China aterra no lado oculto da Lua e marca o início de uma nova corrida lunar

Cinquenta anos depois da primeira visita humana à Lua, em Julho de 1969, na missão Apolo 11, vários países e empresas privadas estão a apostar no regresso à superfície lunar com robôs. A China deu agora um passo inédito nesse sentido: pela primeira vez, um veículo pousou do lado de lá da Lua. Os próximos capítulos incluem a construção de uma estação – internacional – em órbita da Lua.

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Ilustração artística do robô chinês que alunou esta quinta-feira China National Space Administration/EPA/Lusa
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Ilustração artística do módulo de alunagem chinês que alunou esta quinta-feira China National Space Administration/EPA/Lusa
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Imagem recolhida pela missão durante a alunagem China National Space Administration/EPA/Lusa
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Um modelo do módulo de alunagem e do seu robô WU HONG/EPA/Lusa

A China tornou-se nesta quinta-feira o primeiro país a pousar um módulo no lado oculto da Lua, o Chang’e-4 – o nome da deusa chinesa da Lua –, informou a televisão estatal chinesa CCTV. O módulo alunou no satélite natural da Terra às 10h26 em Pequim (3h26 em Lisboa), dando assim o pontapé de saída de uma corrida à Lua que se avizinha muito atarefada nos próximos anos. O passo seguinte está previsto já para Fevereiro: deverá ser lançado um robô lunar construído pela empresa israelita SpaceIL – o Beresheet –, que seguirá para o espaço a bordo do foguetão Falcon 9, da empresa SpaceX (do multimilionário Elon Musk).

Lançado a 8 de Dezembro do Centro Espacial de Xichang (no Sul da China), o Chang’e-4 entrou no último domingo em órbita da Lua, tendo ficado à espera do melhor momento para aterrar na Bacia do Pólo Sul-Aitken, a maior e mais antiga cratera lunar provocada por um impacto.

A alunagem foi “suave”, segundo descreveu um dos responsáveis pela concepção dos veículos, Sun Zezhou. Logo depois de ter tocado na superfície da Lua, a missão Chang'e-4, constituída por um módulo de alunagem (lander) e por um robô (rover) chamado Coelho de Jade-2, transmitiu as primeiras imagens do lado oculto da Lua, o lado que nunca vemos da Terra.

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Com um metro e meio de comprimento e um metro de altura, painéis solares e seis rodas, o Coelho de Jade-2 (ou Yutu-2 em mandarim) vai estudar a composição do solo do lado oculto (que se pensa ser diferente do lado visível) para se aprofundar um pouco mais a história do satélite terrestre. Também investigará a possibilidade de manutenção de vida na superfície lunar – a missão leva a bordo ovos de bichos-da-seda, sementes de batata e de outras plantas, escreve o jornal espanhol El País, com o objectivo de se observar a germinação, o crescimento e a respiração em condições de baixa gravidade. Investigar-se-á ainda a existência de água e de outros recursos neste pólo da Lua.

“Como o lado mais distante da Lua está protegido da interferência electromagnética da Terra, é o sítio ideal para estudar o ambiente espacial e as erupções solares, e a sonda consegue ‘ouvir’ os confins mais profundos do cosmos”, sublinhou Tongjie Liu, director adjunto do programa de exploração lunar e espacial da Administração Espacial Nacional da China, citado pela CNN.

Por ser o lado da Lua mais afastado da Terra, a missão obrigou a um esforço maior de preparação por parte da China, que em Maio do ano passado já tinha colocado em órbita da Lua um satélite de retransmissão (o Queqiao), para assegurar as comunicações (indirectas) entre o robô lunar Coelho de Jade-2 e os controladores na Terra.

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Esta não foi a primeira viagem da China à Lua: em 2013, o módulo Chang’e-3 ​alunou pela primeira vez, numa proeza só realizada até então pela antiga União Soviética e pelos Estados Unidos. E da Chang’e-3 saiu então o robô Coelho de Jade, que, no entanto, só funcionou alguns dias.

