Marc Jacobs usa o sorriso de Nirvana e a banda mostra-lhe os dentes

A banda processou a marca norte-americana por usar um design semelhante ao logótipo em forma de cara sorridente na nova colecção "Bootleg Redux Grunge".

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A colecção de Marc Jacobs é uma reprodução daquela que o criador lançou em 1993, a altura na Perry Ellis D.R.

Os Nirvana estão a processar a Marc Jacobs International por infracção de direitos de autor, segundo avança a revista Forbes. A banda alega que a marca norte-americana copiou o seu logótipo com uma cara sorridente amarela para a usar numa colecção de roupa.

Em causa está a colecção "Redux Grunge", lançada em Novembro de 2018. É uma reprodução da colecção com inspiração grundge que o próprio Marc Jacobs criou em 1993 para a marca norte-americana Perry Ellis e inclui, além de vestidos florais soltos e peças em xadrez, uma série de peças com o famoso sorriso e a palavra "Heaven" (céu, em português), no lugar onde tipicamente está escrito Nirvana. A colecção foi mal recebida pelos críticos na altura, sendo que o criador abandonou a direcção criativa da marca pouco depois, escreve a Quartzy. Mas acabou por consagrar Marc Jacobs como um "jovem e ousado criador", com a capacidade de "canalizar a cultura para a moda". A sua marca epónima nasceu nos anos seguintes.

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À esquerda, uma t-shirt da loja de "merchandise" da Nirvana. À direita, uma das peças da colecção "Bootleg Redux Grunge", de Marc Jacobs. D.R.

A culpa é do "smiley face"

De acordo com o processo, o logótipo foi criado por Kurt Cobain em 1991 e registado com direitos de autor em 1993, sendo que a banda "usa o design e logótipo protegidos por direitos de autor desde 1992 para identificar a sua música e mercadoria licenciada" — por exemplo em produtos como T-shirts, chapéus e mochilas. 

A banda acusa a marca de usar um design semelhante ao “smiley face”, com apenas algumas pequenas alterações "que provavelmente não serão notadas pelo público" — por exemplo as letras "M" e "J" a substituir as cruzes dos olhos. Queixa-se ainda do uso "intencional" das mesmas imagens na promoção da colecção, como parte de "uma campanha alargada para associar toda a colecção 'Redux Grunge' com Nirvana, uma das fundadoras do género musical grundge, de forma a fazer a associação do grundge com a colecção mais autêntica".

Além das campanhas de marketing usarem recorrentemente a cara sorridente, algumas das mensagens partilhadas nas redes sociais e utilizadas nas próprias descrições de produto incluem versos e títulos de músicas dos Nirvana, fazendo uma associação directa à banda. No site da Marc Jacobs, por exemplo, um T-shirt é descrita como uma peça que "sure smells like teen spirit" (em tradução livre, cheira a espírito adolescente), sendo que Smells Like Teen Spirit é uma das mais famosas canções da banda, lançada em 1991. Um anúncio com o próprio criador a vestir a T-shirt com o sorriso é acompanhado pela frase "Come as you are" — outra música popular dos Nirvana, de 1992.

A banda acusa Marc Jacobs de ter agido de forma a induzir o público a pensar que a colecção tinha tido apoio dos Nirvana, quando não teve qualquer autorização. De acordo com a queixa, a marca foi notificada a 4 de Dezembro, tendo ignorado a requisição para cessar o uso do material protegido por direitos de autor. Assim, pedem compensação monetária, alegando que as acções da marca causaram "danos irreparáveis" e "ameaçam diluir o valor dos licenciamentos da Nirvana".

"Perdido no seu caminho"

Enquanto a colecção inicial da Perry Ellis foi altamente criticada — inclusive por Courtney Love, que numa entrevista à Women's Wear Daily diz ter queimado as peças de roupa que Marc Jacobs lhe enviou na altura —, desta vez foi recebida com entusiasmo pelo mundo da moda.​

Já a marca epónima, outrora considerada uma das mais influentes e cool do mundo da moda (associada a figuras como Sofia Coppola), tem vindo a perder relevância, de acordo com várias vozes. Steven Kurutz, do New York Times, por exemplo, diz que Jacobs "parece ter-se perdido no seu caminho". Em Janeiro de 2017, numa chamada de conferência com investidores, Bernard Arnault, CEO da LVMH, disse que estava "mais preocupado com Marc Jacobs [que faz parte do conglomerado de luxo] do que com o presidente dos Estados Unidos", de acordo com o Business of Fashion.