Aos 70 anos, o Teatro Universitário do Porto vive numa casa provisória

Em Junho, a companhia de teatro mudou-se temporariamente para a rua dos Bragas, onde chove e não há água potável. A mudança definitiva inicialmente prevista para a rua da Boa Hora está mais longe de se concretizar. Entretanto, o TUP espera por uma solução.

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Adriano Miranda
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Nalguns dos corredores e nalgumas salas das instalações provisórias do Teatro Universitário do Porto (TUP), na rua dos Bragas, para onde o grupo se mudou em Junho, ainda há caixas por abrir de material que reúne 70 anos de história desta companhia amadora. A estadia neste espaço contíguo à Faculdade de Direito, onde funcionava o CIIMAR até se mudar para o Terminal de Cruzeiros de Leixões, ia ser curta. Porém, o prazo para nova mudança, desta vez definitiva, já expirou. A solução poderá passar por reabilitar as instalações inicialmente pensadas como sendo provisórias.

Em Junho de 2017, o grupo teve de abalar do edifício do antigo colégio Almeida Garrett, na praça Coronel Pacheco, onde esteve durante cerca de oito anos, por força da venda do imóvel, com a promessa de que em Novembro deste ano, do sítio onde ainda estão hoje, passariam para um definitivo, na rua da Boa Hora, onde funcionaram os Serviços de Acção Social da Universidade do Porto (SASUP).

O compromisso foi selado pela reitoria da Universidade do Porto (UP) ainda no mandato de Sebastião Feyo de Azevedo, que em final de Junho, após eleições renhidas, passou a pasta a António Sousa Pereira. Muda o corpo reitoral, mudam as estratégias. Após sete décadas de existência, celebradas neste mês de Dezembro, o TUP continua a não ter uma morada definitiva. E é quase certo é que as antigas instalações do SASUP não serão o destino definitivo da companhia de teatro.

Presidente da direcção do TUP desde 2017, Daniela Araújo Braga, na companhia há quatro anos, recebeu o PÚBLICO nas instalações da rua dos Bragas, na semana em que grupo de teatro fundado a 13 de Dezembro celebrava 70 anos. É ali que a companhia tem estado a trabalhar desde a segunda metade de 2018. Na sala de ensaios, a única que lá existe, há sinais do trabalho quotidiano. Naquela semana, havia quatro apresentações programadas, duas no auditório da UPTEC e outras duas no auditório da reitoria. De resto, durante o ano há ensaios diários, de segunda a sexta-feira, das 9h à meia-noite.

Há excepção dessa área, todo o espaço restante parece apenas estar a servir de armazém para o material que em dois dias de Junho foi transportado de Coronel Pacheco para ali. Há caixotes de cartão que guardam figurinos e material cenográfico com décadas – alguns dos anos 1950. Explica a presidente do TUP que nunca se abriram as caixas por dois motivos: “primeiro porque estaríamos aqui temporariamente e depois porque aqui não temos condições de guardar o material garantindo a sua conservação”.

Instalações sem água potável

A falta de salas para guardar figurinos e material cenográfico é uma das lacunas deste espaço que afinal não será usado apenas por alguns meses, como seria esperado. “Outro problema é não ter condições dignas não só para o TUP como para qualquer pessoa que o ocupa”, sublinha. Há pelo menos duas áreas interiores onde, de acordo com a responsável, chove. Refere ainda existirem “infiltrações” de humidade. Outro problema “grave” destas instalações é não dispor de água potável.

Quando em Junho o novo corpo reitoral entrou em funções, o TUP reuniu com a nova equipa para verificar se o que fora prometido anteriormente teria efeito neste novo mandato. “Quando o corpo reitoral anterior nos garantiu que este seria apenas um espaço provisório e que finalmente o TUP iria ter uma casa definitiva, após alguma desconfiança, acreditamos que estavam reunidas as condições para que se viesse a materializar”, afirma. Após a reunião, o optimismo deu lugar a algum cepticismo. “Marcaram nova reunião para Setembro e disseram-nos que iam analisar a questão”, recorda.

Em Setembro, quando se reuniram com a vice-reitora da Cultura, Fátima Vieira, e com o responsável pelo pelouro do Património, António Cardoso, terá sido comunicado ao TUP que o edifício da rua da Hora já não estaria disponível, por ser vendável. Como alternativa estaria a ser estudada a hipótese de se reabilitar o edifício da rua dos Bragas, de forma a prepará-lo para acolher o TUP e outras entidades ligadas à UP, criando um pólo agregador onde funcionariam também o Núcleo de Etnografia e Folclore da Universidade do Porto (NEFUP) e o JUP - Jornal Universitário do Porto.

Ainda que não se oponha a esta solução, a presidente do TUP, entende que, durante este período de espera indefinido, o trabalho da companhia pode sair penalizado. Para o espaço funcionar em pleno necessitam de uma série de condições das quais usufruíam quando estavam no colégio Almeida Garrett.

As mais urgentes, segundo a responsável, passam por terem disponíveis salas para guardar, construir e recuperar figurinos e cenários, uma área com temperatura adequada para guardar o espólio e duas salas de ensaio – uma para o TUP e outra para ceder a outras entidades da cidade a quem prestam apoio logístico. Essencial, considera, é que o edifício disponha de um auditório próprio, como acontecia quando estavam no sector do edifício Almeida Garrett com entrada pela travessa de Cedofeita.

Ainda que não afaste categoricamente a hipótese de o TUP se mudar para a rua da Boa Hora, a reitoria da UP, contactada pelo PÚBLICO, afirma que essa hipótese está mais longe de se tornar viável. Não havendo prazos estipulados, confirma estar a ser estudada uma solução que passa pela criação de um polo agregador de várias entidades da UP, incluindo o TUP, no edifício da rua dos Bragas.

Enquanto isso, o TUP continua a não ter uma morada definitiva. “Se pela primeira vez conseguimos estreitar as relações com o pelouro da Cultura, continuamos a ter dificuldades em chegar ao sector do Património”, afirma a presidente da companhia.