Crítica

A professora e o miúdo poeta

Uma forma não muito óbvia de explorar o tema do abuso infantil, ainda que marginalmente e sem ambiguidades de ordem sexual.

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A Educadora de Infância mostra uma relação que vive de vários cambiantes que nunca se fixam
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A Educadora de Infância, que é um remake americano de um filme israelita de Nadav Lapid, vive essencialmente da complexa personagem de Maggie Gyllenhaal, que é impecável na construção de uma personagem ambígua e, mais do que apenas isso, instalada psicologicamente (ou até moralmente) numas águas turvas que não são a coisa mais comum no cinema americano da actualidade. Eis, portanto, a história de uma professora, de ambições artísticas ou literárias frustradas, e da sua relação com um miúdo que tem o dom de gerar, quase espontaneamente, poemas suficientemente interessantes para que um adulto se “aproprie” deles.

É o que faz a personagem de Gyllenhaal, numa relação que vive de vários cambiantes que nunca se fixam (e que são, por sua vez, o centro do filme): é maternal, é abusadora, é protectora, é exploradora, é, finalmente, raptora. Sara Colangelo, a realizadora, dirige tudo isto sem nenhum brilho especial mas com inegável inteligência: mesmo as “derivas” (a relação de Gyllenhaal com as outras personagens, sobretudo a família) têm o condão de, pouco a pouco, ir acrescentando mais camadas ao retrato da professora, e de salientar a estranheza que é o único lugar possível na relação do espectador com ela. É uma forma não muito óbvia de explorar o tema do abuso infantil, ainda que marginalmente e sem ambiguidades de ordem sexual. Mas sobretudo é um estudo de personagem, dado numa complexidade abrangente e contraditória, que não tem estado muito na agenda dos filmes americanos de grande circulação. Um sólido “filme de actores”, ou neste caso “de actriz”, e dizemo-lo pensando no melhor sentido da expressão.