Crítica

Um tempo de subtileza para Gaye Su Akyol

O título do álbum significa algo como “fantasia consistente é realidade”. — Como quem diz que tem de se criar “uma outra realidade” para suportar as regras que vigoram sob a deriva autoritária do Presidente Erdogan.

Gaye Su Akyol logrou não se tornar vítima da explosão internacional alcançada pelo anterior disco
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Gaye Su Akyol logrou não se tornar vítima da explosão internacional alcançada pelo anterior disco Yigit Ozer

No arranque de Istikrarli Hayal Hakikattir, a cantora turca Gaye Su Akyol atira-nos um osso. E nós abocanhamo-lo, plenos de entusiasmo e de contentamento. Mas não demora até que percebamos que fomos enganados. Se o tema que dá nome ao álbum segue pelos caminhos de um surf rock (aspergido de psicadelismo) nas margens do Bósforo, esse mesmo figurino que Gaye Su Akyol fixou com espanto e mestria em Develerle Yasiyorum (2014) e Hologram Imparatorlugu (2016), amparada por uma banda soberba — cuja vida autónoma, sem cantora, certificada com o nome Bubituzak, não é menos fascinante —, essa que era a marca distintiva da sua música aparece agora menos proeminente. Vem à frente só para garantir que continuamos com Gaye, mas leva-nos depois para um outro cenário, em que tudo se torna mais subtil e difuso.

Talvez porque o tempo hoje a isso obriga. Em entrevista recente à revista inglesa Songlines, Ali Güçlü Simsek, guitarrista, produtor e namorado de Gaye Su Akyol, falava da opção da banda em apresentar-se em palco atrás de máscaras como uma forma não apenas de concentrar as atenções na figura de super-heroína espaventosa da cantora, mas também de “sugerir dissimulação”, algo “idealmente adequado a estes dias em que na Turquia revelar em absoluto a nossa identidade e os nossos propósitos pode garantir alguma atenção indesejada das autoridades conservadoras e pró-islâmicas”. Daí que, embora desacelerando nessa via de surf rock com claro travo turco e devedor das sonoridades do rock psicadélico da Anatólia (conforme sonhado por Baris Manco ou Erkin Koray), se mantenha a necessidade escapista providenciada pela música. O título do álbum, aliás, explica Su Akyol, significa algo como “fantasia consistente é realidade” — como quem diz que tem de se criar “uma outra realidade” para suportar as regras que vigoram sob a deriva autoritária e persecutória do Presidente Recep Tayyip Erdogan.

Em termos musicais, o que isto significa é que Istikrarli Hayal Hakikattir é notavelmente eficaz a mergulhar em águas mais profundas. Todo o imaginário criado pela cantora enquanto passo adiante numa canção turca herdeira da tradição das vozes revolucionárias como a de Selda Bagcan surge agora em ambientes que se impõem carregando no mistério e sem recorrer ao mesmo frenesim que antes vigorava. O encanto imenso de Gölgenle Bir Basima é um perfeito exemplo: toda uma canção vagarosa que se insinua e nos vai enleando pouco a pouco, até não nos oferecer qualquer possibilidade de fuga. É um transe em lume brando, de uma sedução sublime, mas que parece montar-nos uma armadilha da qual, quando nos apercebemos, já não conseguimos libertar-nos, eliminando qualquer porta de saída.

Logo a seguir, Meftunum Sana, sem fazer uso da mesma qualidade quase dissimulada, ou Sahmeran, imaginando uma fronteira inexistente entre Turquia e México, acentuam essa ideia de que Gaye Su Akyol, sabiamente, logrou não se tornar ela própria vítima da explosão internacional alcançada pelo anterior Hologram Apparatu. Teria sido fácil alimentar as boquinhas ocidentais ávidas de uma dose de revolta turca em formato rock local de uma outra clareza; mas este disco em que a Turquia aparece por detrás de uma névoa, como se esfumasse e passasse a ser quase o holograma de que antes falava Gaye, recusa alimentar um cliché geográfico. Não fugindo às suas raízes (há mesmo uma versão de Baris Manco, Hemserim Memleket Nire) encontramos aqui uma sonoridade mais velada.

Como se antes ocorresse uma jusposição magnífica entre o universo nervoso dos Bubituzak e a voz dolente de Akyol, e agora houvesse uma banda a ser pensada para esta cantora. E, claro, como se antes a explicitação fosse permitida e agora fossem precisas novas formas de mascarar as intenções — no que isso tem, por si só, de violentamente político.