Trump já tem um adversário em 2020: Elizabeth Warren

A corrida está aberta, agora que já há um nome de peso em jogo. A conhecida senadora do Massachusetts quer garantir a dianteira entre os democratas.

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EPA/CJ GUNTHER

A senadora democrata do Massachussets Elizabeth Warren acaba de se tornar na primeira política de peso a declarar a intenção de se candidatar às eleições presidenciais de 2020 nos Estados Unidos.

Com um vídeo a meio caminho entre a biografia e um programa económico divulgado online na véspera de Ano Novo, Warren coloca-se na dianteira dos vários membros do Partido Democrata que deverão tentar a candidatura.

A classe média da América está sob ataque”, diz no vídeo a senadora a quem o Presidente Donald Trump chamou várias vezes Pocahontas – isto porque ela diz ter antepassados nativo-americanos. Entretanto, e depois de uma longa polémica, em Outubro apresentou os resultados de um teste de ADN que provam com grande probabilidade a existência de um distante antepassado na sua árvore genealógica.

“Como é que aqui chegámos?”, pergunta Warren. “Os bilionários e as grandes corporações decidiram que queriam mais uma parte do bolo e recrutaram políticos para lhes cortar uma fatia mais gorda”, afirma, tocando nas suas habituais críticas aos grandes bancos e corporações.

Warren anunciou que está a criar um comité exploratório – legalmente, esse é o primeiro passo para entrar numa corrida presidencial. Fá-lo num momento em que “outros candidatos, incluindo alguns dos seus colegas senadores, ultimam os preparativos para os seus próprios anúncios, alguns dos quais se esperam para os próximos dias”, escreve o diário The Washington Post.

Até agora, só declararam interesse em concorrer dois políticos menos conhecidos, o republicano do Maryland John Delaney, e Julián Castro, antigo mayor de San Antonio, democrata que também foi secretário de Barack Obama para a Habitação e o Desenvolvimento Urbano – aconteceu no segundo mandato do ex-Presidente; Castro, hoje com 44 anos, era o membro mais novo da Administração.

Da infância à Casa Branca de hoje

No vídeo divulgado por Elizabeth Warren, episódios da sua infância dura em Oklahoma (teve de servir à mesa aos 13 anos para ajudar a pagar as contas médicas do pai, que sofrera um ataque cardíaco) são intercalados com gráficos que ilustram a perda de poder de compra por parte da classe média, imagens de Trump e de alguns dos seus assessores de que os liberais menos gostam, incluindo Stephen Miller, o autor, entre outras, da política que levou à separação das crianças que entram de forma irregular pela fronteira mexicana dos familiares que com elas viajavam.

Kellyane Conway, que foi directora da campanha do actual Presidente e é sua assessora desde Agosto de 2016, aparecendo com frequência nos média a defender as opções de Trump, também tem o seu lugar no vídeo.

O momento em 2016

Para além do episódio do teste de ADN, ao qual não se faz qualquer referência nesta apresentação de candidatura, os seus apoiantes temem que também tenha perdido terreno com os resultados das eleições de Novembro, quando o sucesso dos democratas, que reconquistaram a Câmara dos Representantes, se ficou a dever a candidatos que em muitos casos pertencem a uma geração mais nova.

“Warren perdeu o seu momento em 2016, e há razões para sermos cépticos face à sua possível candidatura em 2020”, escreveu este mês em editorial o jornal Boston Globe, da cidade que se espera venha a ser a sede de campanha da senadora. “Apesar de ser uma senadora eficiente e com impacto, e uma voz importante em termos nacionais, tornou-se uma figura divisiva. O que o país precisa depois das políticas de polarazição de Donald Trump é de uma voz unificadora.”

Mas aos 69 anos, a ex-professora de Direito não deixa de ser uma grande candidata. Para além da sua comprovada formidável capacidade de recolher fundos de pequenos doadores, tem uma facilidade em criar momentos virais que a colocam no centro das atenções.

“Persistirmos juntos”

Num episódio em Fevereiro de 2017, quando foi impedida de criticar o então candidato de Trump a attorney general (equivalente a ministro da Justiça), Jeff Sessions (entretanto demitido), no Senado, desencadeou uma vaga de apoio nas redes sociais simbolizada pelo hashtag #shepersisted.

Warren queria ler uma carta da viúva de Martin Luther King no debate sobre a nomeação de Sessions. O líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, impediu-a: “Ela foi avisada. Recebeu uma explicação e, mesmo assim, ela persistiu [na leitura da carta de Coretta Scott King de 1986, onde esta criticava Sessions, nomeado na altura para juiz federal]”, afirmou para justificar a votação que se seguiu, e com a qual os republicanos conseguiram impedir que a democrata voltasse a tomar a palavra.

Ora, foi precisamente o facto de ela ter “persistido” que foi sublinhado no apoio que originou. “Mesmo assim, ela persistiu” transformou-se num grito em comícios e manifestações de americanos liberais.

Entretanto, lembra o Washington Post, passou este ano a apoiar candidatos ao Congresso um pouco por todo o país, montando “um gabinete de guerra” na suas sedes de campanha para a reeleição no Senado que permitiu “mentorar, ajudar e recolher dinheiro para outros candidatos ao Congresso ou a cargos locais, criando alianças no processo”.

“Passei a minha carreira a tentar ir ao centro da resposta, perceber porque é que a promessa da América funciona para algumas famílias, mas para outros que trabalham tão duro lhes escapa das mãos, entre as fendas abertas por um desastre”, afirma a agora candidata às primárias democratas. “O que encontrei é aterrador. Não é em fendas que as famílias caem, é em armadilhas.”

Warren foi eleita para o Senado em 2012, derrotando Scott Brown e recuperando um lugar ocupado antes por Edward M. Kennedy. Ao fazê-lo, tornou-se na primeira mulher senadora do Massachusetts​. O vídeo divulgado esta segunda-feira termina com Warren na cozinha da sua casa, em Cambridge, no seu estado: “Se nos organizarmos juntos, se lutarmos juntos, se persistirmos juntos podemos vencer. Podemos e vamos vencer.”