Histórias do interior: o “milagre” do Seixo, onde a população duplicou

Para ocupar uma dezena de casas de pedra, no monte do Seixo, há apenas um homem. Nas últimas semanas deu-se quase um milagre – a população cresceu 100 por cento. Ele arranjou uma companheira

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O Monte do Seixo, em Tavira, é um exemplo de despovoamento Nuno Ferreira Monteiro

Despovoamento rima com desertificação, em todo o Nordeste algarvio. Alcoutim, Castro Marim e Tavira (zona serrana) estão em queda livre na demografia. As pessoas vão tombando uma a uma, à medida que a idade avança, e nem rasto de gente jovem se vê no horizonte. Por aqui “só há notícias das pessoas que morrem”, lamenta a presidente da Junta de Freguesia de Cachopo, Otília Cardeira, atarefada, com a preparação dos festejos natalícios. “Vou cozinhar uma açorda de galinha, pois tenho um grupo de convidados da In Loco. Esta associação de desenvolvimento local, diz, “foi quem primeiro deu a conhecer o interior algarvio”, quando ainda não existia GPS para localizar o povoamento disperso.

A autarca, tecedeira de profissão, arranca no carro oficial da autarquia – uma carrinha todo-o-terreno de caixa aberta. O motor da viatura, ao acelerar, acusa o cansaço das muitas voltas e reviravoltas percorridas pela montanha. “Quando vou a reuniões, riem-se deste carro velho”, graceja. Ao descrever o que se passa à sua volta, a mulher de 68 anos faz uma espécie de marcha atrás no conta-quilómetros da vida. “A freguesia [concelho de Tavira] tinha 46 montes, mas hoje já só temos 31 habitados”, assinala. 

Os sobreiros, os que não se perderam no grande fogo de 2012, morrem aos poucos, de doença incurável. Os raros habitantes que ainda resistem sentem as vertigens de um tempo que não volta para trás. Projectos de centrais fotovoltaicas não faltam, e os chineses estão nesse negócio em Alcoutim, acompanhando uma tendência comum a outras zonas do Sul do país.

O ladrar dos cães faz eco pelo vale, mas não há quem ouça o apelo dos animais. O aglomerado, monte do Seixo, tem cerca de uma dezena de casas, onde não falta o equipamento de painéis solares, pregados em habitações de pedra. Porém, a modernidade fica-se por este equipamento. “Não se ouve um passarinho”, lamenta José Gonçalves, enquanto apanha medronhos. O homem, de 70 anos, sozinho, com balde de plástico no braço esquerdo, colhe os frutos silvestres que se hão-de converter, daqui por alguns meses, em aguardente.

No sítio dos Currais, onde nasceu, há três destilarias – lugares icónicos da partilha de saberes e de afectos. Por todo o lado, com a chuva que caiu de mansinho, os medronheiros surgem pujantes. O mesmo não sucedeu com outras espécies autóctones: “Este sobreiro é novo, e já tem aqui as marcas da doença”, aponta o agricultor, mostrando a mazela no tronco da árvore, de folhas pálidas.

José Gonçalves reside em Faro, mas é na serra que encontra a paz e tranquilidade para se reencontrar consigo próprio. “Perdi uma filha, de 39 anos, com uma doença terrível. Deixou-me três netinhos”, lamenta. A ida para Cachopo, explica, deve-se ainda à necessidade de “dar apoio” ao sogro, de 93 anos, e à sogra, de 88 anos, que vivem no lugar dos Currais. “Este ano, apanhei mais de mil quilos de medronho”, diz, prevendo que a colheita do próximo ano seja melhor.

Ninguém no Vale da Rosa

A descida até ao Seixo obriga a uma condução com cuidados redobrados, pelo caminho de terra batida. “Só lá vive o Valério, mas ele anda quase sempre por fora”, avisa, deixando cair lamentos: “É pena é não haver pessoas...” A presidente da junta de freguesia, em tom de graça, exulta: “A população do Seixo aumentou 100%, porque ele [Valério] arranjou uma companheira”. Ela vive no Garrobo, um monte próximo. José Gonçalves comenta: “Estavam os dois sozinhos, fizeram muito bem: ele deve ter aí uns 55 anos, a Celeste é um pouco mais velha”, adianta.

Durante a visita do PÚBLICO, confirma-se a indicação do vizinho: o casal estava ausente, algures na apanha do medronho. Os animais, cães e galinhas, sinalizam a presença humana, sem dar tréguas. A luz eléctrica só chegou ao local em 1996, através de um projecto de “desenvolvimento rural” no concelho de Tavira – um investimento de 215 mil euros. Nessa altura, os moradores já estavam a desaparecer por falta de perspectivas de futuro, e pela força da lei da vida.

No concelho de Alcoutim, no lugar do Vale da Rosa (freguesia de Vaqueiros), há mais de três décadas uma empresa francesa instalou um projecto experimental de energia fotovoltaica, que permitiu a cada um dos moradores ter um televisor, frigorífico e meia dúzia de lâmpadas acesas, em casa. Por falta de manutenção, o sistema falhou ao fim de três anos. A câmara municipal, entretanto, conseguiu que a electricidade lá chegasse através da rede da EDP. 

