Noemie Freire, 30 anos, a primeira submarinista portuguesa
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Por mares nunca dantes navegados: Noemie é a primeira submarinista da marinha portuguesa

Há 105 anos que a marinha tem submarinos e há 105 anos que apenas homens os navegam. A primeiro marinheiro Noemie Freire, 30 anos, acaba de pôr fim a uma exclusão centenária. É ela a primeira submarinista da marinha portuguesa.

Foram precisos 105 anos até um submarino português ter uma militar a bordo. Noemie Freire, 30 anos é a primeira submarinista da Marinha Portuguesa, em mais de um século de existência destes navios em Portugal. A primeiro-marinheiro (assim mesmo, no masculino) foi a única mulher a ser admitida e a concluir o curso de especialização em submarinos, em Dezembro de 2018, e é agora a única militar na Esquadrilha de Subsuperfície onde prestam serviço 78 submarinistas.

“Não era que o curso estivesse fechado a mulheres”, começar por explicar Noemie Freire, ao P3. Ainda assim, só em 2017 é que a marinha incentivou as militares a concorrerem à especialidade, apesar de os submarinos já terem condições para isso há seis anos. Até aí, as “condições logísticas e de habitabilidade nos submarinos eram diferentes” e não preenchiam os requisitos de privacidade. Uma das justificações dadas era não haver uma cama por militar, o chamado “regime cama quente”: o submarino trabalha por turnos, seis horas a descansar e seis a trabalhar. Quando um submarinista se levantava da cama, o outro deitava-se. Agora, nos dois submarinos da classe Tridente, as camas podem estar mais frias, mas nelas já podem descansar também militares do sexo feminino.

Para Noemie, pôr fim a uma exclusão centenária é um mar de orgulho com ondas de naturalidade. “Aqui na marinha não há diferença entre género”, acredita. Fora nos fuzileiros e nos mergulhadores, onde as equipas são 100% masculinas, há mulheres e homens a “desempenharem as mesmas funções”, garante. “Somos militares, estamos cá para isso.” O que não quer dizer que Noemie não tenha já sido a única militar em algumas das missões nas fragatas. Até porque, dos mais de 7500 militares activos na marinha, apenas 10.7 por cento são do sexo feminino (percentagem que tem vindo a diminuir desde 2010). E em 2018, ainda houve outras estreias: em Maio, também a capitão-tenente Vânia Carvalho se tornou a primeira mulher a comandar um navio patrulha oceânico da marinha

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Entre 33 oficiais, sargentos e praças, Noemie vai ser, para já, a única mulher a bordo do NRP Tridente, que fez história também por ser o primeiro submarino português a atravessar o Atlântico e chegar à costa dos Estados Unidos da América.

Por agora, “o navio está pronto a sair a qualquer momento” mas ainda não há nenhuma missão à vista. Quando o momento chegar, Freire vai servir “na parte das operações”, o que engloba duas vertentes: as armas e o sistema de combate. Descreve-nos: está apta a operar equipamentos de guerra electrónica, captar imagens operacionais e colaborar em acções de manutenção dos sistemas de armas. No navio existem várias especialidades, desde condutores de máquinas, electricistas, pessoal da cozinha, maquinistas navais ou oficiais responsáveis pela plataforma.

Se se imaginava a ser uma deles? Correcção: a primeira delas? A então auxiliar de navegação tinha pouco mais do que “alguma curiosidade”. Há três anos foi conhecer um submarino por dentro, mas achava que não passava disso. Até que viu como era “navegar debaixo de água”. A convite da marinha, navegou quatro horas no NRP Arpão, o segundo submarino da classe Tridente — “Gostei da experiência, mas era o 13.º passageiro, não fazia nada”, ri-se —, e depois disso decidiu concorrer ao curso de especialização em submarinista. Na altura não estava sozinha. Mais duas militares aceitaram o desafio, mas apenas ela foi admitida e começou o curso em Dezembro de 2017. Em média, diz a Marinha, a taxa de desistência da especialidade ronda os 15 a 20%. Depois de concluir as provas teóricas e as mais de 900 horas de navegação exigidas, Noemie e mais seis militares juntaram-se em Dezembro de 2018 aos casos de sucesso.

A especialidade “foi o curso mais puxado” que fez nos 12 anos que soma na marinha. “Nos primeiros três meses tinha de estudar todos os dias”, relembra. “Não percebia nada da parte da mecânica, nem da electricidade” e todos os “alunaços” (e a "alunaça") têm de aprender a parte geral comum, antes de enveredarem por uma das áreas específicas.

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Nascida em Thiais, nos arredores de Paris, em França, Noemie estudou em Pombal desde os dez anos, foi desportista federada em kickboxing e, no final do secundário, na área de ciências, nenhum curso superior lhe “despertou interesse”. Quando aos 18 anos decidiu ingressar nas fileiras, sem família próxima nas forças armadas, a mãe, ri-se, ficou “com a lagrimazinha no olho”. “E o meu pai disse-me que eu não aguentava as cinco semanas de recruta.” Volta a rir-se: “Mas sempre gostei das séries da tropa e então fui para a tropa, pronto.” Admite que estava à espera de alguns momentos “à CSI” quando entre os três ramos das forças armadas escolheu a marinha por aquilo que chama “uma questão de altura” — não tinha a altura mínima para entrar na Força Aérea.

Fez o curso de formação de praças na especialidade de operações e até se voluntariar para a especialidade de submarino foi auxiliar de navegação em duas fragatas, no NRP Porto Real e no NRP Bartolomeu Dias. Agora, vai para debaixo da água. Este é só mais um dos vários desafios que superou na marinha, mas a maior dificuldade ainda se mantém desde o primeiro dia. Talvez de forma mais intensa desde há quatro anos, quando o filho nasceu. “É quando vamos para missões estar longe da família.” Até agora, um telefonema “ajudava a diminuir as saudades”. Já num submarino, não há telefonemas até todos atracarem em terra firme. “Não há nada que me assuste. A única diferença é que não se vê a luz do dia, não se sabe se está de dia ou de noite. Os acidentes podem acontecer na superfície e lá em baixo, mas somos todos profissionais e sabemos todos o que fazer.” O lema: “O navio sai para o mar com 33 e volta com 33 porque somos todos importantes.”