“A China está no caminho de se tornar uma nação espacial forte”, frisou à CCTV um dos responsáveis pela missão lunar, Wu Weiren, citado também pela CNN. Em Agosto, Wu Weiren explicou que o Coelho de Jade-2 tinha herdado muito do primeiro Coelho de Jade. “Trabalhámos muito para melhorar a sua fiabilidade, conduzimos centenas de testes para garantir a operação a longo prazo, tendo especialmente em consideração as rochas, ravinas e fricção na Lua.”

Afirmação política pela ciência

Esta alunagem do lado de lá da Lua representa não só um marco para a exploração espacial chinesa, mas, acima de tudo, uma afirmação política do país. Ilustra bem a sua crescente ambição no espaço, um símbolo de progresso.

Já este ano, a China planeia iniciar a construção de uma estação espacial permanente em órbita da Terra com presença de astronautas e, no próximo ano, tenciona enviar um veículo de exploração a Marte, nota a agência de notícias Lusa. De resto, já pôs em órbita da Terra duas pequenas estações espaciais (temporárias), em 2011 e depois 2016, chamando, a cada uma, Palácio Celeste (Tiangong).

Ainda em 2020, a China quer aumentar a família de sondas Chang'e, com o objectivo mais ambicioso de recolher amostras do solo lunar e de as trazer de volta para a Terra. A vinda para a Terra de amostras da Lua é algo que não acontece desde a década de 70 – mais exactamente, desde as famosas missões Apolo dos Estados Unidos, que entre 1969 e 1972 trouxeram cerca de 350 quilos de rochas, e a missão do veículo soviético Luna 24, que pousou no satélite natural da Terra em Agosto de 1976, recolhendo amostras de solo lunar e voltando com elas para a Terra. Desde então, a Lua foi orbitada por sondas de vários países, dos Estados Unidos à China, passando pela Europa, pelo Japão e pela Índia – e algumas até terminaram a sua vida com um impacto de propósito na superfície lunar, como a Smart-1 (da Agência Espacial Europeia) em 2006, a Selene (do Japão) em 2009 e as duas Grail (da NASA) em 2012.

A China não está só a afirmar-se politicamente a nível internacional no espaço. Está a fazê-lo através de toda a investigação científica, com a ambição de se tornar uma potência na ciência em geral. Vejamos alguns exemplos para lá do espaço.

Na Antárctida, já construiu cinco bases científicas, incluindo no interior do continente, onde a logística é tão complexa que isso é também uma afirmação de poder. Na área da astronomia, construiu o maior radiotelescópio composto só por um disco, de 500 metros de diâmetro: o FAST (sigla de Five-hundred-metre Aperture Spherical Radio Telescope), que começou a funcionar em 2016. Nos oceanos, entre outros submersíveis tripulados, tem um veículo capaz de mergulhar até sete mil metros (Jiaolong) e está a desenvolver dois submersíveis para descerem até ao ponto mais profundo dos oceanos, a 11 mil metros. Para terminar, alberga um dos principais centros de genética do mundo, o BGI, conhecido antes como Instituto de Genómica de Pequim.

Ainda esta quarta-feira, a revista Nature trazia uma notícia sobre o número de publicações científicas no mundo inteiro entre 2017 e 2018, em que a China (mais de 350 mil artigos no ano passado) surge logo atrás dos Estados Unidos (mais de 400 mil). O número de publicações científicas da China aumentou cerca de 15% entre 2017 e 2018.

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Ilustração artística do módulo de alunagem Chang’e-4 China National Space Administration/EPA/Lusa

Uma estação orbital lunar

Regressando à Lua, a missão Chang'e-4 não é das mais complicadas no espaço, bastando para tal pensar, por exemplo, na aterragem num objecto tão pequeno como um cometa em 2014, uma proeza inédita na história da exploração espacial com os louros para a Agência Espacial Europeia (ESA). “Esta missão é algo que a China pode usar como instrumento para mostrar a sua influência enquanto potência. É muito importante para a China mostrar que é capaz de fazer coisas pela primeira vez. Quer mostrar que pode dar contributos válidos na área do espaço, que faz parte do clube”, comenta ao PÚBLICO Tiago Hormigo, fundador da empresa aeroespacial portuguesa Spin.Works.