A medida não foi suficiente para manter as pessoas ligadas à terra. “Está tudo em ruínas, já lá não mora ninguém”, esclarece o presidente do município, Osvaldo Gonçalves, enfatizando: “Sentimos aqui, no Nordeste algarvio, as duas faces da interioridade: a desertificação física dos solos e o despovoamento”. O problema, esclarece o autarca, (vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve – Amal), entranhou-se como uma doença crónica: “Nós só sentimos, efectivamente, o efeito da desertificação quando nos começámos a aperceber de que não havia pessoas”. Metade da dezena de habitações do Vale da Rosa está reduzida a ruínas. A capacidade de resiliência da população, enfatiza o autarca socialista, “mitigou, de alguma forma, o êxodo que continua para a zona litoral”. 

Em contraciclo, na freguesia de Vaqueiros, está projectada a construção de um dos maiores parques fotovoltaicos da Europa. O grupo CITEC – China Triumph International Engineering, em parceria com a empresa We Link, do Reino Unido, anunciou no ano passado a instalação de um equipamento capaz de produzir electricidade para abastecer uma cidade com 130 mil habitantes, duas vezes a população de Faro. Os trabalhos, num terreno com área de 400 hectares, encontram-se ainda na fase de desbaste do mato, mas a perspectiva é de que a produção se inicie no final do próximo ano. O investimento anunciado é de 200 milhões de euros.

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O presidente da Câmara de Alcoutim critica a falta de articulação das políticas para o interior Enric Vives-Rubio

Estado em retirada

De regresso a Cachopo, há um número a reter. O autocarro municipal, de 30 lugares, faz o transporte diário de 12 crianças – de várias idades – daqui para a escola da freguesia de Martim Longo, já no concelho de Alcoutim. No edifício sede da junta funcionam, ao mesmo tempo, os serviços administrativos da autarquia, o posto médico e o serviço de Correios. No primeiro andar de um prédio a precisar de manutenção, os utentes falam de “noites mal dormidas”, enquanto trocam impressões sobre os sintomas de doenças – hipertensão, diabetes e colesterol, as mais frequentes. “Esta casa precisava toda de ser remodelada, leva mais de 40 anos sem manutenção”, queixa-se a autarca Otília Cardeira, convidando o PÚBLICO a ver uma exposição fotográfica sobre gente da terra. 

“Este, o ferreiro, já morreu”, aponta. À medida que sobe as escadas, vai passando as páginas da história local. Segue-se o quadro do albardeiro, em grande plano. Passa ao capítulo seguinte, faz uma pausa: “Estas mãos são de uma tecedeira”, comenta, como que se revisse no retrato. “A associação In Loco foi quem criou aqui uma oficina de tecelagem, trouxe professores da escola António Arroio para dar formação, e fizemos coisas muito interessantes”, destaca.

Assim, as mulheres de Cachopo recuperam técnicas antigas e o gosto de preservar as tradições. “Desapareceu quase tudo, só estamos duas na tecelagem”, diz, referindo-se ao progressivo desmoronar do tecido económico e social, alicerçado na promoção e venda do artesanato. “Chegámos a participar numa passagem de modelos em Vilamoura”, recorda.

Victor Palmeira, médico, prestou serviço em Cachopo, entre 1986 e 1989. Neste período, recorda, “nasceram apenas quatro crianças em toda a freguesia”. Na altura, a câmara reabilitou uma habitação para fixar clínicos. Não resultou. “Nunca cheguei a ocupar a casa”. Casado e com filhos, não deixou de residir em Tavira, porque os interesses familiares obrigavam a permanecer na cidade. A deslocação ao interior era compensada por um subsídio, atribuído pela administração regional de saúde, mas não foi isso que o motivou. “Mal dava para o combustível e os pneus do carro”, diz.

Osvaldo Gonçalves, cujo avô nasceu no Seixo, critica as medidas que têm sido aplicadas para revitalizar o interior. “Não existe uma interligação entre os vários projectos”. Em meados dos anos 80, exemplifica, foi o criado o Plano do Nordeste Algarvio, o que permitiu a construção de vias e equipamentos públicos. Seguiram-se os apoios à reflorestação. Nesta sub-região foram plantados 37 mil hectares de pinheiro-manso (844 árvores por hectare) para evitar a erosão do solo, mas ficou por avaliar o resultado e o impacto ambiental desse projecto. 

“Todas essas medidas padecem da falta de continuidade e de harmonia com os instrumentos de ordenamento do território”, sintetiza. Além disso, destaca a necessidade de manter os serviços públicos nesses locais. “Perde-se o contacto com o terreno, retira-se a presença do Estado, e cria-se uma realidade virtual”, diz, lembrando que desapareceram do concelho as extensões de desenvolvimento rural e do Ministério da Agricultura, entre outras. 

A história do Alcoutim divide-se entre o interior a zona raiana do Guadiana, marcada pelas histórias do contrabando e emigração. A ponte transfronteiriça, flutuante, que une as duas margens do rio (Alcoutim-Sanlúcar) só funciona três dias por ano, em Março, durante o festival do contrabando. Uma vez passados os festejos, os dias desaguam na “falta de compreensão” da administração central, sublinha, para encarar o interior de um país debruçado sobre o litoral.

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