Miúcha (1937-2018): havia música na luz dos olhos dela

A intérprete e compositora brasileira que cantou os grandes da bossa nova esteve em 2015 no Festival Literário Internacional de Óbidos, a homenagear o poeta Vinicius de Moraes, que a ensinou a tocar violão. Irmã de Chico Buarque e mãe de Bebel Gilberto, morreu quinta-feira, aos 81 anos.

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“Sempre sorridente e gostando muito de viver, Miúcha era toda música”, escreveu Caetano no Instagram dr
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Miúcha com Georgiana de Moraes, filha de Vinicius, em 2015 Marcelo borgongino
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Miúcha com Stan Getz, nos anos 1970 DR
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Em estúdio com Tom Jobim e Chico Buarque, em 1977 Ivan Klingen/Instituto Antonio Carlos Jobim

Espelhava num eterno sorriso o seu amor pela vida. Cantora e compositora, tão discreta quanto marcante nos seus mais de 40 anos de carreira e 81 de vida, Miúcha morreu esta quinta-feira num hospital do Rio de Janeiro, de paragem respiratória. Irmã de Chico Buarque, ex-mulher de João Gilberto e mãe de Bebel Gilberto, Miúcha lutava contra um cancro no pulmão e fora internada este mês devido a complicações relacionadas com a doença, como noticiou O Globo.

“Era como a seda, uma voz que chegava onde queria com o balbuciar dos cochichos e a leveza do vento”, escreveu o crítico e repórter Júlio Maria, n’O Estado de S. Paulo. “Miúcha era na vida o que cantava. Amorosa, leal, entregue, sorridente, da espécie de gente que gosta de gente.” Por sua vez, Caetano Veloso, que conheceu Miúcha em Salvador da Bahia quando ela estava grávida de Bebel, escreveu no Instagram: “Ao longo dos anos, Miúcha teve presença sempre luminosa em minha vida. Tanto como artista quanto como pessoa”. E sublinhou, nesta nota, o seu gosto pela vida: “Sempre sorridente e gostando muito de viver, Miúcha era toda música, na intimidade ou no palco do Canecão. Com Vinicius e Tom. E em todas as gravações a solo que fez.” Vários artistas, brasileiros e não só, assinalaram “a grande perda” ou a tristeza sentida pela morte da cantora.

Um coral de sete irmãos

Nascida no Rio de Janeiro, em 30 de Novembro de 1937, Miúcha (diminutivo de Heloísa Maria Buarque de Hollanda) foi a primeira dos sete filhos de Sérgio Buarque de Holanda e Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim, ele historiador, jornalista e crítico literário (1902-1982), ela pintora e pianista. Casaram em 1936 e Miúcha nasceu no ano seguinte, à frente dos irmãos que viriam, como ela, a seguir o caminho da música: Francisco (Chico Buarque nascido em 1944), Ana Maria (1948) e Maria Christina (1950). Ainda menina, reza a sua biografia oficial, formou um conjunto vocal com todos os irmãos, com os já citados e Sérgio, Álvaro e Maria do Carmo. Convidado a leccionar na Universidade de Roma, o pai arrastou consigo a prole. Vinicius de Moraes, então embaixador em Paris, era visitante assíduo da família. Foi com ele que Miúcha se atreveu a cantar em público (Vinicius passou-lhe o microfone, de surpresa) e foi também com ele que, ainda menina, aprendeu a tocar violão, arte que ensinaria depois ao irmão Chico.

A canção Maninha, que muitos conhecerão de cor, foi escrita por Chico a pensar na irmã: “Se lembra da fogueira/ Se lembra dos balões/ Se lembra dos luares dos sertões/ A roupa no varal, feriado nacional/ E as estrelas salpicadas nas canções.” Viriam a cantá-la em dueto. Mas antes Miúcha faria o seu próprio caminho na música. Que começou, na verdade, por ir estudar para Paris História de Arte, na Sorbonne e na École du Louvre, com uma bolsa do governo francês. Diz o Dicionário Cravo Alvim da Música Brasileira que por essa época ela viajou pela Itália e pela Grécia, tocando nas cidades por onde passava. Mas foi em Paris, no bar La Candelaria, em Saint-Germain, onde ela timidamente cantava bossa nova e tocava violão, que veio a conhecer Violeta Parra e, depois, João Gilberto, com quem viria a casar em 1965. João, já separado de Astrud Gilberto (com quem fora casado de 1959 a 1964), estava em Paris para tratamentos de acupunctura devido a espasmos musculares na mão direita. Mas acabou por ir curá-los em Nova Iorque, para onde iria depois viver com Miúcha e onde nasceria, em Maio de 1966, a futura cantora Bebel Gilberto.

