Louis C.K. faz nova tentativa de regresso, mas humor sobre tiroteio de Parkland motiva fortes críticas

“Podem ficar ofendidos. Podem ficar zangados comigo”, diz o comediante apanhado na vaga #MeToo em actuação com o seu habitual tom cáustico. Sobreviventes e pais de vítimas indignados. “Louis C.K. agora é só medo e amargura”, diz realizador Judd Appatow.

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Louis C.K. Kevork Djansezian/Reuters

O comediante Louis C.K., que em 2017 foi um dos nomes acusados (e autor confesso) de assédio sexual e conduta imprópria no ambiente de trabalho, voltou aos palcos pela terceira vez para fazer um número de stand-up sobre o tiroteio de Parkland e sobre a identidade de género que está a causar nova polémica em torno da sua figura. Uma gravação da actuação, datada já de 16 de Dezembro, foi colocada na Internet durante o fim-de-semana e tornou-se motivo de indignação.

“Vocês não são interessantes [só] porque andam numa escola onde foram alvejados miúdos. Por que é que isso significa que tenho de vos ouvir? Por que é que isso vos torna interessantes? Vocês não levaram um tiro. Empurraram um miúdo gordo para a frente e agora tenho de vos ouvir a falar?”, pergunta ironicamente Louis CK numa sequência que está a ser associada à ida de alguns dos sobreviventes do tiroteio de Parkland, em que morreram 17 pessoas, ao Congresso norte-americano. As tiradas sobre os jovens que se tornaram activistas do controlo de armamento nos EUA foram recebidas com gargalhadas entusiásticas.

“O que é que eles estão a fazer? Vocês são jovens! Vocês deviam ser doidos! Vocês deviam ser desequilibrados! Não deviam estar de fato...”, começara a sua actuação de 16 de Dezembro no Governor’s Comedy Club, em Levittown, Long Island, segundo os utilizadores que divulgaram a gravação. As suas primeiras actuações-surpresa (ou aquelas de que há registo mediático) tiveram lugar também na região de Nova Iorque, mas em clubes mais centrais.

Também a propósito dos mais jovens e da possibilidade de usarem o pronome neutro “they” (que em português assume as variantes "eles" e elas") em vez de “he" ("ele”) ou "she" (“ela”), para melhor reflectirem a sua identidade de género, o humorista brincou: “São como se fossem realeza! Dizem-nos o que lhes chamar. ‘Devem referir-se a mim como eles porque me identifico como género neutro”, continuou, pedindo: “Devem referir-se a mim como 'ali' porque me identifico como um lugar e o lugar é a cona da vossa mãe.”

Louis C.K. nunca fez comédia bem comportada e o seu tom sempre foi cáustico. Como resumia o New York Times na segunda-feira, sempre forçou os limites em palco. No caso, a reacção da audiência não é de desagrado, um pouco como nas ocasiões anteriores, em que algumas pessoas saíram da sala quando subiu ao palco mas muitas outras assistiram divertidas ao espectáculo. Há quem grite que o adora. Nas redes sociais, de resto, também se multiplicam as reacções de apoio. Mas o carácter delicado dos temas em causa e a ligação do humorista ao caso MeToo estão a filtrar a reacção de muito do público. A certa altura, C.K. faz uma piada sobre sexo com uma criança. “Já agora, eu sei que sexo com crianças é errado. Fazer piadas sobre isso não é, obviamente”, recorda sobre as fronteiras sempre elásticas do humor.

Durante o número, de cerca de 50 minutos, o comediante não ignora o risco dos temas escolhidos. “O que é que vão fazer? Tirar-me o dia de anos? A minha vida acabou. Estou-me a cagar”, disse. “Podem ficar ofendidos. Podem ficar zangados comigo.”

Alguns sobreviventes de Parkland e os pais de algumas das vítimas ficaram ofendidos. “A minha filha foi morta no tiroteio de Parkland. O meu filho fugiu das balas. A minha mulher e eu lidamos com a perda todos os dias. Por que é que não vem a minha casa e testa as suas novas piadas patéticas?”, convidou Fred Guttenberg no Twitter. Aalayah Eastmond, uma sobrevivente que se voltou para o activismo, twittou: “Já que gosta de fazer troça de mim e de outros sobreviventes de Parkland à porta fechada, estou aqui se quiser falar. Tente só manter a braguilha fechada, ok?”.

Tudo começara com a pergunta: “Que tipo de ano tiveram vocês? Aposto que nenhum de vocês teve o mesmo ano que eu tive. Já tiveram um ano mau inteiro?”. O comediante não mencionou directamente a causa desse mau ano, quando uma investigação do New York Times no âmbito da vaga pós-Weinstein deu voz a cinco humoristas que denunciaram como Louis C.K. se masturbou à frente delas, sem que lhe tivessem permissão, em encontros de trabalho ou de convívio. O caso motivou o fim da sua série homónima, o cancelamento da estreia do seu novo filme nos EUA (em Portugal teve uma estreia discreta) e a retirada dos seus especiais de stand-up do Netflix.

Os seus colegas de profissão também ficaram zangados com a escolha de alguns temas. O realizador e argumentista Judd Apatow escreveu no Twitter que o número não teve piada e que o considerou “só um sintoma de como as pessoas têm medo de sentir empatia": "É muito mais fácil de rir dos nossos [concidadãos] mais vulneráveis do que olhar directamente para a sua dor e mostrar-lhes amor e preocupação. Louis C.K. agora é só medo e amargura.” Outro comediante, Andy Richter, questionou a qualidade da comédia e também a sua origem. “Sabem qual é o pior e mais entediante tipo de comédia? O tipo em que homens brancos mais velhos estão zangados porque os homens brancos mais velhos já não podem fazer ou dizer o que raio querem.”

Em 2017, o humorista de 51 anos admitiu os actos de que era acusado e prometeu que iria ocupar o seu tempo “a ouvir”. Nos últimos meses, tem ensaiado um regresso ao activo com actuações não agendadas em clubes de comédia nos EUA.

Na última semana, outro nome do espectáculo cujas alegadas práticas de assédio e agressão sexual o colocaram no centro do furacão #MeToo protagonizou um vídeo na pele da sua mais recente personagem emblemática que motivou uma barragem de críticas: na véspera de Natal, antecedendo a sua presença numa primeira audiência (dia 7 de Janeiro) por alegada agressão sexual a um jovem de 18 anos, Kevin Spacey divulgou um vídeo provocador. E no domingo foi filmado a entregar uma piza a um paparazzo que o aguardava em Baltimore.

O catalisador involuntário do movimento de combate ao assédio, Harvey Weinstein, também deve voltar a tribunal em breve depois de ter sido divulgado um email da sua conta pessoal em que lamentava: “Tive um ano do inferno. O pior pesadelo da minha vida”. As suas mais recentes manifestações têm sido vistas como fazendo parte de uma operação de relações públicas que pretende mostrar o alegado agressor como vítima de tratamento tendencioso.

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