário da Agência Federal de Emergências (FEMA, na sigla original). "São estas conversas que eu e a minha mulher vamos ter na próxima semana."

Outro funcionário público, Ray Coleman Jr., professor numa cadeia na Florida, disse que se sente como "um peão num jogo de xadrez político", referindo-se à batalha entre a Casa Branca e o Partido Democrata. E La-Shanda Palmer, uma funcionária da Agência de Segurança nos Transportes, em Filadélfia, disse que a sua única preocupação é voltar ao trabalho: "Acho que ninguém que trabalhe para o Governo quer saber se esse muro é construído ou não."

Propostas sem sucesso

Por agora não há sinais de que o problema venha a ser resolvido nos próximos tempos. No lado do Partido Republicano começam a ouvir-se algumas vozes contra a intransigência do Presidente Trump, mas o líder da maioria republicana no Senado foi claro: só aprovará uma proposta de orçamento que o Presidente Trump esteja disposto a assinar.

Ou seja, qualquer proposta saída do Congresso tem de incluir 5,6 mil milhões de dólares para a construção de um muro na fronteira com o México – algo que a líder da nova maioria do Partido Democrata na Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, já garantiu que não irá aceitar.

Nas últimas horas, dois senadores do Partido Republicano que podem vir a ter os seus lugares em risco nas eleições de 2020 sugeriram um caminho para desbloquear o impasse, mas na prática a proposta de ambos é igual à que foi aprovada na quinta-feira pelo Partido Democrata na Câmara dos Representantes – e que o líder da maioria do Partido Republicano no Senado, Mitch McConnell, descreveu como uma perda de tempo.

Os senadores Cory Gardner e Susan Collins propõem que todas as agências afectadas pelo shutdown, à excepção do Departamento de Segurança Interna, vejam os seus orçamentos aprovados até Setembro; e que as verbas para a segurança interna sejam desbloqueadas apenas até 9 de Fevereiro, sem dinheiro para a construção do muro. Até lá, dizem, as discussões sobre o muro poderiam continuar, mas sem que os funcionários das outras agências sejam também afectados.

Gardner, do Colorado, e Collins, do Maine, foram eleitos pelo Partido Republicano em estados onde a maioria dos eleitores se identifica com o Partido Democrata, e onde Hillary Clinton foi a candidata mais votada nas eleições presidenciais de 2016. Por isso, são dos mais activos na procura de uma solução para o shutdown, que é visto pelos eleitores do Partido Democrata como um capricho do Presidente Trump.