“Do ponto de vista científico, também pode ser interessante”, acrescenta o engenheiro aeroespacial. “A análise de amostras do lado de lá da Lua, onde ninguém tinha aterrado antes, pode ser interessante para caracterizar as diferenças entre o lado oculto e o lado permanentemente voltado para a Terra.”

Com esta missão, a China dá assim o primeiro passo de uma nova corrida à Lua, por sinal na altura em que vão assinalar-se os 50 anos da chegada dos primeiros seres humanos à Lua, a 21 de Julho de 1969, na missão Apolo 11 – Neil Armstrong e Edwin Buzz Aldrin. Há meio século, essa corrida ao espaço foi marcada pela Guerra Fria entre os Estados Unidos e a então União Soviética.

Já no próximo mês, Tiago Hormigo menciona que a empresa israelita SpaceIL lançará um lander para a Lua, que será levado para o espaço pelo foguetão Falcon 9. “Há uma corrida à Lua e essa será a primeira tentativa de uma série de tentativas de empresas internacionais.” A empresa japonesa Ispace, as norte-americanas Astrobotic e Moon Express e a alemã PTscientists estão também a desenvolver veículos lunares, já a pensar em missões entre este ano e 2021, destinadas ao lado de cá da Lua. “Para já, será para fazer demonstrações e, depois, começarão a vender os serviços de transporte.”

Tudo faz parte de um roteiro internacional para regressar em força à Lua, cuja última actualização foi divulgada no início do ano passado. “É um roteiro entre diferentes agências espaciais, incluindo a chinesa, para se fazer uma exploração de forma coordenada da Lua”, explica Tiago Hormigo. Entre as 14 agências espaciais envolvidas neste roteiro elaborado pelo Grupo Internacional de Coordenação da Exploração Espacial (ISECG), além da agência chinesa, encontra-se a NASA, a ESA ou a russa Roscosmos. “Há muitos anticorpos do ponto de vista estratégico à colaboração entre os Estados Unidos e a China, assim como em tempos houve com os soviéticos e depois passaram a trabalhar em conjunto. São vistos como adversários estratégicos, com quem os Estados Unidos não estão à vontade para partilhar o uso de tecnologias avançadas.”

A última actualização do roteiro, sublinha Tiago Hormigo, trouxe uma novidade: “Abriu-se a colaboração não só a um número alargado de países como aos privados, o que não existiu em nenhum outro plano. A participação dos privados pode fazer a diferença. O roteiro deixa de ser determinado pelas agências espaciais, que ou querem ou não querem estar a bordo.”

Quanto à NASA, a sua aposta vai para a compra de acesso a módulos de alunagem e robôs lunares desenvolvidos por empresas privadas através do programa Commercial Lunar Payload Service, com 2600 milhões de dólares para os próximos dez anos, adianta o engenheiro aerospacial português. “A NASA vai comprar o acesso a vários landers privados, que estão a ser construídos. À medida que os anos vão avançando, os landers para transportar carga para a superfície da Lua serão maiores até que algumas naves serão construídas para levar humanos.”

Este roteiro de regresso à Lua também inclui uma estação espacial internacional em órbita do satélite natural da Terra – a Deep Space Gateway. Será o passo seguinte à actual Estação Espacial Internacional (ISS), em que a China não participa. O primeiro módulo da Deep Space Gateway, para a propulsão e energia da estação, deverá ser lançado por volta de 2022 ou 2023, avança Tiago Hormigo. “Neste momento, há uma oposição de princípio dos Estados Unidos, ainda por cima com Trump, mas não é claro que a China não venha a estar presente na Gateway.”

Independentemente de participar ou não numa estação orbital na Lua, a China está a correr para lá, tal como outros países. Lua, aí vamos nós – outra vez?