João, Tom, Vinicius e o mundo

Foi já quase separada de João Gilberto (viveram juntos oito anos) mas artisticamente ligada a ele, que Miúcha iniciou a sua carreira como cantora profissional, ao lado de João e do saxofonista norte-americano Stan Getz, no disco The Best of Two Worlds, gravado em 1975 e lançado em 1976 (embora o seu nome não fosse creditado, à época, na capa do disco). Esse passo levou-a ao Festival de Jazz de Newport, actuando posteriormente com Stan Getz em vários espectáculos. Tom Jobim surgiu-lhe no mesmo ano e seria a “estação” seguinte: Miúcha cantou na faixa Boto, num disco dele (Urubu), e gravaram juntos o LP Miúcha e Antonio Carlos Jobim, que era para ter sido o primeiro disco dela a solo e resultou numa extraordinária parceria, de onde ressaltam as canções Pela luz dos olhos teus (cujo sucesso foi ampliado pelas telenovelas Dona Xepa, em 1977, e Mulheres Apaixonadas, em 2003), Vai levando, Samba do avião, Sei lá e a Maninha de Chico.

Ao longo de mais de 40 anos de carreira, Miúcha gravou canções dos maiores compositores da bossa nova, Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes (aliás, foi a única intérprete a cantar com todos eles, sendo também a única cantora a gravar três discos com Tom), mas não se ficou por aí no repertório. Cantou Braguinha, Guinga, Chico, Aldir Blanc, Novelli, Baden Powell, Toquinho, Carlos Lyra, Moacir Santos, João Donato. E também escreveu várias canções.

“A minha história está ligada e interliga histórias de muitos amigos de trabalho. É bom sentir e saber que fiz isso...”, disse Miúcha em 2016, numa entrevista ao jornalista Miguel Arcanjo Prado a propósito dos últimos concertos que deu, no Sesc Bom Retiro, um centro cultural de São Paulo, quando festejava os seus 40 anos de carreira. No ano anterior, 2015, esteve pela última vez em Portugal, numa actuação no Festival Literário Internacional de Óbidos, onde homenageou (e cantou) Vinicius de Moraes, ao lado de Georgiana de Moraes, filha do poeta e de Lila Bôscoli.

Uma herança de 14 discos

Ao longo da sua carreira, Miúcha gravou um total de 14 discos: The Best of Two Worlds (1976), Saltimbancos (1977), Gravado ao vivo no Canecão, com Tom, Vinicius e Toquinho (1977), Miúcha & Antonio Carlos Jobim (1977), Miúcha & Tom Jobim (1979), Miúcha (1989), Rosa Amarela (1999), Vivendo Vinicius ao vivo, com Baden Powell, Carlos Lyra e Toquinho (1999), Compositores (2002), Miúcha canta Vinicius & Vinicius (2003), Outros Sonhos (2007), Miúcha com Vinicius/Tom/João (2008) e, por fim, Miúcha ao vivo no Paço Imperial (2015).

A evocação da obra de Vinicius de Moraes no disco Vinicius & Vinicius foi vista assim pelo PÚBLICO em 2003, ano do seu lançamento: “Um disco de ‘família’, caloroso, próximo da luz e da memória, arrastando consigo para duetos o irmão, Chico Buarque, mas também Zeca Pagodinho, Bebel Gilberto, Toquinho ou Daniel Jobim, com quem recria a belíssima Pela luz dos olhos teus, que ainda se mantém insuperável no dueto também familiar que a própria Miúcha gravou com Tom Jobim num álbum mágico e quase caseiro de 1977. Um curioso pormenor é a inclusão de Saudades do Brasil em Portugal, que Vinicius compôs em Lisboa e gravou em casa de Amália, numa sessão editada em disco e reeditada em CD.” Agora que o mundo se despede de Miúcha, fica-nos a lembrança da sua voz, do seu sorriso e da música que havia na luz dos olhos dela.