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Megafone

Da linguagem e outros demónios

Há ainda quem considere supérflua a discussão sobre linguagem e sobre a legitimidade (ética, entenda-se) de se continuar a usar palavras historicamente associadas e perpetuadoras de exclusão e/ou discriminação.

Parte significativa da guerra em curso entre progressistas pró-política de identidade e conservadores anti-politicamente correcto (com um novo branding resultante do seu alinhamento com a esquerda pseudo-universalista da luta de classes) trava-se no campo da linguagem. Depois de nos encontrarmos na mesma frequência de onda e de limparmos o ruído da (i)legalidade da proibição de palavras, entramos na camada da discussão que verdadeiramente importa: a relação entre linguagem e representações sociais. Dito de outra forma, como se relacionam a linguagem que utilizamos para nos referir a um objecto e o que pensamos sobre esse mesmo objecto. E se é certo que não conseguiremos nunca compreender a natureza humana sem a enquadrar numa longa história filogenética, também o é que a biologia e a neurociência, sem as ciências sociais, a história e a filosofia, são fotografias a preto e branco de um fenómeno tridimensional a cores.

Não é preciso termos a destreza filosófica de Wittgenstein, nem a grelha cientifica de Chomsky, para concluir a complexidade da relação entre linguagem e visão do mundo, e de como ambas se permeiam e influenciam mutuamente. Sabemos, por exemplo, que falar uma língua estrangeira aumenta a probabilidade de resolver dilemas morais de forma utilitária. Sabemos, também, que diferentes línguas produzem diferentes concepções de tempo, de espaço e até numéricas. Sabemos, inclusivamente, que a linguagem influencia a percepção da experiência emocional do outro, e que diferentes línguas atribuem diferentes características a pessoas ou objectos com base no seu género gramatical.

Apesar desta acumulação de evidência de que a linguagem tem uma relação estreita com a nossa experiência no/do mundo, há ainda quem considere supérflua a discussão sobre linguagem e sobre a legitimidade (ética, entenda-se) de se continuar a usar palavras historicamente associadas e perpetuadoras de exclusão e/ou discriminação. É certo que a linguagem não é estática e se presta a uma inerente elasticidade semântica com base no contexto histórico, sendo o exemplo maior dessa adaptação ao meio a reapropriação e resignificação que grupos minoritários fazem de palavras outrora usadas para os excluir.

Mas compreender essa mutabilidade orgânica da linguagem é também assumir que é precisamente no debate e na medição da temperatura social que essa transformação ocorre, e não num posicionamento inflexível — e paradoxalmente relativista! — de que as palavras são o que nós quisermos que elas sejam, diluindo-as do sangue e suor que fazem a sua história. Nessa discussão alargada cabem aspectos múltiplos: o papel da intenção subjacente à utilização de uma palavra, a legitimidade ou não das sensibilidades sociais, os limites do papel do Estado na padronização e judicialização das relações interpessoais. Mas podemos ter este debate sem nunca defender o indefensável: que as palavras que usamos não influenciam nem reflectem a nossa percepção do mundo.

É claro que reflectir sobre a linguagem e sobre a eventual exclusão de palavras do pool linguístico não é condição suficiente para assegurarmos a construção de um mundo mais inclusivo e menos discriminatório, mas é, parece-me, condição necessária para que transformações profundas a esse nível ocorram. Resta saber se todxs as queremos.